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Chão de estrelas

Em alguns lugares, ouvi ou li que esta Virada Cultural foi um fracasso. Pouca gente pela rua, espetáculos esvaziados, problemas de estrutura. Uma grande bobagem. A Virada Cultural de 2015 me lembrou as duas primeiras versões da Virada, em 2005 e 2006. Famílias inteiras pelas ruas, rolezinhos de amigos aos borbotões, arrastões que não chegaram aos dois dígitos, banheiros perfumados às 3h da manhã, vista para os shows chegando aos 20 metros de distância sem precisar de muito esforço físico.

Que fracasso!

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Fotos e vídeos de Fernando Sato, o Satodobrasil

Pelas minhas andanças pelos backstages da vida, pelas ruas/esquinas e pela minha fixação em conseguir algum relato dos artistas participantes contra a redução da maioridade penal, percebi a total ausência da turba que desceu pra festa nas manifestações contra a corrupção, a favor da ditadura, contra o Estado, amantes da Polícia Militar e “selfers” em geral.

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Se no Rio de Janeiro quem desce pra festa são os moradores das comunidades dos morros, aqui em São Paulo quem desce são os batuqueiros de panela LeCreuset. Mas dessa vez preferiram ver a festa de suas tranquilas e equipadas varandas gourmet.

Vejamos.

1. Rua dos Gusmões. Lado a lado, de uma calçada a outra, um Voyage e um fusca, ambos tunados, ofereciam aos passantes os maiores clássicos do tecnobrega e do axé saindo de seus paredões-porta-malas-caixas de som. Não. Aqui sem panelas.

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2. Palco Júlio Prestes. Além de poder gravar e fotografar de todos os ângulos e o anjo vestido de branco Miya sobrevoar o público no show do Lenine “tô-cansado-não-quero-falar-sobre-redução”, era fácil acompanhar moradores de rua e meninos de periferia dançando juntos, animados, dividindo sua porção mínima de cannabis sem ostentação e sem preocupação. Não. Aqui sem panelas.

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3. Ocupação Rio Branco da Frente de Luta por Moradia (FLM)/Movimento Sem Teto do Centro (MSTC). Degustando o caldo de camarão maravilhoso da dona Carmen (foto acima) e esperando pelo ex-terror das empregadas domésticas e atual rock’n’roller master Odair José, sentei num banquinho onde me dividia entre o funk carioca da banca da garagem da esquerda e o forró-xote-baião da própria calçada onde estava. A catuaba era a peça mais procurada no nosso “quiosque”. Não. Aqui também sem panelas.

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Um aparte. Odair José, sou seu fã.

4. Theatro Municipal. Aeeeeeee! Acharam panelas aqui. Será que a turba LeCreuset desceu pra cá? Pegadinhaaaaaa! Era coisa do Hermeto Pascoal e companhia. Eu fui no Municipal em três momentos. Na Orquestra Sinfônica Municipal, no Hermeto e no Ira!

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Em nenhum momento, mesmo no caso da orquestra, pelo fato de ser o pontapé inicial da Virada, com presença de autoridades e o caralho, senti falta do homem comum na plateia. O homem comum, o que sabe viver em comunidade. Esse “cara” eu vi por toda a Virada, por todo o tempo em que estive na Virada.

Esse é o ponto. Quem esteve na rua, no espaço público, nas praças, ao lado dos carrões tunados, nas filas do Municipal, tomando um caldo na Rio Branco, dançando com seus vizinhos na Luz? Na sua maioria (e olha que posso estar errado… como sempre), era o mesmo público que pertence a esse lugar durante as idas e vindas do trabalho, do lazer, das compras, do prazer. Esse era o público que pude reconhecer nessa Virada.

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O que fez a turma das varandas gourmet se distanciar dessa outra turma que esteve neste fim de semana nas ruas? A cultura do medo. A transformação da cidade em condomínios fechados, protegidos por alarmes barulhentos, milícias de calçada, carros-tanque de vidros fumê, ar-condicionado e janelas hermeticamente fechadas. A arquitetura da exclusão, que ainda tira de suas frentes os vizinhos paulistanos miseráveis, doentes em seus vícios, o som alto, a pobreza de calçada, e que os encarcera em pequenas ilhas (como Luz, Glicério e periferias), quase como solitárias sem sol.

A ausência das camadas mais privilegiadas no espaço público tem seu efeito imediato. É no espaço público que você começa a entender o mundo que vivemos. É na rua que você conhece o diferente. Se a sua criança dita branca, bem vivida, que estuda em colégios particulares vai e volta de Tucson e motorista, só convive com as crianças de seu mundo-condomínio, quando ela for pra rua e vir uma criança negra e te perguntar: “Mãe, porque ela é marrom? Onde moram essas pessoas marrons?”, é disso que estou falando (parágrafo adaptado de texto de Eliane Brum).

