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A marcha dos invisíveis

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O Palácio do Planalto é o próximo alvo. No segundo dia da 11ª edição do Acampamento Terra Livre, cerca de 1.500 indígenas de Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil desfilam pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília, desta vez tentando atrair a atenção da presidenta Dilma Rousseff para sua causa.

Ontem, o cerco da Polícia Militar se fechou sobre o Supremo Tribunal Federal, quando o poder judiciário esteve na mira simbólica das flechas reais dos arqueiros da Mobilização Nacional Indígena. Hoje, PM e Polícia Legislativa (essa postada ostensivamente diante dos vários acessos à cúpula da Câmara Federal) amedrontam brasileir@s originári@s ostentando cassetetes, armas de fogo, capacetes, escudos, a parafernália toda.

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Diante do Palácio do Itamaraty, motocicletas cyborg da PM fazem evoluções mirabolantes em meio a arqueiros, caciques, pajés, cunhatãs e curumins. Nesta passeata, ninguém tira selfie com polícia — longe disso. Um cacique de meia idade se coloca à frente de um policial supermotorizado que tenta entrar no cortejo.

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O cacique repete para o policial uma única palavra: “Respeito! Respeito! Respeito!”. O cacique avança, munido apenas da palavra “respeito”. O policial hesita, depois recua, dá meia volta com a moto e segue por outro caminho.

As cenas de harmonia de ontem se repetem hoje. A falta de interesse por parte da mídia tradicional também. Os gritos de “não à PEC 215” (proposta de emenda constitucional que almeja transferir a responsabilidade pelas demarcações de terras indígenas do poder executivo para o legislativo) não parecem ser ouvidos por ninguém, a não ser por aqueles que gritam.

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Repito o script, em paródia à ladainha da Globo em dia de marchas reacionárias: a manifestação é pacífica, não há vândalos nem vandalismo, os militantes evoluem em pique de celebração, há dança, canto, festa. Famílias inteiras marcham juntas, casais de idosos de mãos dadas, adolescentes pintados de “não à PEC 215”, muitas mães de pele queimada que amamentam seus bebês de peito aberto enquanto passeiam, militam, mobilizam, conhecem a capital do país que inventaram. A amamentação livre é direito de mães e de bebês no Brasil — é?

O carro de som, um trio axé hoje movido pelas mais belas canções, cânticos e cantos indígenas, anuncia a presença das várias tribos e etnias — e são tantas, tantas, todas (ou quase), cada uma bem marcada em suas características distintivas.

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Ensaio uma transmissão ninja ao vivo, conversando com tupinambás, pataxós, xucurus, araras, guaranis-kaiowás, uma índia loira do Ceará, brasileir@s interioranos de Rondônia, Roraima, Pará, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia, Paraná. Em roda, os índios do Rio Grande do Sul tomam chimarrão e me fazem lembrar de meus falecidos país, uma gaúcha de Flores da Cunha e um catarinense da margem do rio Uruguai.

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Hoje, mais um grupo vem se somar à passeata que avança para a Praça dos Três Poderes. No final do cortejo multicolorido, a marcha se tinge de vermelho (estamos em pleno #AbrilVermelho), com os militantes da Frente Nacional de Luta Campo e Cidade. Ou seja, reúnem-se aos indígenas os sem-teto das cidades e os sem-terra dos campos — todos irmãos, todos juntos & misturados, como diriam outros irmãos, os rappers da Central Única das Favelas.

Chegamos, os deserdados, à porta da presidenta. Ela não aparece. Apenas os PMs vêm repetir o cerco formado ontem ao redor do STF, o poder vizinho, judiciário, outro que anda se lançando com garras afiadas sobre direitos supostamente já garantidos pel@s brasileir@s originári@s.

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A manhã entardece, @s índi@s almoçamos, a pajelança se dirige à frente do poder legislativo, que, lá dentro, recebe uma comissão de 25 lideranças indígenas. Cá fora, o espelho d’água, os furgões da mídia tradicional, os ônibus da PM e os policiais pedestres nos separam dos deputados e senadores que pretendem tomar para eles a função (já paralisada pela presidência) de demarcar as terras indígenas no país.

Quem estipulou tais demarcações foi a Constituição Federal de 1988, formulada pela mesma casa que hoje, presidida pelos peemedebistas Renan Calheiros e Eduardo Cunha, pretende confiscar, por intermédio de emenda ao soneto, os direitos adquiridos, mas nunca concretizados em sua totalidade, pela Carta Magna de 27 anos atrás.

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Não é uma notícia nova nem está nos jornais, rádios e TVs: os direitos básicos estão invisíveis aos povos originários, do mesmo modo como a maioria da sociedade dita organizada (e teleguiada pela mídia multinacional) finge não notar a existência dos indígenas em sua composição. Mas nós estamos aqui, acampados no chão.

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(Com fotos de Jardiel Carvalho, do R.U.A. Foto Coletivo.)

 

(O jornalista Pedro Alexandre Sanches viaja a Brasília com passagens aéreas oferecidas pelo Greenpeace à rede #JornalistasLivres; as demais despesas foram custeadas do próprio bolso.)

 

 

 

 

Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004)

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