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Os intelectuais periféricos pedem passagem

Mano Brown - FB

Mano Brown é um intelectual.

Repetindo: o líder dos Racionais MC’s é um intelectual! Quem afirma isso é o sociólogo Rogério de Souza Silva, que defendeu na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) a tese de doutorado “A Periferia Pede Passagem: Trajetória social e Intelectual de Mano Brown”.

O trabalho acadêmico partiu de uma hipótese que, à primeira vista, soa bastante aceitável: o hip-hop, e particularmente o rap, tem o poder de salvar vidas de jovens nas comunidades pobres brasileiras. Mas o que realmente impacta na tese é o reconhecimento do autor de que os artistas populares representam os novos organizadores da cultura, fazendo emergir a figura do “intelectual periférico”.

Por que e como Mano Brown se transforma em um intelectual é a questão que se propôs a investigar o pesquisador da Unicamp. Ele explica que foi a partir da figura do líder dos Racionais MC’s, como expoente do rap brasileiro, que muitos jovens passaram a reconhecer suas origens, histórias e identidades. Outras lideranças históricas, como Malcom X, Martin Luther King, Zumbi dos Palmares e Nelson Mandela, também inspiraram muitos seguidores do hip-hop. “Esses jovens, na sua maioria negros e pobres, alcançam uma consciência para reivindicar o reconhecimento dos seus direitos”, escreveu.

Na sua investigação, Souza Silva procurou traçar a trajetória do rap brasileiro, cujo ponto de partida se relaciona com um contexto social muito específico. Nos anos 1980, as grandes cidades passam a sentir os reflexos de anos de migrações em massa que transformaram camponeses em operários. Cidades despreparadas para receber esse aumento populacional tratam de empurrar o trabalhador braçal para as periferias sem a menor infraestrutura. Tem-se ao mesmo tempo o fim da ditadura e o sonho de que a redemocratização traga soluções para esses problemas. Mas não traz. No fim dessa década e início da seguinte, a violência explode e o pobre vira o vilão dessa história. O rap vira a tradução dessa luta pelo reconhecimento e um apelo à não discriminação.

“Mano Brown se torna uma referência, não só pela parte artística, mas pela liderança, que passa por sua fala, pela postura, pelo olhar e até pela vestimenta”, explica Souza Silva. Referenciando Pierre Bourdieu, que teoriza sobre os campos sociais, o pesquisador afirma que o vocalista dos Racionais domina muito bem os códigos do hip-hop, enquanto outros rappers não conseguem o mesmo feito.

GOG (Genival Oliveira Gonçalves) tem uma fala muito boa, também politizada, enquanto o Mano Brown prefere o linguajar mais simples e direto. Já o Gabriel o Pensador, que tem um talento fantástico, é um grande produtor cultural, mas não circula com naturalidade no campo social do hip hop”, diz.

No ápice da violência nos anos 1990, as periferias passaram a interessar à mídia (pelo viés negativo) e a sociólogos e antropólogos (pelo lado acadêmico), ao mesmo tempo em que organizações não-governamentais passavam a ocupar o papel do Estado (na falta dele).

Do lado musical, Mano Brown foi a figura que mais se destacou, assim como na literatura marginal sobressaíram nomes como Paulo Lins (Rio) e Ferréz (São Paulo). Não por acaso Souza Silva fez sua dissertação de mestrado sobre esse tema, publicando, em 2011, o livro Cultura e Violência, Autores, Contribuições e Polêmicas da Literatura Marginal (Editora Annablume).

Cidade Tiradentes, anos 1980 - Foto Kazuo Nakano

Cidade Tiradentes, anos 1980 – Foto Kazuo Nakano

Filho de pai porteiro e mãe diarista, o sociólogo cresceu numa Cohab (conjunto habitacional popular) de Itapevi, na Grande São Paulo, ouvindo sons de sua casa e de vizinhos tocando rap, sertanejo, forró e brega, num “emaranhado musical brasileiro bastante eclético”.

Foi, então, cursar ciências sociais na Unesp de Araraquara, imaginando que poderia virar professor de história, geografia, filosofia, sociologia e antropologia. Lá teve contato com a chamada “Escola Paulista de Sociologia”, cujos nomes mais representativos são Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni. Foi o suficiente para motivá-lo a seguir a vida acadêmica.

