Em meados dos 70, boa parte do Brasil cantou com ele a música-denúncia “eu lhe peguei no fraga”, um dos muitos sucessos que Genival Santos registrou em 28 discos. Com cinco milhões de LPs vendidos, ele simboliza um momento áureo da indústria fonográfica brasileira, no qual discos de ouro eram tão comuns quanto o não enriquecimento de ídolos populares.

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O maestro autorizou: veio a primeira nota. No centro do palco, um homem de estatura média, os modos contidos por conta do nervosismo, começou a cantar: “Se for preciso, eu compro uma casa para você morar/ se for preciso, lhe dou de presente o meu coração”. O homem nervoso de modos contidos – faltou dizer que usava uma blusa estampada muito comum naqueles anos 70 – seguia vacilante para o restante da música quando foi interrompido. “Pode parar. Você canta pra dentro, Genival”, disse Flávio Cavalcanti, o apresentador que afagava chutando.

Flávio era tanto o dono de uns óculos severos, a armação gritando “me respeite”, quanto do programa de sucesso no qual o rapaz da Paraíba tentava uma chance. Os jurados foram chamados para opinar. A cantora Maysa mirou em verde os modos vacilantes, o jeito humilde, a blusa estampada. Deu nota zero. Depois, veio o compositor Ronaldo Bôscoli. Outro zero. O cantor e apresentador José Messias, ainda hoje na TV brasileira, anunciou a mesma nota.

Era vez da atriz Márcia de Windsor, cujo sobrenome fictício simboliza um momento no qual a aristocracia europeia era, não sem muita canastrice, emulada em solo nacional. Foi a voz da oposição: dela, Genival ganhou um dez e uma doce previsão: “Você vai vender mais do que Gil e Caetano”. A gentileza, no entanto, não deu conta do peso dos zeros. Genival, no meio do palco, a blusa estampada e nervoso, nervoso e humilde, humilde e vacilante, chorou. “Fui humilhado, bicho.”

genival-santos-meu-coracao-pede-pazDias depois, a produção de Flávio Cavalcanti começou a receber centenas de cartas: chegaram a 1.500. O rapaz foi chamado para voltar ao centro do palco. Desta vez, cantou “Meu Coração Pede Paz, música-título de seu primeiro LP. Na plateia, nordestinos nada vacilantes vibravam. “Olha, tua família é grande, hein? Tem até ônibus vindo de Salvador”, disse, mesclando pilhéria e preconceito, o apresentador que se notabilizou por quebrar discos em cena e analisar moralmente as canções que eram ouvidas ali.

Dessa vez, Genival não passou por júri, nem por zeros. Cantou toda a canção sem ser interrompido, ouviu os aplausos e foi embora. Nunca mais foi convidado a voltar, apesar de vender tanto quanto Gil e Caetano (ou mais, há quem diga). Foram 28 discos e cinco milhões de cópias comercializadas.

O rapaz para quem a família vaticinara um destino para eles já seguro – trabalhar como lavrador – escreveu sua história de maneira particular, na verdade, da maneira particular a centenas de nordestinos que foram para o Rio de Janeiro buscar sucesso. Tinha apenas 6 anos quando seus pais saíram de Campina Grande e se dirigiram até o estado. Queriam “uma vida melhor”, aquilo que quem fica, sejamos justos, também deseja.

Tiveram um sítio em Santa Cruz da Serra, onde pai e mãe logo foram para a roça – é daí que provém o pensamento seguro na futura profissão do filho. “Cantar era coisa de quem tinha dinheiro.” Mas não foi assim: Genival até ajudou a plantar o feijão e o milho, mas o que era de parte do urbano logo o chamou. Adolescente, trabalhou como sapateiro, ajudou a descarregar pedra e cimento de caminhão, foi servente de pedreiro. Tudo isso até começar a fazer o que gostava, cantar alto e dramático.

Todos elogiavam sua voz, era o seu melhor, então era isso que tinha que mostrar. Quando foi servir no Exército, 1970, já se apresentava em boates no centro do Rio. Tinha só 17 anos quando começou a cantar em um inferninho da praça Mauá. “Eu saía sexta à noite do quartel para fazer show e voltava de madrugada. Quantas vezes fui pego dormindo…” Conheceu os compositores João do Vale e Bastinho Calixto. Conheceu Carlos André, que ainda não havia quebrado a mesa. Esse o convidou a gravar um disco (a doce previsão de Marcia de Windsor começava a acontecer naquele momento).

Meu coração pede paz saiu em 1972 – foi o propósito de divulgá-lo que colocou Genival em frente ao chute de Flávio Cavalcanti. O LP fez sucesso e vendeu 85 mil cópias. Foi um ótimo incentivo para a gravadora mantê-lo no cast. “Eu ganhei tanto dinheiro, tanto dinheiro. E nem peguei nele. Vendi quase 6 milhões de discos. Gastei muito. Com mulher, com bebida, com amigo, farra”, diz Genival, sentado no sofá do apartamento do bloco B, localizado na Cidade dos Funcionários, em Fortaleza

7107É um apartamento modesto (e tratado com carinho), diferente da casa que o cantor comprou no Rio de Janeiro quando seus discos continuaram a sair e a vender para milhares de pessoas (Eu Não Sou Brinquedo estourou com “Se Errar Outra Vez”, em 1975; Vem Morar Comigo, de 1976, fez sucesso com “Sendo Assim”; Se For Preciso, de 1977, tem o hit “Eu Lhe Peguei no Fraga”).

