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O desabafo de duas alunas de uma escola em greve

Estudantes de uma escola estadual saíram em passeata para protestar pelo descaso do governo com a paralisação dos professores. E elas explicam por que apoiam o movimento.

Ana Caroline Yukorvic, de 16 anos, estuda na Escola Estadual Professor Manuel Ciridião Buarque há um ano e seis meses. Cursa o segundo ano do ensino médio.

Gabriela de Oliveira Gregório, de 17, está na mesma escola há dois anos e seis meses, no último ano do ensino médio.

Desde o dia 13 de março estão sem aulas. Podiam estar criticando a paralisação que pressiona o governo tucano de Geraldo Alckmin, a perda de conteúdo, o prejuízo que terão nas suas formações.

Em vez disso, publicaram um texto de apoio aos professores da rede estadual paulista. Relatam a tragédia a que são obrigadas a conviver dentro dos muros das escolas. Professores de sociologia dando aula de física, mais de 3.000 salas fechadas, falta de materiais, uma situação que vem ocorrendo no Estado mais rico do país.

Por Ana Caroline Yukorvic e Gabriela Gregório

Apoio à greve dos professores

“Na penúltima semana de maio, os alunos da Escola Estadual Professor Manuel Ciridião Buarque organizaram dois atos a favor da greve dos professores. O intuito não é apenas indicar o apoio, mas mostrar à população do estado de São Paulo que a greve existe sim! Nossa luta vai muito além do que a mídia mostra.

Alunos da escola Professor Manuel Ciridião Buarque protestam em favor dos professores em greve - Foto: Victor Cosi

Alunos da escola Professor Manuel Ciridião Buarque protestam em favor dos professores em greve – Foto: Victor Cosi

Nós, alunos, precisamos alardear que estamos frequentando a escola para assistir cerca de duas aulas e que inclusive há escolas que estão paralisadas por conta dos professores grevistas.

Vemos que é no mínimo curioso o governo do estado de São Paulo implantar um projeto que diz auxiliar o professor em graduação apenas durante o período de greve. É muito útil para esconder a atual situação colocar professores que ainda não concluíram seus cursos numa sala de aula. Afinal, se o seu filho está na escola durante o período completo, ele deve estar tendo aula. ‘Se o governador afirma não haver greve e meu filho está na escola o dia todo, eu posso confiar na informação.’

Estamos sendo oprimidos e pressionados pela direção escolar, ameaçados com informações incertas e irreais relacionadas à reposição das aulas e o conteúdo das mesmas. A gestão não sente vergonha em confundir e em assediar os alunos para que eles sejam impossibilitados de agir contra. Jogam em nossas gargantas professores auxiliares e substitutos e dizem que estamos perdendo conteúdo e ficando com falta, uma vez que tais aulas não serão repostas.

Não concordamos! Vemos que é inaceitável um professor de sociologia ‘dar aula’ de física. Vemos também que o simples ato de marcar presença numa sala de aula não é o mesmo que lecionar. Não entendemos como aula de física um texto qualquer retirado de um livro que nem sequer se relaciona com o conteúdo apresentado no início do bimestre. Não aceitamos a aula de um professor que não se dá o trabalho de seguir nosso conteúdo e ainda remove nossas chances de recuperá-lo depois, além de retirar o pagamento de seu colega que está lutando por direitos que o abrangem.

Ana (à esq.) e Gabriela: 'Os alunos também estão na luta'

Ana (à esq.) e Gabriela: ‘Os alunos também estão na luta’

Os direitos de professores e alunos estão diretamente interligados. Uma sala lotada não afeta apenas o professor. Defendemos a reabertura das 3.000 salas de aula fechadas por ordem do governo Alckmin e a redistribuição dentro da escola para que as salas contenham no máximo 30 alunos. Como cerca de 45 alunos conseguem prestar atenção no conteúdo apresentado por um professor? Alunos da rede pública crescem ouvindo as seguintes frases: ‘Gente, faz silêncio aí atrás. Vocês são 40 e eu sou apenas um. Não posso contra vocês.’ Nada disso é novidade para nós.