Na pesquisa de doutorado, Souza Silva recorreu aos estudos culturais de autores como Stuart Hall, Raymond Willians e E.P. Thompson, procurando fazer uma análise da cultura das relações de poder interrelacionada às estratégias de mudança social. Em sentido largo, esses estudos enfatizavam a necessidade de ouvir a “voz do outro”, venha de onde vier, inclusive das periferias.

Antonio Gramsci, filósofo e cientista político italiano (1937-2007)

Antonio Gramsci, filósofo e cientista político italiano (1891-1937)

Outra referência utilizada pelo pesquisador foi a do filósofo e cientista político Antonio Gramsci, que falava que o poder das classes dominantes sobre o proletariado poderia ser mantido sobretudo pelo conceito de hegemonia cultural. Para fazer frente a esse tipo de controle, o marxista Gramsci defendia a importância que tinham os “intelectuais orgânicos” que surgem esponteanemente de cada grupo social.

Por que as periferias não haveriam de forjar seus próprios intelectuais?, questiona Souza Silva. Mano Brown seria o maior expoente, mas outros nomes como Rapin’ Hood, Thaíde, Marcelinho (Max BO) e até mesmo Emicida também podem ser incluídos nessa lista.

A ascensão de intelectuais periféricos se dá paralelamente à chamada crise dos intelectuais tradicionais, exatamente nos anos 1990 e 2000. Sobretudo os de vertente progressista, sucumbidos pela lógica neoliberal que reinou no período. E é nesse sentido que os estudos culturais acabam por afirmar que os valores estéticos baseados apenas na produção de livros e outras obras artísticas não podem servir de único referencial do nosso tempo.

A influência do intelectual sobre a opinião pública está minimizada e não podemos deixar de reconhecer o enfraquecimento progressivo do seu papel de oráculo que, cada vez mais, encontra dificuldade em fazer-se ouvir“, escreveu na tese. No fundo, afirma Souza Silva, não se pode imaginar que alguns poucos eleitos sejam capazes de definir para o resto da sociedade os signos “corretos”. Se essa visão prevalecesse, apenas as pessoas que dominam os códigos há mais tempo teriam controle do que vem a ser “boa” ou “má” cultura. E possivelmente Mano Brown seria só mais um mano.

Clique para acessar a tese de doutorado

 

Editor de FAROFAFÁ, jornalista e mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo.
  1. Preto Zezé Responder

    PARABENS PELA MATERIA, DEPOIS DE MUITO TEMPO, A ACADEMIA RECONHECE ESSE CARATER INTELECTUAL DO RAP!

  2. Maicon Bolinha Responder

    A Periferia só tem a ganha com cada reconhecimento!!!

  3. Luana Tolentino Responder

    Bela matéria! Excelente notícia!

  4. Marcia Responder

    Mano Brown passou uma ideologia e agora a modificou. Aí está o problema.

  5. JAIMESON Responder

    por que não cita o Eduardo,ele é mais realista e suas letras relatão a verdade do que acontece no Brasil.

  6. Fabio Responder

    Reportagem carregada de preconceito, o autor noticia que Mano Brown é um intelectual num discurso carregado de surpresa como se isso fosse algo incrível, notável, surpreendente, como se um rapper, negro e da periferia não pudesse ser um intelectual, como se fossem coisas diametralmente opostas. Atribui a Mano Brown o titulo de intelectual quase como se fizesse um favor, em aceitar ouvir esta voz periferica.
    Mano Brown é sim um intelectual, todo mundo que já ouviu Racionais MC’s sabe disso, a letras são inteligentissimas, acidas e cheias de referências. Mano Brown não precisa da chancela de um jornalista classe média pra que ele enfim seja alçado a categoria de um intelectual.

    • Eduardo Nunomura Responder

      Fabio, obrigado pela crítica. Mais que entendo. Não serve de desculpa, mas o meu objetivo foi o oposto. Na academia, o mundo das universidades, Mano Brown jamais foi reconhecido como intelectual, não no nível maior, que é o doutorado. Porém, obviamente, você está coberto de razão, porque ele realmente sempre foi considerado um intelectual das periferias (e do resto do mundo). Aliás, o objetivo era realmente esse. Prometo melhorar da próxima vez na escrita.

