Tudo aconteceu rápido demais. Num domingo, sabíamos que Vange Leonel estava doente. No domingo seguinte, sabíamos que estava internada e bastante mal. Hoje é segunda-feira, e sabemos que ela morreu.

Pelo imenso amor que sinto pela Vange e pela esposa dela, a Cilmara Bedaque, venci alguns dos meus fantasmas e fui ao hospital, e me intrometi nas horas farpudas dos dois últimos dias, com meu jeito desengonçado de lidar com a morte – e com a vida.

Vi e beijei a Vange no domingo, antes da final da Copa do Mundo que infelizmente a Argentina não levou (a Vange, personificação da elegância, esperou a Copa do Brasil acabar para nos comover). Ela me olhou com um olhar comprido, pontudo, achei que amedrontado – e quem há de não se amedrontar nessa hora, nessas horas?

Hoje, vi, beijei e falei um milionésimo do que tinha para falar para a Vange. À minha própria revelia, fui me intrometer entre familiares que não são meus, assim que se espalhou para os amigos a inviabilidade do que estava por vir. Vi e beijei (beijei?) a Cilmara, quando a Vange ainda vivia e depois que a Vange não vivia mais. Tentei cuidar um tiquinho da Cilmara, com meu jeito desastrado, e ainda quero muito mais.

Entre umas e outras dessas horas, fiquei por ali desajeitado, desengonçado, destrambelhado, enfiando a cara na tela do celular, querendo viver e querendo fugir de viver o que estava acontecendo.

Pois olhe, eu queria lhe contar, o que vi com meus olhos de jornalista que finge o tempo todo não fazer parte da notícia explodiu minhas retinas como uma demonstração eloquente de grande beleza, força, serenidade e profundidade – as mesmas que eu ouvia em algumas músicas do grupo Nau (“Linha Esticada”, “Barcas”, “Bom Sonho”), as mesmas que eu ouvia nas músicas & letras de Vange & Cilmara (“Passeio Distraído”,  “Esse Mundo”, “Mil Anos”, “Mulher Lobo”, “Vida Vida Vida”, “Vermelho”).

Vi o momento maravilhoso em que a Cilmara trouxe as roupas da Vange e pediu ajuda para atar o nó da gravata que a Vange vai usar, já está usando. Vange usava, usa e usará gravata. Mulher da gravata florida, minha deusa do céu, que gravata mais linda, olha os detalhes da gravata da Vange. Respeite a gravata da Vange.

Com medo do mundo ali do meu ladino, olhei para dentro e vi a mim mesmo no ano da minha chegada a São Paulo, 1991, o mesmo do lançamento do clássico pop “Noite Preta” e do primeiro álbum da Vange, que eu simplesmente adorava (meu deus, minhas deusas, será que eu falei isso para ela com todas as silabas e entonações?, ou fiquei esperando, como sempre, até quando não desse mais tempo?).

Aquela de 1991 é uma cena real que até hoje eu vejo como um filme: eu sozinho no ponto de ônibus da meia-noite até amanhecer, porque venci os pânicos de garoto durango kid recém-chegado do interior do Paraná e fui ao show da Vange sem me tocar que era véspera de Páscoa e que não haveria ônibus na madrugada para voltar para casa.

Aquela minha calada noite preta eu passei no abrigo dos passageiros do transporte coletivo, sozinho, amedrontado, talvez com um olhar comprido e pontudo semelhante ao da Vange ontem antes do jogo. Tanta coisa sucedeu daquele tempo para cá. Naquela noite, nem sonhava que dentro de três anos eu começaria a virar jornalista e, mais especificamente, uma coisa pavorosa chamada “crítico”,  “crítico musical”, nem que viria até a escrever (muito pouco, e muito mal) sobre a obra da Vange (e da Cilmara).

