“Deixa ele gemer, deixa ele gozar, deixa ele voar, é melhor/ do que ele sacar de uma arma pra nos matar”, cantou em 1985 a compositora carioca Leci Brandão. Referia-se aparentemente aos meninos – os de sexo masculino – das periferias brasileiras. O samba “Deixa, Deixa” havia sido recusado cinco anos antes por uma gravadora multinacional e ficara na gaveta até ser lançada, com discrição, pelo selo brasileiro Copacabana. Devia ser duro, em especial para uma mulher negra, cantar “ela” em vez de “ele”, ou “eu” em vez de “ela”.

Foram-se 28 anos desde “Deixa, Deixa”, até que outra mulher negra, a paranaense Karol Conka, publicasse um rap-reggae chamado “Sandália“, que soa como uma resposta-e-atualização, não sei se proposital, ao samba de mãe Leci. “Deixa ela, vai/ cada um sabe o que faz/ e da janela a mãe dela acende vela e pede proteção ao Pai/ deixa ela, deixa/ ser livre e seguir sem se importar”, canta Karol na sétima faixa de seu álbum de estreia, Batuk Freak, editado pela gravadora também nacional Deck. “Lá vai ela toda, toda, só tirando onda/ saiu pelas ruas sabendo onde vai chegar/ sagacidade monstra, a mente já tá pronta/ virou a esquina, correu pra se libertar, milita, até explodir no refrão: “Não tem asas, mas pode voar/ ela só quer viver, ela só quer viver”. Deixa ela viver, deixa ela viver.

Karol Conka por Karla Gironda 2

Com Karol, o “ele” de Leci virou “ela”, embora ainda não tenha virado “eu”. Seguimos vivendo num  mundo duro. Homens brancos oprimem mulheres brancas que oprimem homens negros que oprimem mulheres negras. Quem vai ficar no final da fila do “eu”?

O sexo masculino intervém em “Sandália” na figura do rapper Rincon Sapiência, numa rima sincopada sob estática de LP, de modo a talvez simular a música dos anos 1900, menos que a dos 2000: “Ela vai pra rua se envolver/ pronta para fazer um rolê/ pretendentes vão pra fila e torce pra ela te escolher”, mais “ela sai pra se ouriçar/ tem o santo forte guia e a proteção dos orixás”, mais “seu vestido leve e fino igual tecido de lençol/ nunca quis pilotar fogão, lampião, ela arrasa pilotando o coração/ voa sem ter asa”.

Não tem asa, mas voa? Tem asa, mas não voa? (Não) temos asas, (nem) voamos?

No mundo da música, gastamos milênios pensando e falando em artistas de 50 e 40 anos atrás, enquanto frequentemente os de hoje se apresentam para plateias-palanques às moscas. Aos artistas de hoje que fazem sucesso, muitos de nós devotamos solene desprezo, quando não repulsa.

Se esses artistas são negros, raramente devotamos a eles um olhar atento, menos ainda positivo, quase nunca generoso e/ou elogioso – o elogio é tabu numa sociedade pretensamente hipercrítica.

Se esses artistas negros são mulheres, ignoramos cruel e radicalmente sua existência.

E, então, eis aqui Karol Conka, jovem, artista, negra, mulher. E, pasmemos, Karol é “ela”, mas Karol também é “eu”.

Em primeira pessoa, ela canta, por exemplo, o tecno-rap “Gandaia” (vídeo abaixo), que nos faria crescer 20 centímetros se ouvíssemos misturado e contrastado com a celeumática “Trepadeira” de Emicida.

Coisas do espírito do tempo, Karol encena aqui a “trepadeira” criticada (criticada?) pelo colega do sexo masculino – e em primeira pessoa, e a partir de ponto de vista estritamente feminino. A sandália dela ficou furada de tanto sambar: “Dancei, dancei, dancei, dancei/ e nem me liguei que o vestido subiu demais, aí eu ajeitei/ eu vou gingar com o mundo e acompanhar o bumbo/ quem quiser é só chegar junto”, deixa a nega gingar.