      • Thiago Dias Responder

        Excelente matéria. Concordo com a crítica acima- feita pelo Fabio, mas, é a própria tese que, aparentemente, trata o intelectual de periferia como algo exótico.
        É certo também que Mano Brown ou os Racionais não precisam de matérias de jornal ou teses acadêmicas para legitimar sua obra, que se impõe contra todas as armadilhas da indústria cultural. Por outro lado, quando um sociólogo dedica vários anos de sua vida para desenvolver um pensamento sobre uma obra, com a clara intenção de identificá-la com valores positivos… bem eu encaro isso como um grande avanço. O discurso da banda, envolto pela aura do interesse acadêmico, pode chamar a atenção de pessoas que nunca pararam para ouvir o som. Acabei de fazer o download. Vou ler com prazer. Muito obrigado por compartilhar.

    • Giovani Responder

      Fábio, vc tem razão em muitos pontos. Quem acompanha a trajetória de MCs que fazem a diferença nas quebradas não precisa de provas de que eles são, sim, intelectuais! A questão é que essa matéria parece ter como público-alvo aqueles que não reconhecem isso (classe média ignorante, como diz a Marilena Chauí), que fazem questão de continuar negando e acreditando que é tudo “bandido, vagabundo”. E vc não tem noção como se sentem incomodados com esses estudos os setores conservadores das universidades, que representam o pensamento da classe dominante. Eu trabalho com o Ferréz no mestrado em literatura e enfrento críticas pesadas e absurdas de professores e alunos mais conservadores, que parecem querer que a literatura continue sendo um “quitute que só pode ser feito e apreciado por poucos”. Esses trabalhos acadêmicos são um socão na cara da classe média preconceituosa, porque provam (embora não precise de provas, como vc mesmo disse) o contrário do que o pensamento raso e cheio de senso comum da classe média quer acreditar. Boa crítica!

      • Leandro Responder

        Giovani – Trouxe uma ótima perspectiva.

      • Pedro Alexandre Sanches Responder

        Demais essa observação, Giovani! Incômodos podem vir (e vêm) de quaisquer lados, mas a gente sabe que as coisas estão se transformando mesmo é quando elas geram incômodo!

      • Elaine Carvalho Responder

        Giovani, não conhecia o Férrez ( ainda n conheço rs) mas na semana passei , assisti uma apresentação de tcc sobre ele, chamou-me muito a atenção. Estou ainda conhecendo a literatura ‘marginal’, não tenho fundamentação para discutir . Trabalho com o cânone, pesquiso a figura feminina na poética de João Cabral e muito tem me interessado os luso-poetas contemporâneos. Outro dia ouvi de um professor ‘ para quê o João Cabral numa sala de periferia ? Ele n é para elite? ‘ e comecei a pensar, e por que não? meu aluno da periferia não tem condições de ler um João Cabral? Não seria isso um preconceito ao avesso? Por que toda essa idolatria ao cânone?
        Fato é que o cânone está no altar da escola básica , da academia e que trabalhos como o seu são de extrema importância para se fazer ouvir as vozes silenciadas durante todo o decurso da história desse país e hoje, ‘ invisibilizadas’ por aqueles que querem a todo preço, manter o seu status quo.

        Eduardo, gostei do seu texto , para nós não é surpresa nenhuma, só para aqueles que com certeza esperneiam e sentem os cotovelos doerem de tanto recalque lendo matérias como essa. O aparato teórico do cara é muito bom, com certeza deve ser um ótimo trabalho! Abraços.