Essa historinha do ponto de ônibus eu contei e relembrei para a Vange algumas vezes nos últimos anos, inclusive hoje, na hora do cochicho antes da hora do sopro. Também consegui (ou tentei) falar, mal e mal, como achava ela talentosa, brilhante, importante, fundadora, referencial – por que tão tarde, meus orixás?, por que a dificuldade tão grande de falar para os vivos o que sai tão fácil da boca quando eles, elas, já não estão mais vivas?

Vi hoje, no hospital, o lindo, profundo, emocionado e sábio abraço que a Cilmara trocou com o Esper Leon, o amigo virtual que virou real e com o quem a Cilmara e a Vange viveram intensamente, há um ano menos três dias, a morte também precoce do esposo do Esper, o Senshô, extraordinária figura twitteriana cujo brilho nos apaixonou às legiões e cuja morte comoveu uma comunidade virtual-e-real que, até então, nem sabíamos que existíamos. Respeitemos as comunidades colaborativas, a competição já não está mais com aquela bola toda.

Enquanto eu próprio não conseguia chorar (como é árduo chorar, depois que pranteamos nossa mãe e nosso pai), vi os olhos vermelhos da moçada que desabou às dezenas hoje no hospital. Moçada mesmo, todos muito jovens, as Vanges e Cilmaras de hoje, amanhã e depois de amanhã. Nesses últimos anos, e com intensidade reforçada depois da morte avassaladora do Senshô, a casa da Cilmara e da Vange virou uma espécie de entreposto de comunicação entre o mundo virtual e o real, o Twitter e o bar Tubaína da queridíssima Veronica Goyzueta. Vange e Cilmara eram e são comunicadoras de qualidade ímpar. Respeite a verdadeira comunicação, sr. (tu)barão-das-comunicações, não aguentamos mais, não há mais tempo-espaço para tanto simulacro.

A Cilmara, polinizadora, tem se revelado mestra na arte de cavar o túnel de fuga (e de encontro) em que o virtual desemboca no real. A Vange, coelhinha de toca, via tudo com um olhinho de lado, picaresco, maroto, de quem se diverte a valer com o movimento ao redor, mas tem o domínio de poder voltar para a toca quentinha sempre que lhe desse vontade. A esse respeito, eu me sentia meio gêmeo da Vange.

Sou imensamente ruim em lembrar a cronologia das coisas da vida, mas hoje voltei para dentro de mim e revi o momento em que me aproximei física-e-virtualmente da Vange, pelas mãos malucas da minha grande amiga também artista também genial também jornalista também escritora Marcia Bechara, que hoje vive do outro lado do oceano, qual sereia parisiense de Leonel. Não sei a cronologia exata das coisas das vidas, mas foi no hoje também falecido Orkut que a Marcia fundou a comunidade Mitorama, que a Vange adorava, e foi a partir dali que tudo (re)começou.

Acho que na época a Cilmara não era de Orkut, como até hoje odeia “o Face” (e nisso tem meu apoio e minha concordância). A Bechara hoje não esteve presente fisicamente, mas participou de tudo tintim por tintim, pelo “Face” e por todas as redes sociais e anti-sociais que você possa imaginar. As páginas do Mitorama, querida Vange, sobrevivem mornas, quentes e quentíssimas no berço úmido de mãe Bechara do Gantois. Ela até quis me mostrar um pouco dos nossos papos públicos de anos atrás (como soava louco e novo conversar em público e por escrito, apenas tão poucos anos atrás), mas eu ainda não tive coragem de ver.

Pensando a partir do pouquíssimo que escrevi sobre a Vange quando atuava como, ~gasp~, “crítico cultural” na Folha de São Paulo e depois na CartaCapital, eu até diria que a mídia tratou, tratamos, muito mal a Vange. É uma meia verdade: a mídia tratou e trata muito mal, com pedradas e pauladas, não só a Vange, mas quase todo mundo que existe, exceto um reduzidíssimo grupo de escolhidos, favorecidos, mimados, ludibriados. A mídia não respeita ninguém, nem mesmo aqueles pouquíssimos que ela julga (ela, a julgadora) respeitar.