Não é raro o professor estar concentrado explicando o conteúdo e ser interrompido pela maioria da sala de aula pedindo para ligar o ventilador num dia de verão, e o professor tentar explicar por que não pode. Não é raro um aluno estar passando mal nesse mesmo dia por conta do calor, precisar de água e não a encontrar na escola. E, quando encontra, ela vem suja, com barro. Não é raro um aluno pedir para ir ao banheiro e não encontrar papel higiênico, porta nas cabines, água e sabonete. Não é raro o professor se encontrar falando com as paredes.

Se nessas situações já é difícil se concentrar, adicione alunos correndo pelos corredores atrás de carteiras e se revoltando por não ter onde se sentar. Adicione professores se atrasando cerca de dez minutos por estarem procurando por materiais essenciais como giz e tendo que procurar um jeito de explicar aos alunos que aquela prova que havia sido marcada para três semanas atrás e que não havia sido aplicada pela falta de tinta na impressora ou alguma situação similar terá que ser feita à mão porque a impressora quebrou e o mesmo está sem condições de imprimir com o seu próprio dinheiro. O dinheiro utilizado para esse tipo de recurso não vem do governo. Se a escola o quiser, deve promover eventos para arrecadar a verba e deixar para a direção administrar.

Defendemos a valorização da hora-atividade. É inaceitável ver um senador tal como José Serra falar que a hora-atividade, que é uma aula de planejamento e de correção de provas e atividades, é uma hora não trabalhada. É um absurdo o professor ganhar tão pouco para dar aula em no mínimo dois períodos, dormir o mínimo e perder seu final de semana avaliando seus alunos para ganhar cerca de 5% de seu salário por isso. Valor esse que muito provavelmente será revertido na escola para poder aplicar as provas do bimestre seguinte.

E como um ser humano consegue se manter de pé por cerca de 12 horas sem se alimentar corretamente? O governo espera que no estado de São Paulo seja possível fazer uma refeição com R$ 8 e apenas se o seu salário for baixo o suficiente, caso contrário nem a isso você tem direito. Além disso, existem escolas que proíbem o professor de se alimentar dentro de suas instalações – isso, é claro, quando possuem alimento. Com a terceirização as escolas perderam vários funcionários, que foram remanejados em descaso, e por dias abriram sem funcionários para sequer fazer comida.

É inadmissível ver nossos representantes tratando nossa educação com tanto descaso. Pela valorização de nossos mestres, por direitos humanos e por uma escola pública digna de todos: os alunos também estão na luta.”

Editor de FAROFAFÁ, jornalista e mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo.
  1. Alexsandro Alves Responder

    Essa realidade é a brasileira. Da educação brasileira. Sou professor de Sociologia da rede estadual do RN. Numa das escolas que leciono, a Padre Monte, não há ventiladores em sala de aula; as salas são muito quentes e cheias de mosquitos; as paredes e o teto estão deteriorados; o quadro de professores é incompleto.

    Não há a mínima condição humana de dar uma aula boa e nem há condições de uma aprendizagem pelos alunos.

    Mas ano após ano formamos analfabetos funcionais.

    O que é isso? Eu tenho alunos da Terceira Série do Ensino Médio que não sabem redigir um parágrafo! Que não sabem ler corretamente. Que nunca pegaram sequer em um livro para ler, e como não possuem esse hábito, é como se eu estivesse a ensinar a uma turma de alfabetização! E esse quadro não é a exceção.

  2. Marli Toniato de Vitto Responder

    Muito obrigada pela reportagem, é difícil ver os educadores no estado de São Paulo sendo na maioria das vezes desvalorizados também na mídia. Sou educadora da rede estadual desde 1996, e nunca vi tantas atrocidades como estas impostas pelos atuais governantes, por isto estou em greve.

  3. Marcos Paulo Pimenta Responder

    Essa mobilização desses estudantes é muito importante neste momento, pois além de unir-se aos professores em defesa de uma causa em comum também estão se inserindo num processo político, de tomada de consciência, de politização e o mais importante, por meio da participação de uma juventude considerada por muitos como uma geração perdida. Parabéns aos educandos da escola Prof Manuel Esperidião.

  4. Maria de Lourdes Responder

    Querem ver a greve trazer resultado positivo e rápido, é se os Professores Alfabetizadores,ou seja, dos alunos do 1º. ao 5º.ano aderirem. É triste dizer, mas é real, os Pais dos pequenos se preocupam muito com a educação, e como a maioria trabalham fora, se seus filhos ficarem sem aula será um problemão…. É caso para refletir…

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