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Selfies com cachorro, a atração nos protestos

CRÔNICA

Eu sou um cachorro. Não um qualquer, mas um farejador de sangue puro e raça nobre. Para quem é entendido, sou um legítimo Bloodhound. Meu nome é Mike e tenho 3 anos. O sargento Alexandre é meu dono.

O cão que veio comigo é o Bardo, um ano mais velho do que eu. Sim, é um pastor alemão. Preciso dizer mais? Ok, ele também é um farejador. Só que especialista em procurar drogas. O dono dele é o cabo Sukadolnick.

Imagem divulgada no perfil da Polícia Militar de São Paulo em rede social - Foto: Divulgação Twitter

Imagem divulgada no perfil da Polícia Militar de São Paulo em rede social – Foto: Divulgação Twitter

Vou confessar uma coisa a vocês: quando me botaram no carro, só pensei que não fazia o menor sentido vir para a avenida Paulista. Minha tarefa é farejar pessoas. Desaparecidos ou bandidos. Deveria estar dormindo no canil da Polícia Militar. Hoje era minha folga.

É a minha primeira vez em manifestações. “O dia está tranquilo”, disse há pouco o sargento Alexandre. Segundo meu dono falava para as pessoas, não vim para farejar nada. Só viemos nos exibir. É para a autopromoção da marca, a Polícia Militar do estado de São Paulo. Dizem que é estratégia de marketing.

Protestante leva cartaz e posa na frente da Tropa de Choque da PM - Fotos: Eduardo Nunomura

Protestante leva cartaz e posa na frente da Tropa de Choque da PM – Fotos: Eduardo Nunomura

Os homens da Tropa de Choque, na esquina com a rua Haddock Lobo, estão perfilados e com cara de poucos amigos. Mas o que tem de gente tirando selfies por ali… Os “manifestantes do bem” adoram a Polícia Militar. Descobri isso hoje.

Ah, se meus dias fossem todos assim. Hoje não param de passar a mão em mim. Nunca vi tirarem tantas fotos. Ah, não é mais foto, mas selfie? O pessoal não está revoltado? Eu é quem deveria estar revoltado. Já são mais de três horas e só me deram um pouco de água. Tô com fome. E o que tem de cheiro de churrasquinho neste lugar…

Repórter em entrada ao vivo - Foto: Reprodução

Repórter em entrada ao vivo – Foto: Reprodução

Nós, cães farejadores, não nos envolvemos em bagunça. Deve ser por isso que viemos para esse protesto. Só tem gente família. Uma repórter da GloboNews falou de mim na televisão. Daí o assédio não parou mais.

Agradeço à repórter por me tirar do anonimato. Mas também dei uma ajudinha para a emissora dela. A coitada já não sabia mais o que falar ao vivo. Comentava das pessoas enroladas na bandeira do Brasil, dos pais levando seus filhos, dos cartazes. Quando apareci, foi logo dizendo que eu era uma atração.

Meu dono já explicou tantas vezes quem eu sou para essas pessoas que estou querendo subir em um carro de som. Seria um sucesso. Porque ali em cima um monte de gente falava e embaixo ninguém nem dava bola. É sempre assim?

Mike, bloodhound de 3 anos, fez sucesso entre os manifestantes

Mike, bloodhound de 3 anos, fez sucesso entre os manifestantes

 

Há pouco, uma mulher berrava em cima de um desses carros. Cobrava as pessoas: “Gente, cadê o grito na garganta?”. Não ouvi ninguém responder. Ela começou a cantar: “Ô, o PT roubou, o PT roubou”. Nada. Aí ela gritou: “O Lulinha limpando cocô dentro do zoológico ficou rico”. Mas o que essa doida sabe do reino animal para dizer essa frase?Se fosse em uma confusão, porta de estádio, greve de metalúrgicos ou professores, os primos do Bardo é que estariam de serviço. Dizem que sou um cão de sangue, mas quer ver sangue nos olhos é com os primos do Bardo. Pior do que eles, só a cavalaria da PM. Hoje, a maioria deles ficou descansando. Os que vieram são bonzinhos.

Esses humanos são muito engraçados. Eles saem de suas casas para protestar, trazem cartazes, pintam seus rostos, põem nariz de palhaço e basta verem um cachorro para esquecer suas reivindicações?

Quando será a próxima manifestação? No final, adorei.

 

Editor de FAROFAFÁ, jornalista e mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo.

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