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Virada chacoalhada

Passadas 48 horas do final da Virada Cultural paulistana, a edição 2015 do gigantesco evento permanece um mistério. A visível diminuição de público significa que o principal festival cultural da Prefeitura de São Paulo ~fracassou~, para empregar um verbo caro à mídia tradicional?

Público multicolorido assiste ao show de Emicida no Palco Júlio Prestes (fotos William Oliveira/MIRA)

Público multicolorido assiste ao show de Emicida no Palco Júlio Prestes (fotos William Oliveira/MIRA)

O que mudou, o que aconteceu, o que tornou a ida a esta Virada uma experiência sensorial diferente das de todas as edições recentes? Parafraseando Raul Seixas, as respostas não estão no rádio nem nas antenas de TV, nem nas bancas de jornais e revistas. A leitura midiática tradicional, a quente, foi na linha fracassista de ~esvaziamento~, ~atrações às moscas~, ~Virada perde público~.

Os jornalões alardeavam ter dezenas de jornalistas acompanhando o evento que preenche 24 horas de programação ininterrupta no centro e, mais acanhadamente, nas periferias. No entanto, como de costume, dedicaram tempo e espaço zero à cobertura nas periferias. A cidade, que sempre foi dividida, entardeceu e amanheceu a Virada dividida.

Um trunfo especial o jornalismo de demolição perdeu em 2015. O novo secretário de Cultura, Nabil Bonduki, demonstrou que já sabia disso na tarde do domingo, quando afirmou em entrevistas aos colegas Eduardo Nunomura (do FAROFAFÁ) e Victor Amatucci (do blog Imprença): “Amanhã a Virada não vai estar nas páginas policiais, e sim nos cadernos de cultura”.

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De fato, não esteve nas páginas policiais: se o ~esvaziamento~ deu munição ao jornalismo abutre, o policiamento reforçado e a drástica diminuição nos episódios de violência deixaram desnorteados os veículos e as ideologias que só gostam de cultura quando a cultura se converte em caso de polícia. (Isso não significa que Nabil tenha acertado na previsão de que os cadernos culturais dos jornais teriam falto material para acolher, mas essa é outra conversa).

Este texto que você tem diante dos olhos (mesmo sem tê-lo comprado na banca de jornal) tampouco traz a resposta, as respostas. Ainda não as temos. Menos que simular respostas e certezas, façamos um exercício de testar hipóteses, por vezes contraditórias umas com as outras, para tentar começar a entender como está se transformando a ocupação do espaço público na maior cidade da América do Sul (ou do Norte, onde o público culturete que só frequenta shows made in USA ou England parece acreditar que São Paulo se localiza).

Não existe amor em SP? Existe pra caralho. Cês acham que as Mães de Maio chora por quê?“, expressou-se por volta das 16h do domingo o rapper Emicida, em seu idioma de provocação (inclusive gramatical). A referência provocava o anátema negativista do colega Criolo, astro do mesmo palco na Virada do ano passado – mas fazia muito mais que isso. A frase que nega o não provocava a São Paulo acostumada a só dizer não e não e não. Provocava a cidade, as cidadãs e os cidadãos que não acreditam em si. Provocava a Prefeitura e a curadoria que selecionaram a fase mais depressiva da pós-tropicália para encerrar uma Virada tomada, para surpresa de [email protected], mais pelo lado luminoso que pelas caras amarradas.

Alguma coisa acontece no coração da cidade que foi berço da tropicália 47 anos atrás: o que será? Que mensagens o fluxo diminuído de pessoas envia para a cidade, para suas cidadãs e para seus cidadãos?

O público diminuiu como efeito colateral da onda antipetista comandada a partir de drones ideológicos pela mídia corporativa? Ou porque o público nova-yorkista que gostaria de ver Neil Young ou Beyoncé ficou trancado no silêncio sem panelas de suas sacadas gourmet, como aventou o colega Fernando Sato (do coletivo Casadalapa)? Ou porque a Secretaria de Cultura de Nabil tentou descentralizar a Virada com programações nas periferias, locais onde a Virada acontece, mas não vira?

Supondo que o afluxo de público periférico tenha diminuído (e de fato diminuiu, como também o de público central), o que estaremos querendo insinuar se atrelarmos esse fato ao da redução de ocorrências policiais? Que a periferia inventa, produz e exporta a violência para o puro, justo e pacato centro? Alguém que não aprove o racismo institucionalizado se convence por essa falácia?

No avesso do avesso do avesso, assim argumentou o produtor cultural e doutor em direito e músico Danilo Cymrot / Danilo Dunas, em entrevista a Nunomura: “Por que as atrações populares foram para as periferias? Por que não teve o Belo no centro, onde lotaria?”.

Segregação musical é segregação social é segregação racial? Ou será que toda semelhança será sempre mera coincidência e nada tem a ver com nada tem a ver com nada?

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Amplificada, a hipótese do amigo Sato chega a uma leitura de confrontação ao racismo e à segregação social: “Andando (pelo centro), vi muita gente da perifa. Sinceramente, senti falta é dos playbas e descolados. Acho que foi a virada do homem comum, o cara que vive em comunidade”.

O homem comum (assim como a mulher, o gay, a lésbica, a travesti etc. comuns) teve à disposição um cardápio musical mais conservador que a média, e nisso concordo com a avaliação do colega Jotabê Medeiros, publicada no UOL (braço virtual do Grupo Folha). É possível interpretar assim por um lado, e o contrário de assim por outro: a mulher o homem etc. comuns puderam se esbaldar com música caipira. Com a enternecedora volta da dupla histórica de jovem guarda Leno & Lilian. Com o forró de arraial junino na praça da República. Com hip-hop das quebradas. Com a emoção de Fafá de Belém ao cantar o Pará de seu disco de estreia (Tamba-Tajá, 1976). Com Fábio Jr. e o relicário ~brega~ nacional. Com duelos de drag queens e números circenses. Com uma e outra banda gringa (pense México, em vez de pensar EUA). Com um tiquinho só de funk (a cargo da segura e altiva Ludmilla, ex-MC Beyoncé).