Com o dinheiro, comprou uma casa grande, com sauna, em nada parecida com a dos lavradores que poderia ter sido. Comprou um bom carro, como era de praxe. Acabou se separando da esposa com a qual gerou quatro filhos, a mulher que viu o marido passar de um constrangimento televisionado para o estrelato.

Ela não aceitou o tipo de vida que o ex-ajudante de obra passou a levar: nunca reclamou quando ele chegou trôpego, nem mesmo quando ele levava para casa, após uma noitada, uma, duas mulheres. Afirmava que eram da banda. Ela ficava calada. Um dia, arrumou tudo e avisou a ele: “Estou indo embora”. Genival não acreditou: tentou várias vezes trazê-la de volta, mas ela preferiu o silêncio do estar sozinha ao silêncio de quando estava acompanhada. “Você sofreu muito por amor?” Escuta a pergunta sentado no sofá do apartamento modesto, bloco B. Não respondeu com a voz, mas os olhos, cheios d’água, falaram alto.

O afastamento dos filhos foi um dos obstáculos mais difíceis: “Sangue do Meu Sangue” (“quero te dar o que não tive na vida…”) foi feita para aplacar a culpa e a distância. Idosos, os pais que o levaram para o sítio lá em Santa Cruz da Serra também partiram: tinham criado Genival a vida toda, como filho sangue do próprio sangue, tanto que ele só veio conhecer o pai verdadeiro, no Recife, quando tinha 35 anos. A mãe biológica, tem 88 anos, ele sabe onde está, mas não a vê. “Eu procurei por ela durante muito tempo. Foi como Evaldo Braga, ele também foi atrás da mãe. Mas, sinceramente, a minha já morreu.”

O fato é que, como vários cantores de sua geração, aqueles que mudaram a vida de maneira particular (do Nordeste para as listas das mais tocadas, da casa pobre para os hotéis de luxo, do trabalho braçal para o palco), Genival viu um dinheiro que jamais imaginara, desfrutou-o por alguns anos e depois, olhando para os lados, não o encontrou mais. Esse processo aconteceu simultaneamente ao afastamento de uma lógica familiar a qual estava acostumado. Olhou para os lados e também não achou mais os filhos, a ex-mulher, os pais. “O sucesso vai embora e fica só o nome.”

Não passa por dificuldades financeiras – faz três, quatro shows por semana – mas não pode mais manter uma casa com sauna e carro jet set, nem farra, nem amigos (daqueles que surgem quando sua maior qualidade é a prosperidade). Boa parte do valor conseguindo com a venda dos discos – aquele que sobrou após passar pela gravadora e pela editora, estas também fascinadas pela prosperidade nas vendas – foi vampirizada pelo governo de Fernando Collor de Mello, que bloqueou a poupança dos brasileiros no início da década de 90. “Quando ele soltou, já não tinha valor.”

Há 20 anos, foi morar em Fortaleza, onde sempre teve um público fiel. Gostava do Rio, e os filhos, cariocas, continuaram a viver lá, assim como a ex-mulher. Fala com eles várias vezes por semana, a saudade nunca deixou de existir. Sente falta de lá e diz que não chegou a sentir preconceito na cidade. “É porque não falavam nada sobre a gente.”

No Nordeste, apresenta-se para um público misto, formado por aqueles que tanto conhecem sua carreira, os discos lançados, quanto por quem o entende como o cantor do “fraga”, achando graça no R invasor. Hoje, ele acentua ou brinca com a pronúncia – para deixar claro que trata-se de um erro. Havia nesse, sabe, uma denúncia que indicava seu lugar de classe.

Também viu seu próprio entorno se modificar e, por tabela, o sentido de suas músicas. “Agora, quando canto ‘se errar outra vez, dou castigo para não se acostumar’, as mulheres olham para mim e gritam ‘nãããão’”, comenta, referindo-se a um de seus maiores sucessos. Sentado em seu sofá localizado no bloco B, Genival continua a falar, lembra do passado (os olhos cheios d’água várias vezes). Não há ressentimento: adequou-se, com o conforto provocado pelo que é inevitável, a sua vida de agora. Sem sauna, sem carro no ano – e, que bom, sem vaias.

 

(Fabiana Moraes é jornalista e socióloga, repórter especial do Jornal do Commercio (Recife), autora de reportagens especiais como “Ave Maria“, “A Vida é Nelson“, “O nascimento de Joicy” (Prêmio Esso de reportagem em 2011) e “Os sertões” (Esso de Jornalismo em 2009). Publicou, no formato livro-reportagem, Os Sertões (2011) e Nabuco em Pretos e Brancos (2012). A série “O clube dos corações partidos” foi publicada originalmente no Jornal do Commercio.)

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