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Eu vim de Piri-Piri

É véspera do Dia da Consciência Negra no centro de São Paulo. Diante de um plateia jovem, predominantemente negra e mestiça, um homem luta para trocar a cadeira de rodas por um banquinho-e-violão. Três pessoas (inclusive sua filha) se debatem desastradamente para ajudar o “negro desbotado” (como ele próprio se classifica). A plateia segura o fôlego diante da interrupção momentânea, mas incomodamente demorada, da pulsão de show e festa.

O homem é um dos gênios da canção brasileira. Pertence, especificamente, à vertente “black music” da estirpe. Autor de “Quero Voltar pra Bahia” (1970) e “Pingos de Amor” (1971), o pernambucano Paulo Diniz tem 73 anos e uma doença degenerativa que lhe roubou os movimentos das pernas há década e meia. A seu redor, no vão quase-livre da Praça das Artes, está a Banda Black Rio, outra lenda da linhagem – outrora comandada pelo falecido Oberdan Magalhães, hoje por seu filho William Magalhães.

Nenhum dos ases dos instrumentos musicais se locomove para tentar ajudar a abreviar a agonia de Paulo, na passagem das rodas da cadeira para as cordas do violão.

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Tudo em volta está florido. O centro vibra nas comemorações ao Dia da Consciência Negra. A pouco mais de um quarteirão de distância, o vale do Anhangabaú recebe Os Originais do Samba Arlindo Cruz Rappin’ Hood e Izzy Gordon (sobrinha da mulata Dolores Duran) e o mestiço italianado Oswaldinho da Cuíca (dos Demônios da Garoa).

Hoje, Dia da Consciência Negra propriamente dito, em maiúsculas, estarão no mesmo palco Emicida Dexter Turma do Pagode e funkeiros paulistas e outros. Na quase-solene Praça das Artes, Paulo Diniz e Toni Tornado Gerson King Combo Carlos Dafé Di Melo e Lady Zu e o mestiço baiano Hyldon e o mestiço gaúcho Luis Vagner se associam à cama sonora da Black Rio para comemorar a Consciência Negra.

A black music brasileira está mais viva do que nunca. Está?

Na segunda-feira, 18 de novembro, convidado pela loura Mariana Bergel, da Boia Fria Produções, fui com meus olhos azuis assistir ao ensaio de Paulo Diniz e Luis Vagner com a Black Rio, num estúdio na Lapa paulistana. Mariana me ofereceu toda a galeria de lendas black-Brasil à disposição para escolher, e pedi Paulo Diniz. Havia visto ele partido em pedaços, mas inteiro, na Virada Cultural deste ano – foi emocionante, para os poucos que lá estavam.

Há mistérios cercando Paulo Diniz (procure saber…), e ele é um dos meus ídolos musicais maiúsculos. Na tela do meu celular, mostro para o autor-intérprete de “Ponha um Arco-Íris na Sua Moringa” (1970) que o logotipo de FAROFAFÁ foi copiado da programação visual da linda e psicodélica capa do álbum de Quero Voltar pra Bahia. Não tenho certeza se ele entende completamente o que estou querendo dizer, mas sei que fica lisonjeado, e esse sentimento quase-bobo me enche de alegria.

QUERO VOLTAR PRA PAULO DINIZ

Há uma pulsão de sístole e diástole vibrando algo descompassada no estúdio nessa segunda-feira-meio-de-feriados. O pessoal da Black Rio veio de shows de Consciência Negra no Rio de Janeiro, e William Magalhães desmaiou no aeroporto, na chegada a São Paulo. Os ensaios atrasaram. Paulo e Luis se atrasaram, e chegam juntos ao estúdio, ao anoitecer.

1988 ConscientizaçãoLuis Vagner, o “Luis Vagner Guitarreiro” que Jorge Ben cantou, está bem e sorridente, aos 65 anos. O vozeirão de soul-reggaeman ainda troveja. Mas ele teve um AVC em outubro passado, e manifesta o temor de sofrer limitações de movimentos. Testa as próprias faculdades cantando sua genial balada soul “Como?” (1972), lançada originalmente por Paulo Diniz. “Como vou deixar você/ se eu te amo?/ como vou deixar você/ se eu te amo?”, cantarão, juntos-e-descompassados, no entardecer da terça-feira na Praça das Artes.

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A voz rascante, totalmente soul e bastante forrozeada de Paulo Diniz quebrou-se em estilhaços nalguma beira de estrada. Aos 73 anos, ele meio brinca, meio se desculpa por já estar na terceira idade: “Nnão conheço ninguém que tenha chegado à quarta”. Já não é plenamente dono de seu corpo nem de sua voz, mas a mente ainda é musculosa (como mostra uma linda entrevista que fazemos na noite da segunda, ele, Luis Vagner e eu, e que publicaremos mais adiante).