    • Guido Campos Responder

      Muito bom seu comentário Fabio acredito que e’ por ai mesmo, e assim a favela ta cheia de intelectuais o Brown não e’ exceção, temos em todo brasil nas grandes e pequenas periferias pessoas trabalhando com cultura, fazendo seus trabalhos e se desenvolvendo e envolvendo a comunidade as inserindo em um espaço antes não possibilitado, o Brown e’ uma referencia e’, mas infelizmente temos costume de enfatizar as pessoas que estão na mídia como se somente elas fossem a voz, elas atingem a maioria, mas a maioria e feita em grupos e nestes grupos sempre existe um suburbano produzindo intelectualidade marginal e social o amigo do artigo por ser um sociólogo poderia começando defender sua tese com mais profundidade nestas redes que acontecem no brasil e terminando com um ícone, bem provável que tenha feito isto e a matéria tenha dado mais enfase na questão dele rotular o Brown de intelectual, como disse temos o mal costume de somente mostrar os que estão nos graus mais elevados da escada…Se o amigo fosse relatar todos os intelectuais que fazem parte da parte marginalizada não seria uma tese de doutorado e sim de P.H.D

  7. RAFAEL Responder

    Eu discordo do Fabio. Se prestar atenção neste trecho de Negro Drama “e a minha mãe diz: Paulo acorda, pensa no futuro que isso é ilusão, os próprio preto não tá nem ai com isso não, olha o tanto que eu sofri, o que eu sou, o que eu fui, a inveja mata um, tem muita gente ruim”, vai perceber que Mano Brown sabe que ainda não é reconhecido como gostaria, nem na periferia, nem entre a maioria dos negros e muito menos na classe média e classe alta. É uma das últimas músicas produzidas pelo artista e fica claro que essa questão ainda o incomoda. Não achei preconceito, longe disso. Acho que a matéria está bem escrita e se prestar atenção no que realmente importa, a questão citada por Souza Silva, que escreveu “A influência do intelectual sobre a opinião pública está minimizada e não podemos deixar de reconhecer o enfraquecimento progressivo do seu papel de oráculo que, cada vez mais, encontra dificuldade em fazer-se ouvir”, percebemos que a ideia de intelectual muda. Mano Brown é um intelectual moderno, e é isso que é dito. Se existe preconceito, este é com a ideia de intelectual. Na verdade é um elogio. É um vanguardista pelo que entendi e reconheço do artista. Mano Brown é mais eficiente do que diversos letrados e acadêmicos, mas sem apoio e reconhecimento esse poder não é aproveitado em toda sua potencialidade.

    Eduardo Nunomura,

    Ainda em tempo, foi uma bela matéria.

    Abraços,

  8. Thor Responder

    Muito bom, parabéns, faltou citar alguns nomes, sei que não dá pra citar de todos os grandes rappers nacionais mas, Eduardo do Facção Central, na minha opinião é indispensável ao falar de intelectuais do Rap Nacional, que trabalham à anos salvando vidas nos morros. E um grande salve ao Sabotage!

    • Eduardo Nunomura Responder

      Thor, você tem razão: o meu xará do Facção Central é outro intelectual periférico. Em relação ao Sabotage, acabei não incluindo isso, mas curioso lembrar que ele é o que, na academia dizemos, a contraprova do nosso objeto de estudo. Por quê? O sociólogo queria provar que o hip-hop/rap salva vidas. Mas isso não ocorreu com o Sabotage. Obviamente, se estivesse vivo, seria um intelectual. Infelizmente, nos deixou muito cedo.
      Rafael, a sua leitura era exatamente o que queria ter passado aos leitores. Mas, novamente, super entendo o Fabio.

  9. Alberto Gzo Responder

    Zumbi dos Palmares era um canalha, que “libertava” os escravos das propriedades próximas ao quilombo e depois os fazia trabalhar em Palmares em um regime também de escravidão.

    • Marcos Responder

      Ai, é mesmo, leu naquele livrinho de humor chamado “Guia politicamente incorreto da América Latina”? Não me diga!

      • Leandro Responder

        HAhahahahaha

    • Pedro Alexandre Sanches Responder

      E aí, Alberto, o que você quer dizer com isso?

  10. Filipe Responder

    Bela matéria! Parabéns, Carta Capital por trazer boas notícias como essa.
    Sou fã de Mano Brown. O rap dos Racionais é racional mesmo, muito intelectual.

  11. Marcelo Responder

    o intelectual do racionais não é o Mano Brown, é o Edie Rock

  12. Juan Aragón Responder

    Legal a matéria, só como amante de rap nacional não poderia faltar com dizer que faltou mencionar o maior nome do rap nacional, O Sabotage, Que morreu de em seu trabalho tem uma demonstração de grande consciência dos problemas sociais e como isso é percebido pela sociedade.