O gingado com K vai adiante: “Hoje o meu nome é gandaia/ cazamigaloka eu vou me jogar nessa vida louca, aproveitar”, e, enfim!, “vai com calma, rapaz, mais respeito/ dá dez passos pra trás, fica aí mesmo/ é bom ter disciplina se quiser sair ileso, que hoje eu tô perigosa, cheia de truque”.

Vai com calma, rapaz. Mais respeito. Dá dez passos pra trás, fica aí mesmo. É bom ter disciplina, se quiser sair ileso. Ouviu, doutor Emicida?

E o que as narradoras de Karol esperam dos homens (e/ou de outras mulheres, sei lá eu)? Ela (eu?) explica tintim por tintim em “Que Delícia“: “Sou rainha exclusiva e você tá aqui pra me servir”, e “me mostra o que sabe fazer, se eu não gostar vou te dizer”, mais “você me tem, mas sou eu quem tá no comando”, mais! “por enquanto eu tô gostando, continuo analisando/ meu comportamento demonstra que eu tô te aprovando/ dá o que eu mereço sem hesitar/ capricha no começo pra firmar/ mostra o que tem pra me oferecer/ se eu achar que tá bom vai permanecer”, mais!! “quase perco o juízo, tá delícia, tá da hora/ é disso que eu tô falando, sei que você tá entendendo/ pode vir quente esbanjando todo seu talento”.

Mui sexualmente, Karol provoca, para desespero do nosso rei moralista Roberto Carlos: “Em outra língua posso te dizer que sou terrível“. A canção ruma para o final, mas a narradora volta para um último e debochado comando acompanhado de uma risada: “Terminou? Agora lava a louça”. Piloto de fogão?, qualé, doutor Rincon Sapiência?! Se oriente, rapaz!

Não sei se você gosta dos versos acima (e abaixo), nem estou lhe perguntando. Mas sei que nunca antes de Karol ouvi em música uma mulher enquadrar seu(ua) parceiro(a) e lhe dar as coordenadas sobre como agir para satisfazê-la na dança do acasalamento. Gostaria de deixar aqui meu agradecimento, e meu elogio, a Karol Conka: supimpa!

Vô Lá” fala da condição feminina, num mashup que acondiciona canto de lavadeira, afro pesado, candomblé, reggae, rap puro. Começa aparentemente conformista: “Dona Maria levanta cedo de segunda a segunda/ quem pensa pequeno recebe menor, água bate na bunda/ madruga, que Deus ajuda/ o mundo é de quem faz mais, que quem faz mais sempre vence a luta”.

Adiante, na mesma canção a filha de “Dona Maria” surgirá de dentro dela, afirmando que conformada ficava nossa avó:  “Vai lá, pega o seu din sem pedir desculpa/ se ligue, se ligue no corre sem trambique/ conquiste, conquiste que eu já tô nesse pique”, mais “o brilho é do suor, meu bem/ quem trampa noite e dia só quer saber das de cem”, mais “se não entendeu aperta, aperta o repeat/ podemos ser a elite“, e “meu corpo sem limite/ pode ser que isso te irrite/ dispenso seu palpite/ vou agindo, admire”.

Em “Você Não Vai“, Karol pratica algo que praticamos o tempo inteiro, em cada tiquinho de bate-papo: dirige-se a um(a) inimigo(a) oculto(a), indeterminado(a), não sabemos se singular ou plural, branco ou negro, homem ou mulher, se nada-disso-muito-pelo-contrário. “Você me subestima, eu continuo nem aí/ (…) se apavora ao ver que cada vez mais posso progredir”.