Respeite a Vange, mesmo que a mídia não diga para você respeitá-la ou diga, silenciosamente, para você não respeitá-la. Não gosto de verbos imperativos, mas hoje peço licença: não seja covarde, mesmo que a mídia exija isso de você. Nós não aguentamos mais tanta pusilanimidade, tantos críticos de música cultura cinema futebol economia política. A Vange não aguentava, ninguém aguenta mais, passou da hora de vocês pararem.

Por falar em parar ou continuar, em vaiar ou aplaudir. A Vange gostava de me pegar de cantinho e me elogiar, franca, transparente e desarmadamente. Eu ficava transtornado, foradessi, não sabia onde enfiar a cara, embora evidentemente adorasse ouvir o que ela falava. Como era gentil e generosa e amorosa, santo zeus, alá e a deusa de todos os ateus! Ela me desnorteava, e desconfio que sabia e se divertia com isso. Uma artista elogiando um crítico, que diabo era isso? Como poderia um crítico que vivia de esculhambar descer do trono da própria jumentice para elogiar uma raríssima artista que não tinha pejo de elogiar um crítico que (não) vivia (mais) de esculhambar tudo e todos e todas? E, que diacho, será que eu retribuí os elogios com 1% da intensidade que eu precisava e que ela merecia?

Este é um texto naturalmente confuso e desconexo, mas acho que consigo explicar algo sobre o parágrafo anterior. Se você me permite apenas um auto-elogio, acho que eu soube comunicar à Vange, ao menos num aspecto, o quanto ela era importante para mim. Em algum momento que não sei precisar, senti a necessidade de ser menos covarde com relação à minha própria sexualidade e de militar pela identidade gay, que me pertence e à qual pertenço. Achei que precisava encontrar um meio, mesmo que com muitas e muitas limitações, mas um meio que tivesse nome, nome do meio e sobrenome. Ser gay com nome, nome do meio e sobrenome é algo que a mídia onde eu trabalhava e eu próprio jamais permitimos a mim (nem a ninguém), e uma bolha que queria, carecia, precisava estourar.

Quando eu vi que não dava mais para não estourar a bolha, foi à Vange que eu recorri. Nos papos mais despretensiosos que tínhamos, comecei a trazer esse tema à tona. Me queixei da minha covardia, disse que queria mudar, e foi ela, a Vange, quem me orientou e me dedicou mais uma enxurrada de palavras e ideias positivas, construtivas, amorosas.

Não sei reproduzir os caminhos que ela indicou, o que ela disse ou as histórias que contou – mas ela me contou grandes histórias, sobre essa viagem, a do reconhecimento de identidade, que ela fez muito antes de mim, de modo pioneiro, valente, corajoso, absolutamente sensacional. Que baita saudade dos seus textos na revista gay que todo mundo fingia que não lia, querida Vange que não pode mais me escutar. Tenho essas revistas guardadas, quando tiver coragem vou espiar.

Tanta coisa preciosa eu ouvi da Vange nesses não tantos anos de convívio virtual-e-real. Ela me contou sobre como é dolorido ser gay (não que eu não saiba de cor e salteado), ser lésbica, ser militante lésbica, ser feminista, ser militante feminista nas ruas na passeata na parada gay no passeio distraído divino maravilhoso assustador intimidador.

Conversamos sobre as dores, mas sobre muito mais do que as dores. Foi muito com ela que aprendi que se opor a alguma coisa não equivale a desrespeitar essa coisa. Que se opor a uma ideia não equivale a se opor a quem defende tal ideia, muito menos a desejar o extermínio de qualquer ideia – e de qualquer pessoa.

Conversamos muito sobre etapismo, uma ideia de que ela muito gostava: não adianta querer tudo ao mesmo tempo agora, é uma coisa de cada vez, e o fato de a causa X triunfar hoje é um indício muito potente de que a causa Y pode vir a triunfar amanhã e depois de amanhã.