    Um abraço.

  13. João Victor Responder

    “ser um preto tipo A custa caro”

  14. willian rodrigues Responder

    Estão todos falando do brown mas o edi rocky é tão bom quanto,ha proposito,ja comentaram muito do (fabio),o problema do brasileiro é justamente este sempre esta a procura de um erro,e tem mais não se dá a uma pessoa o que já é dela,acho que o escritor não fez a matéria para dar um titulo ao (intelectual mano brown) mas mostrar q o rap e a periferia estão evoluindo em caminho bom!se vcs repararem no mercado rap não se fala mais em tanta violencia como antes,afinal é apologia sim a pessoa q escuta facção central e não fica com ódio do mundo deve ter comprado um cd errado,e não to recriminando os cara pois sou fanatico pelo facção entre outros rappers pesados mas enfim vai do ponto de vista d cada um eu particulamente curti muito a materia parabens

  15. Eu, Carlos Santiago.blogspot.com Responder

    Na periferia, o Mano Brown – assim como o Eduardo (Facção) e o Edi Rock – já possui cadeira permanente na “Academia Periférica de Letras”. Ser reconhecido “da ponte pra lá” é mais do que merecido.

    Parabéns pelo artigo e pela coragem de defender esta tese. Não deve ter sido fácil.

    “Não entende o que eu sou? Não entende o que eu faço? Não entende a dor e as lágrimas do palhaço?”

    • Eduardo Responder

      Cara, o Eduardo “Revolução” é muito pedante. O cara engoliu o Estatuto do PSTU e não vira o disco. Não é um discurso de periferia; é um discurso que um estudante / discente construiu como “discurso de periferia” e ele reproduz apenas. É a “revolução” que a classe média “engajada” quer que o pobre faça. Como já dizia o Joãozinho Trinta, quem gosta de miséria é intelectual. O pobre vive a miséria, ms não a glamuriza sob a áurea de “honestidade intelectual” ou “humildade proletária”. A esquerda acadêmica que quer se apropriar do discurso do pobre conhece apenas o pobre livresco e não o pobre de fato: o aluno da FAU, FFLCH ou ECA, QUASE sempre bem-nascido e bem criado, está muito longe dessa realidade.

      • Rodrigo Responder

        Eduardo, este discurso é vazio. Alguém que não vive na miséria então tem de optar em ser coxinha pra ser coerente, senão é “traidor”? Tem de precisar psicologicamente da desigualdade pra se sentir valorizado?
        Há muitas maneiras de se conviver com quem tenha menos condições sociais do que você, quem quer incutir Filosofia do Girino na mentalidade dos pobres é que quer usar os raros que passarem pelo funil pra legitimar a desigualdade e assim esnobar os demais.

  16. Vinícius Bopprê Responder

    Matéria espetacular sobre um tema tão incrível quanto.

    O som dos Racionais, além de promover o conhecimento de todo esse contexto histórico etc., deve ser colocado no mesmo patamar de outras obras-primas da música e (por que não?) da literatura. Músicas como Diário de um Detento e Tô ouvindo alguém me chamar são tão bem trabalhadas esteticamente que só podem ser chamadas de obras de arte.

    Parabéns e obrigado!

  17. Paká Responder

    Show de bola a matéria. Rogério de Souza, foi um bom professor.
    Parabens

  18. Eduardo Responder

    É muito importante que a periferia tenha voz, bem como as classes excluídas, mas ele NÃO É INTELECTUAL. Sinto muito. Não que intelectualidade seja algo necessariamente relacionada à vida acadêmica: em hipótese alguma é, mas o vejo como um “poser”, como um demagogo. Basta que se simpatize com a pessoa para considerá-la como intelectual ou que tenha mérito. Curioso que essa exaltação ao discurso vazio mas de “atitude” venha justamente da rapaziada que, ao menos no discurso, é alvo das ideias dele: menina branca, que estudou em escolas particulares e hoje, em um misto de humildade forçada caricata com um pouco de culpa por sua condição social privilegiada, acaba exaltando qualquer coisa popularesca como “expressão da periferia”. Basta se fazer um discurso libertário ou pró-banditismo que a molecada do PSTU vai à loucura e tem orgasmos, francamente…