E Karol se posiciona: “Herdeira dos meus ancestrais, cultivando a paz que o verde me traz/ espalho minha mensagem e nada mais“, e “meu poder é black, te provo tudo isso no rap”, mais “você demorou muito tempo pra perceber/ que ficar me julgando só te levou a perder”, mais “você se distrai, confunde o meu valor/ sai falando demais, fica puto enquanto eu vou”, mais!  “tô tentando entender esse seu jeito vulgar que tem ao dizer/ como devo caminhar e o que devo fazer”.

A conclusão de “Você Não Vai” é reta, e cada um conclua o que concluir: “Meto os meus pés na estrada e enfrento o que vier/ justamente por ser mulher e não ser uma qualquer/ minha atitude carrega vitória/ vou te lembrar disso sempre que eu puder“. Ela vai nos lembrar disso sempre que ela puder – viu, doutor Emicida, doutor Rincon, doutor(a) você?

O inimigo oculto (mas esse não estaria escondido no fundo do espelho?) reluz também em “Bate a Poeira“, que pede paz enquanto pede guerra, e/ou vice-versa: “O preconceito velado tem o mesmo efeito, o mesmo estrago/ raciocínio afetado/ falar uma coisa e ficar do outro lado”, mais “há tanta gente infeliz, com vergonha da beleza natural/ é só mais um aprendiz que se esconde atrás de uma vida virtual/ gorda, preta, loira, o que tiver que ser/ magra, santa, doida, somos a força e o poder/ basta, chega, bora, levanta a cabeça e vê/ vem cá, viva, sinta, o que quiser você pode ser“.

Sigo nas letras cantadas em rap-candomblé de Batuk Freak para perceber o esforço de colocar um garboso “eu” no lugar dos inimigos ocultos, ao mesmo tempo em que ergue um brinde à confraternização. “O mundo é meu, o mundo é seu também/ o mundo é seu, o mundo é meu também/ deixa ele correr, deixa ele correr“, canta no batuk acid-rap de abertura, “Corre, Corre Erê” (abaixo).

Há faixas no buquê que eu e você poderíamos criticar (criticar?, para quê?) pelo pique de rap-ostentação (agora é moda, principalmente no funk) que guardam. O tecno-axé-kuduro-pesado “Luxo ao Gueto” é explícito: “Do gueto ao luxo, do luxo ao gueto/ gueto é luxo, luxo é gueto/ eu gosto de luxo, nasci no gueto/ gueto é luxo, luxo é o gueto”.

A ponte erguida por Karol entre os dois lados da ostentação é inteligente:”É som de preto, vô com tudo“, e “de dia toma sol na laje/ à noite numa cobertura/ champagne pra quem quer brindar/ quem deve foge da viatura/ na alta rolê de Camaro/ na quebrada de boa na rua”, mais “vim de longe sem esquecer tudo que já vivi”, mais! “quero a grana do Eike Batista, mas veja que o meu pique é do Zé Pequeno” mais!! “vida loka é pop/ um dia é caviar, no outro hot-dog”.

O disco vai-se encerrando por “Boa Noite”, rap-candomblé (Batuk Freak é um disco de rap-funk-candomblé, vai encarar?) com sample do grupo Baianos de Ipioca e, chamado à emoção (“ouça esse som bem alto e se emocione” – emoção no rap, pode?) e tributo-agradecimento a um rapaz do hip-hop: “Salve Sabotage, MC de compromisso/ cumpre seu papel no céu que aqui a gente te mantém vivo”.

Acabou. E, como acabou, Karol Conka pode deixar de ser autoral por três minutos, sem deixar de ser autoral por um segundo sequer. O samba jongueado (ou vice-versa) “Caxambu”, lançado em 1986 por Almir Guineto, volta duro, kuduro, rappeado e feminilizado. “É na dança do jongo que eu vou/ vamos na dança do caxambu/ saravá, jongo, saravá/ engoma, meu filho, que eu quero ver  você rodar até o amanhecer” (sim, era 1986 e Almirzão mandava o filho – e não a filha –  rebolar e engomar), vamos?

 

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