A idade e as limitações físicas de Paulo criam uma eletricidade jamais verbalizada no ambiente. A família musical ao redor se comporta mais ou menos como as famílias se comportam quando seus pais, mães e avós envelhecem e/ou adoecem. Uma irritação paira no ar, e se torna recíproca conforme Paulo se aclimata. William está inerte, primeiro no sofá do estúdio, depois diante do teclado que comanda com maestria. Não parece bem. Não confraterniza com os tios mais velhos. Não tenta (e/ou não consegue) se comunicar com Paulo.

Este, por sua vez, perdeu voz de comando sobre os músicos, se é que algum dia a possuiu (na entrevista, fez uma constatação perturbadora: “eu nunca tive banda”). Cada um dos muitos e excelentes músicos presentes no estúdio parece se (não-)comunicar numa língua diferente – a língua do universo interior infinito. Um não ouve, outro não fala, outro fala quando o interlocutor não está escutando.

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Ainda assim, por sobre uma montanha de impedimentos, Paulo tanta impor algumas diretrizes. Prefere fazer “Quero Voltar pra Bahia” em levada reggae, com Luis à guitarra, o que se provará um acerto no show em si. Gostaria que a banda pendesse para o “menos”, e não para o “mais”. Pede uma cama paraense para “Quem Tem Um Olho É Rei” (1972), que afinal resultará retirada do programa – inclusive porque o autor tem dificuldades com a letra.

No espaço público da Praça das Artes, é exasperaste para o repórter lembrar, pela enésima vez, que na vida privada as famílias não conseguem se comunicar perfeitamente. O público moço da Praça das Artes é gentil, generoso e caloroso. Aplaude Paulo & família musical quando o artista pede à filha (loira) e ao neto adolescente (alto, magro, moreno, “desbotado”) que subam ao palco para que nós conheçamos sua família de sangue.

O público comove mais que a banda, ao acolher com amor as evidentes limitações do gênio deslegitimado da canção popular brasileira. Os espectadores acarinham o cantor de “Um Chope pra Distrair” e “Piri, Piri” (1970), pedem o não-sucesso “José” (versão musicada em 1972 do poema de Carlos Drummond de Andrade) e irrompem num pedido insistente de “mais um!”, quando Paulo já mergulhou no processo doloroso de descer da música de volta para a cadeira de rodas. Ele se desculpa educadamente, e não faz mais uma. A banda está inerte. Olhos magoados faíscam do teclado de William para o mundo.

Nós-que-aqui-estamos não sabemos, mas juntos estamos compondo coletivamente uma canção-metáfora-silêncio chamada “Dia da Consciência Negra”. Provavelmente a canção não será gravada em CD ou mp3. Tudo em volta está florido (“só que a minha pele é negra”, como cantava Paulo em 1967, noutra canção do gaúcho mestiço Luis Vagner).

Fantasmas de 513 anos de abandono e desprezo lutam contra seus (nossos) próprios corpos, incrédulos de que alguma consciência negra possa florescer de um pântano composto por tanta e tamanha violência. Hoje à noite Emicida dirá que negro é lindo, forte, altivo e independente. Recostados em seus sofás-umbigos, os racistas cuspirão lixo radioativo, em “protesto”.

No palco menor, os primos, tios-avós & outros parentes mais velhos não conseguem nem conseguirão ter tanta certeza, até porque muitas partes dos corpos e das almas ficaram pelo longo e acidentado caminho.

Mas ali mesmo, aos pedaços, o gênio Paulo Diniz emite a mensagem que seu corpo machucado coloca em dúvida: nós conquistamos muito, nós melhoramos muito, nós crescemos muito. Tudo em volta está florido, e Paulo Diniz consegue trazer na garganta a flor do otimismo (otimismo?). Esse é outro tipo de eletricidade, que conecta, inteiro e estilhaçado, aos cabelos e roupas de orgulho black que o tratam como um igual e com imenso afeto no chão da praça (das artes). É preciso que esses meninos e essas meninas voltem para suas casas à noite e deem o mesmo conforto a seus pais, avós e tios-avós. A Consciência Negra (seja qual for a cor da sua pele) será uma conquista de todos quando se fizer, idêntica, na praça pública e no quarto de dormir.

Em volta, tudo está florido – mas os espinhos são visíveis e perfurantes, por toda parte. Por ora, a Consciência Negra (sejam quais forem as cores da Consciência Negra) é um coração que pulsa em sístoles e diástoles descompassadas. Na sístole, o coração míngua em descrença, insegurança e memória de abandono. Na diástole, o coração rufa e se infla e se insufla e se enche de pulso, sangue, esperança e certeza das conquistas que Paulo Diniz celebrou.

Eu, o nipopaulistano Eduardo Nunomura e este humilde FAROFAFÁ nos empoderamos do Dia da Consciência Negra para desejar, na figura doce e brava de PAULO DINIZ, nada menos que a glória multicolorida absoluta para a música popular (NEGRA) brasileira. Hoje é dia dela – e nosso.

QUERO VOLTAR PRA PAULO DINIZ

 

 

Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004)

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