    • Eduardo Nunomura Responder

      Prezado xará, vou levar sua crítica em consideração, mas fiquei na dúvida se ela se refere ao autor do texto ou ao autor da tese. Há inúmeros casos de “meninas brancas” e meninos brancos, bem-nascidos, que acabam por exaltar o “perifa style”, se é que me entende. E é por isso que creio que o estudo do pesquisador é bastante corajoso por vir, justamente, de alguém que ascendeu social e intelectualmente da periferia. E eu, jornalista que já trabalhou em grandes veículos de comunicação, também vim da periferia, no extremo leste da capital paulista.

  19. Louise Responder

    O texto – pra além do bom ou ruim – está feito. É importante que seja feita divulgação científica, e sinceramente, a perspectiva que esse estudo pode vir a abrir, é de uma natureza bem diversa. O esforço para atualizar e renovar o cânone é imenso, e até hoje os alunos ficam atrelados à um programa de aulas de português altamente excludente, por não tratar de referenciais presentes no cotidiano dos alunos. Na escola que sonho em ver, os alunos tratariam muito mais da cultura de hip-hop e rap, na construção de mundo fantástica e de valor inestimável, que um grande número de rappers trançou com suas letras.
    Não vejo, no entanto, relevância alguma para que compartilhemos de informações que denigrem a imagem do pesquisador, no tom patético que coloca com as afirmações: “Lá teve contato com a chamada “Escola Paulista de Sociologia”, cujos nomes mais representativos são Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni. Foi o suficiente para motivá-lo a seguir a vida acadêmica.”
    Na boa, está aí a contradição que deixa todo seu texto incoerente. COMO ASSIM babar ovo pra esses caras, mirando eles no céu pra falar no mesmo texto, que o mano Brown foi reconhecido pela academia? E outras construções estão ruins o suficiente pra um leitor covarde possa traçar comentários só machadando a incapacidade de perfeição alheia. O caso é que o Eduardo Segundo, esse dos post acima, conhece o Eduardo Primeiro – quem escreveu a matéria, e por ele tem o menor dos apreços, conseguindo inclusive vomitar muito mais veneno que eu, por que ele se presta a uma crítica que leva do nada ao lugar nenhum: ele chega à uma pseudo-síntese da psique daqueles que ele julga não terem ações genuínas quanto ao engajamento. Acha melhor todos trabalharmos para o lucro e amém ou o quê?
    Cada um com o seu recalque e eu com o meu. Sei que é importante que se escreva uma matéria dessas. E também tenho certeza que ela adquiriu tons lastimáveis, facilmente corrigidos com leituras públicas (ao menos 3, a 3 ouvidos de gente objetiva e que enfie a faca na caveira sem dó) e mais reescrita após esse processo. ISSO, É LÓGICO, se Eduardo Primeiro quiser melhorar sua escrita para ela poder dialogar com os seres vivos para além do “tá lindo – lindo da mamãe” — à la elogios vazios ios ios ecos de babas ovo como aquele babado em fhc.

    • Eduardo Nunomura Responder

      Oi, Louise, ça va?
      Sua crítica é ao meu texto e vou tentar aprimorá-lo, ok? Não conheço o Eduardo Segundo, e acabo de responder a ele. Não vi tanta carga preconceituosa da parte dele. Meu objetivo não foi desqualificar o pesquisador. Ao contrário, foi valorizá-lo. Se estamos falando de intelectuais periféricos, por que não ver e encarar o próprio pesquisador como um intelectual periférico? Discordo de sua opinião de que eu tenha “babada em fhc”, mas essa construção narrativa veio do próprio sociológo. Na entrevista, ele fez questão de frisar que tomou consciência de “um outro mundo” a partir da Escola Paulista de Sociologia. Creio que as pessoas com pensamentos progressistas têm alguma dificuldade em reconhecer a importância do FHC intelectual – o que é compreensível diante de seu governo -, mas isso não pode ser motivo para a simples desqualificação das ideias do sociólogo da USP.
      Agradeço as suas observações, elas mostram que o texto incomodou. ;-D

  20. isj Responder

    muito bom mesmo,esse mano ta de parabens…mais coloca emicida e max bo ai é muita tiração!!!!