Conversamos sobre afobismo, uma ideia de que eu gostava – não adianta querer tudo para AGORA, menina e menino, porque simplesmente não vai rolar.

Conversamos até amanhecer, eu e ela e a Cilmara, sobre cultura e política e identidade e identidade sexual e medo e coragem e respeito. Respeitem a Vange e a coragem dela, meus camaradinhas, até porque o que a vida quer da gente é coragem.

Por falar em coragem, e em parar ou continuar, e em vaiar ou aplaudir, e em desistir ou persistir. A Vange viveu com grande gosto e intensidade a vinda da Dilma Rousseff à presidência do Brasil. Diferentemente de uma minoria ruidosa de militantes gays (reais ou de fachada), a Vange não caiu na cilada de acusar uma mulher presidenta de homofóbica nem de perder a confiança nela por causa desta ou daquela concessão. Respeite a presença feminina no poder, sr. machão, até porque elas (se) governam muito melhor do que nós.

A Vange soube de modo pleno, como muitos de nós, que Dilma no poder somos nós todos no poder. Que Dilma e Lula (Lulidilma, Dilmilula), no poder, somos ela, Vange, no poder, sem nenhum afobismo e com muito etapismo. Que, enquanto estivermos no poder um nordestino, mulher, preto, índia, japonês, palestina, gay, lésbica, travesti, transexual, bissexual, simpatizante, trabalhadora, operário etc., estaremos TODAS no poder – e exiba a antena verde de extraterrestre quem não pertencer com algum orgulho a pelo menos uma das categorias citadas acima.

Hoje, quando a Cilmara e todos nós já íamos indo embora do hospital, vi quando uma mulher bonita, altiva, elegante chegou e a acolheu em seus braços. Estava serena como a Cilmara também está (guardadas as inúmeras limitações das horas farpadas). Era Eleonora Menicucci, a ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres da senhora presidenta Rousseff. Companheira de Dilma na tortura e no presídio Tiradentes, Eleonora é militante altiva de todas as causas de que estamos falando, e certamente de outras tantas mais.

Nesse abraço, vi a grandeza da Vange se espelhar nas grandezas da Eleonora, da Cilmara, das muitas mulheres e (por que não) dos homens que estávamos presentes no tchau transitório à Vange. Que luxo vivermos no Brasil em que vivemos!, como pode alguém, em pleno 2014, desrespeitar este Brasil frondoso que estamos vivendo e fazendo?

Para encerrar esse texto confuso e desconexo (e crítico, de modo avesso aos da tradição, família, propriedade e Instituto Millenium), venho te dizer que hoje vi o ambiente descarnado de hospital ser inundado por um mar morno de serenidade, sabedoria, elegância, poesia e beleza. Não houve cenas teatrais (ou musicais, cinematográficas, televisivas, jornalísticas) de desespero ou destempero. “Nossa, Pedro, cê tá achando isso tudo muito normal”, espantou-se a Bechara na DM do #Facebook – é porque, querida Bechara, isso tudo é muito normal mesmo, e hoje foi a vez da nossa amada Vange, e é hora de festejá-la à nossa própria maneira, longe do catastrofismo e do sensacionalismo abjetos que nos impõem, que nos impomos, dia após dia, nas arenas em que os tigresos podem mais do que as leoas.

A esta altura do campeonato mundial, sabemos que ficamos mais fortes e morenos, mesmo quando nos arrancam pedação de nós mesmos que aqui ainda vivemos. Já sabemos que vêm mais flores e frutos por aí, germinados tanto dos pedaços que permanecem quanto dos que se vão. Vange Leonel vem aí. A moçada de olhos vermelhos é a Vange ainda viva, sempre viva, com tudo que ela aprendeu e ensinou em músicas, peças, livros, textos, mitoramas, tweets. A Vange Leonel é e será uma escola, uma enciclopédia, um dicionário, um jardim coberto de flores e de gravatas floridas dependuradas nos pescoços.

Nada aconteceu rápido demais, tudo está acontecendo.

 

 

 

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