(Quem disse que Beyoncé não esteve na Virada? A banda passou na janela, e só o reacionarismo ~hype~ não viu.)

O que significou, para a Virada 2015, a aquiescência do secretário de Cultura a clamores antigos de setores conservadores da cidade, atendidos nesta edição? Nabil resistiu ao desejo de alguns de confinar a Virada no vale do Anhangabaú, mas aceitou reduzir o perímetro central do evento. Foi concessão à Polícia Militar, à SPTrans, à Igreja Católica e a outras entidades públicas não exatamente culturais? Ou foi a visão do arquiteto e urbanista que ele é, além de ser político e vereador petista? Ou um pouco de cada?

O acréscimo de dezenas de corais de música religiosa (notadamente católica) enriqueceu o campo de abrangência da Virada? Ou afugentou público laico em potencial? Ou um pouco de tudo ao mesmo tempo agora?

Fato desconcertante para quem costuma frequentar a Virada, a maior parte das vias públicas desta vez não foi interditada aos automóveis. Os passeantes tivemos que conviver com um domingo quase corriqueiro de trânsito. Que efeito, positivo ou negativo ou ambos, isso fez no resultado total do evento? E qual foi o efeito do cancelamento (por questões de segurança) da programação em cima do Minhocão (o elevado-ditadura oficialmente chamado Arthur da Costa e Silva), outra pressão atendida por Nabil?

Mais dialética: passado o susto inicial provocado pela sensação de ~esvaziamento~, eu e muitos amigos com quem conversei (e como foi mais fácil encontrar amigos neste ano) percebemos aos poucos que esta estava sendo uma divertidíssima e luminosa Virada Cultural.

Sentamos na grama do Anhangabaú.

Andamos pela Luz de madrugada.

Fomos à festa junina da paróquia da Consolação (a festa, por sinal, estava muitíssimo frequentada pelo mesmo público gay que o catolicismo e outras religiões tanto costumam espezinhar). O pinhão estava ótimo, mas o vinho quente das senhoras da igreja parecia ter sabor adocicado mais venenoso que o vinho químico proibidão Chapinha, estourador de fígados e mentes do pessoal nesses eventos de multidão.

Bebemos pouco, rimos e falamos palavrão. Vimos um compadre mais loucão baixar as calças no gramado e ser prontamente reprimido por algum ~agente público~ de plantão.

Levados pela querida Carmen da Silva Ferreira, visitamos uma sede da Frente de Luta por Moradia (FLM) localizada metade num ex-“hotel-puteiro” (como ela descreveu) e outra metade da sala de projeção de um ex-cinema (ex-)abandonado. Por R$ 5, tomei um delicioso caldo de mocotó da FLM – os outros sabores do caldo eram lagosta e camarão.

Constatamos que, na maior parte do tempo, nem estavam lotadas as filas dos food truques trucks e da galinhada do chef(ão) adorado pelo lado mais fashion-vitimista do paulistanismo classe média alta.

Vimos shows médios, bons e excelentes. Vimos trechos breves de shows e vimos shows inteiros, do começo ao fim.

Somado tudo que vimos, devemos ter visto e ouvido (em Viradas, o som nunca é bom, como até Nabil ensaia admitir) algo como 0,01% das cerca de 1.500 atrações que neste ano compuseram um evento marcado, no passado, por parecer ser a única política cultural da Prefeitura de São Paulo. (Ainda parece?) (Ainda é?) (Melhoramos nesse aspecto? Ou ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais que conduzem com mãos de ferro a cultura e os destinos e a vida da ~nossa~ cidade?)

Ao longo de 24 horas, nos movimentamos com liberdade expandida (quem aí, além [email protected] Jornalistas Livres, gosta de liberdade expandida?) por espaços públicos que na maior parte do tempo do resto do ano nem nos lembramos serem de propriedade da cidade e nossa, das cidadãs e dos cidadãos que aqui vivemos e por aqui passamos. Esse é um efeito provocado pela Virada desde anos tucanos. À revelia ou por propósito (ou ambos), tem colaborado para transformar nossa relação com a cidade e promover uma (re)ocupação do espaço PÚBLICO nesta que talvez seja, além de ~a maior~, a mais dura das megalópoles brasileiras.

O texto acaba aqui, sem certezas e com a sensação persistente de que em 2015 um chacoalhão desestabilizou a Virada e a nós que a frequentamos. As perguntas restam ainda esperando por respostas, respostas, respostas e mais respostas. O que, de ruim e de bom, está acontecendo no sistema nervoso da capital paulista? Estamos à beira do enésimo ataque de nervos, ou estamos em busca e a caminhos de curas possíveis? O que está se transformando nos corações habitantes da cidade onde algum dia um gênio popular de pele escura afirmou não existir amor?

 

Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004)
  1. gronez Responder

    Muitas atrações às moscas~, ~Virada perde público~.Segregação musical é segregação social é segregação racial? SIM FOI A VIRADA WHITEPOWERBRZIL aonde ficou bem claro qual as atraçoes feitas para o publico branco no centro e as perifericas publico negro longe dos centros.Segregação musical lixo de virada cultural.

  2. Cristovão Responder

    Síndrome de tadinho tomando de conta.

    • Pedro Alexandre Sanches Responder

      Comentário mega bonzãum.

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