  21. david Responder

    rap é o som. conteúdo, informação e muita verdade jogada na cara alheia. ninguém precisa estudar o assunto para saber disso, basta não ser um grande e escroto fã de musica de novela 😉

  22. Wallace eduardo Responder

    Mano Brown relata pelo rap o que realmente se passa numa comunidade, transmite qual o sentimento da comunidade que não consegue se expressar ou tem medo disso. Ele se nao me engano ainda é morador do capão redondo, onde a violencia tanto de policiais como de bandidos forçam as pessoas a não se expressarem da forma como querem. Ele é uma pessoa que tomou partido de ser a voz da comunidade nem que para isso tenha que pagar um preço. O movimento hip hop é fantastico e deveria ser mais divulgado. Pena que a midia e as pessoas de alto poder aquisitivo não financiam movimentos como esse que mostram a realidade de uma comunidade carente e tentar diminuir os problemas que a norteiam.

  23. LC Responder

    Sempre foi uma satisfação ver o Prof. Eduardo Suplicy interpretando Racionais nas festas de formatura da FGV-SP. Mito.

  24. Lucas Responder

    Bom, vi alguns comentários dizendo que tem muito menino branco de classes privilegiadas que exaltam o Brown e outros artistas do rap, e isso é verdade, mas não entendi qual seria o problema. O rap não deve ficar preso a periferia, o hip hop é uma ferramenta modificadora muito eficaz fora e dentro da favela, tentar restringi-lo a determinadas pessoas é cair no jogo do sistema que quer nos ver exaltando Michel Teló e Anitta.
    Sou um desses meninos brancos de classe média, que estudou em escola particular e que escuta rap, e posso dizer com convicção que foi o rap que gerou meu interesse pela leitura de livros de história, filosofia, sociologia e até mesmo romances. Caso eu não tivesse escutado rap desde pequeno eu provavelmente seria mais um elitista que tenta restringir gênero musical pela renda.
    Agora sobre a matéria. Acho que dá pra dizer que o Brown é intelectual, sim. Ele é uma pessoa que estabeleceu ideias que foram relevantes pra um grupo e para parcela da sociedade, isso é ser intelectual.

  25. João Carlos Torres Responder

    Só queria fazer presente a lembrança do grande Sabotage.
    O poeta do canão e de toda periferia.

  26. Rodrigo Responder

    Mano Brown é inteligente mas não é intelectual. Possui letras articuladas e incisivas, mas não são letras intelectualizadas. É importante para muitas pessoas, trata de questões espinhosas de forma inteligente, ajudou a muitas pessoas não caírem para o rumo da auto-destruição, mas não é intelectual. É engajado, inserido, mas não é intelectual. E afinal de contas, não precisa de ser carimbado como intelectual. Patativa do Assaré fez obras de arte geniais, mas não é e nem precisa ser identificado como intelectual. E não precisam serem intelectuais para terem mérito. Têm contribuições maiores do que a de muitos intelectuais, contudo, não são intelectuais. Quando um termo começa a ser sorrateiramente usado como guarda-chuva, com um tratamento apodítico, o melhor é respondê-lo com uma via apofática.
    E não, não adoto posturas como a de Adorno, longe disso, tampouco os estudos culturais endossam dizer que são intelectuais, antes, mostram as articulações inteligentes e as análises que se faz da sociedade nos movimentos populares, mas ao mesmo tempo, não considerariam que aqueles que estudam teriam as habilidades, treinamento e bagagem para produzir os volumes intelectuais que produziram. Não ser intelectual não diminui alguém, não é demérito, a não ser que a pessoa se pretenda um sem ser. E ainda bem, tal pretensão não partiu do próprio Mano, apenas estão querendo lhe imputar sem perguntá-lo antes se ele o quer.[
    Eu estou dizendo, parece que tem muita gente infiltrada nas ciências sociais com um vale-tudismo para jogá-la ao maior descrédito ante as outras ciências.