Quando o seu filho que vive protegido em seu próprio universo vê pela primeira vez um casal de marmanjos se beijando, se dirige até eles e pergunta: “Por que vocês estão fazendo isso? Não pode!”. Um dos homens se abaixa e pacientemente explica que isso acontece, que dois homens podem se gostar, que duas mulheres podem se amar, e que por isso se beijam. O menino, encafifado, cruza os braços, reticente, e faz uma última pergunta: “E vocês se amam?”. Eles respondem que sim, e o menino olha profundamente para os dois, balança os braços e diz finalmente: “Então, se vocês se gostam, tudo bem!”, vira as costas e corre pra você, te abraça e diz que te ama e você, aliviada, percebe que tudo podia ser mais simples, é disso que estou falando (parágrafo adaptado de um video do YouTube).

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A rua tem que ser a extensão de sua casa. Seu quintal. E todos os moradores da cidade, sua vizinhança. A cultura do medo é alimentada pela indústria do medo. Indústria dos alarmes, das cercas eletrificadas, dos cercadinhos de entrada, da segurança particular, da construção de prisões e, finalmente, de um bando de gente pedindo a redução da maioridade penal. Esse é o mundo das varandas gourmet. Eu não tenho raiva dessas panelas. Tenho pena. Porque nessa Virada o que mais vi foram aquelas trupes de adolescentes se lançando no espaço como astronautas a caminho da lua. Exercendo o direito de se divertir, de estar no espaço público, de conviver.

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Aparte 2. Um salve a Mãe Beth de Oxum (foto acima), Binho do Sarau do Binho, Zinho Trindade, Edgard Scandurra, Tom Zé, Dexter, Sergio Vaz, Taciana Barros, Fernando Catatau do Cidadão Instigado, Thaide, Tadeu Meneghini do Vespas Mandarinas, Flávio Renegado e o explosivo discurso do Emicida.

Porque ir pra rua e se divertir vendo seus artistas preferidos, ou apenas dar um rolezinho com os bróders, dando uma exageradinha na catuaba, ou pintar seu cartaz, sua bandeira e levar sua luta para ser vista, isso é exercício de cidadania. Mas para que esse exercício realmente possa ser um modificador presente da nossa sociedade, talvez tenhamos que pensar um pouco diferente. Sermos pontas-de-lança nessa parada. Aqui coloco minha carta de intenções (que podem conter erros, como sempre).

1. Por que uma Virada gigantesca em apenas uma região da cidade, se essa mesma cidade é um compêndio de 20 milhões de vizinhos?

2. Por que não regionalizar a Virada, criando Viradas menores, mas em todas as regiões da cidade? Virada da Lapa, Virada do Tucuruvi, Virada do Largo 13, Virada de São Miguel, Virada do Centro? Muita gente que não se deslocaria até o centro teria mais possibilidades de comparecer em um evento mais próximo? E se a cada ano, esses bairros mudassem e tivéssemos a Virada da Freguesia, a Virada de Guaianazes, a Virada de Interlagos, a Virada de Santana, a Virada da Barra Funda? Com um plus a mais, os vizinhos conhecendo outras vizinhanças.

3. Fortalecer a periferia. E não pequenos shows nos poucos aparelhos que já existem como os CEUs e os Sescs. Criar uma nova aparelhagem, como a produzida no centro, com estrutura e atrações. Por que sempre os grandes nomes dos shows da Virada se apresentam no centro? Por que o Caetano Veloso não se apresenta num belo palco nas margens da represa Billings, no Grajaú? Qual o problema disso?

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4. Fortalecer a periferia 2. Entender que a periferia traz os movimentos culturais mais fortes hoje em dia na cidade. O movimento hip-hop, a Liga do Funk, os saraus, as associações de bairro. Essa força tem que ser entendida pelo Estado. E tem que ter seu espaço na realização da Virada também. A periferia tem que pautar a Virada.

4. Pra variar, segurança. Por que a cobertura da polícia ao evento tem que ter essa cara de ameaça? Pra que esses robocops com cassetete em punho, loucos pra pegar um moleque com um baseado? Por que a militar precisa sempre estar com a mão no coldre como se fosse tirar o 38 e dar cinco tiros na tua testa? Por que, só pra variar, não podemos ter uma polícia que estivesse realmente lá para dar proteção à população que está se divertindo numa festa? Juro que tento entender, mas não rola.

5. Não pensar na Virada como um evento. Pensar na Virada como um instrumento da possibilidade de criar espaços públicos de convivência. Só assim, compreenderemos mais sobre tolerância, igualdade, diversidade.

6. Que seja uma Virada de pensamento, de ideia e não apenas uma questão de tempo.

 

(Nota do editor Pedro Alexandre Sanches: que honra para FAROFAFÁ poder editar e publicar este texto. <3 )

Fernando Sato, o Satodobrasil, 46 anos, é brasileiro de Hokkaido, cariocapaulista, integrante da Casadalapa, da Frente 3 de Fevereiro e Jornalista Livre. Acredita na verdade e no carinho, na vizinhança e na convivência.
  1. Claudene Responder

    Programei ir para a virada.
    Sai de Fortaleza no sábado pela manhã até a hora da partida na segunda eu vi uma cidade e um evento lindo e organizado.
    Lugares limpos e banheiro higienizado sim!
    Amei a cidade e o evento… Agora a Virada é o meu “carnaval”! Até 2016!

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