  27. P. Responder

    Aos que estão falando sobre o poder ou não ser considerado intelectual, é recomendável que leiam o trabalho em questão ou algum outro, que discorra quanto as definições sobre o que é ser intelectual, o que por sinal, é bem complexo, considerando que é uma “função social” em crise, isto é, que está se transformando. Só um toque: acadêmico e intelectual não são sinônimos.
    Tenho certeza que o autor traz um apanhado bibliográfico sobre este conceito, os diversos olhares, mudanças, etc. Caso contrário, seu trabalho certamente não seria aprovado.
    Produções como esta e respectivas divulgações são muito importantes, não apenas no que se refere a mudança de perspectiva do olhar da sociedade em relação a cultura da periferia – que não está desligada da cultura de um modo geral -, mas também para romper com a banalização dos conceitos, que são utilizados de forma promíscua para – aí sim – valorizar ou desvalorizar os indivíduos de acordo com rótulos.

  28. Rodrigo Responder

    Não há qualquer preconceito de classe em dizer que Mano Brown não é intelectual.
    As pessoas têm dificuldade de fazer a distinção entre inteligência e conhecimento.
    Mano Brown tem um QI muito acima da média, expresso em composições de alta qualidade literária e um discurso afiado, bem sintetizado pela Maria Rita Kehl no artigo “fratria órfa”.
    Mas, embora tenha apresentado referências intelectuais interessantes para a juventude da periferia (Malcom X), ele NÃO é culto, não preza pelo conhecimento, não busca se elevar intelectualmente ao mais alto nível possível.
    Prova disso é que quando o pilantra do Lobão o atacou ele não conseguiu articular uma resposta melhor do que chamá-lo para porrada, mesmo o Lobão tendo falado uma série de besteiras.
    E o fato de ter vindo de uma favela, estudado em escola pública, não é desculpa para justificar a falta de uma formação intelectual séria. Tupac passou fome, cresceu no gueto, mas nem por isso deixou cultivar a leitura. Mesmo caso com o Chuck D. Michael Eric Dyson diz que o Tupac tinha profundos conhecimentos de poesia, história, literatura, cinema e etc. Segundo ele, desde criança, Tupac foi moldado pela mãe para ser inteligente, culto, articulado e usar tais qualidades para ser uma fonte de defesa não só para sua família, mas para os negros.
    Os poderosos tremiam de medo do Tupac, pois ele era capaz de destruí-los num debate.

  29. Rodrigo Responder

    Mano Brown é foda, tem um QI acima da média, expresso em composições de alta qualidade literária e um discurso contundente muito bem captado pela Maria Rita Kehl. Mas, por outro lado, é de senso comum, não é culto como Chuck D e Tupac. Em razão de sua aversão aos livros Brown não está intelectualmente preparado para o confronto no debate público. Lobão, no seu cabotinismo oportunista,viu isso e tentou tirar vantagem das fragilidades intelectuais do rapper. Fosse contra Professor Griff ou Chuck D tomaria uma resposta desconcertante. A elite amerikkkana não se mete a besta com eles. Já Mano Brown não conseguiu elaborar resposta melhor do que chamá-lo pra porrada, mesmo com Lobundão tendo falado um monte de m…
    Contraditório, para quem na música Negro Limitado, disse coisas do tipo:”Escolha seu caminho:ser um verdadeiro preto,culto,informado ou ser apenas mais um negro limitado”.
    Ele,merecidamente,é uma referência no Hip Hop Nacional, de sorte que é um absurdo seu desconhecimento sobre a tomada de controle do rap norte-americano pela elite racista. Foi quando o Public Enemy começou a educar seus filhos em seu lugar que,ciosa por transmitir seu legado de racismo e elitismo,a elite tomou o controle da produção e transformou o Hip Hop gringo nessa convenção de traficantes,ladrões e prostitutas de hoje.Atualmente, o rap de lá tem sido usado pelos racistas para fermentar uma cultura de crime e cadeia entre os jovens do gueto e,assim,alavancar os lucros dos administradores de presídios privados.
    O único rapper brasileiro que abordou com clareza essa questão foi o LF. È absurdo que os rappers daqui não falem sobre a criminalização do Hip Hop norte-americano como parte de uma agenda política/social direcionada a superlotar presídios privados.

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