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40 anos com Leci Brandão

Numa manhã gripada de julho, caminho pela primeira vez nos corredores internos da Assembleia Legislativa do estado de São Paulo. Estou em busca de música, será que existe música na casa dos deputados? Num dos gabinetes, encontro três colegas de Jornalistas Livres, o Rafael Vilela, a Ísis Vergílio, o Christian Braga, que já chegaram para acompanhar e gravar a entrevista com a deputada estadual pelo Partido Comunista do Brasil Leci Brandão, carioca de 12 de setembro de 1944 que por estes dias comemora, na São Paulo adotiva, 40 anos de presença gloriosa (e quase sempre invisível para a minoria branca) na cultura brasileira. Procuro por uma mulher, será que existem deputadas na casa dos deputados?

Leci_Brandao

É fácil reconhecer o gabinete dela, em meio a um sem-fim de gabinetes sisudos: as janelas de vidro estão repletas de cartazes de eventos e lutas diversas, invariavelmente ligados aos direitos humanos. Um dos cartazes é [email protected] Jornalistas Livres. Leci chegou à Assembleia bem cedo, e nos faz esperar alguns poucos minutos enquanto zanza pelos gabinetes de outros deputados ou sabemos lá por onde. Quando chega, chega cheia de amor para dar, já interessadíssima em mais um cartaz [email protected] Jornalistas Livres que está em poder da Ísis.

 

Leci Brandão: Vem cá, isso aí é um cartaz? Eu não tenho esse cartaz. Eu nunca vi esse cartaz. Eu gostaria de ter uns dois ou três aqui pra botar aqui, na boa, num lugar bem destacado, porque eu adoro vocês. Amor, foi você que fez uma matéria minha uma vez? Você sabe que o dia que eu li eu me emocionei, eu me emocionei, porque “lave a boca com sabão”, não sei o quê, eu falei: Meu Deus do céu, apareceu alguém pra me defender! Foi muito legal aquilo.

 

Sim, querida Leci, fui eu que falei de você em “Lave a boca com sabão para falar de Leci Brandão“, de 2012, num falecido blog no Yahoo! BraZil, e também em outros textos como “O silêncio de Leci Brandão“, numa Caros Amigos de 2011, e “A madrinha do rap“, numa CartaCapital de 2007. Madrinha do rap, do samba e da cidadania, Leci tem muito o que dizer, tanto que nem dá fôlego para que eu faça uma primeira pergunta e já sai elogiando @s Jornalistas Livres, empolgada pela festa a que compareceu na Praça das Artes, no mês de maio que se foi.

 

LB: Deixa eu falar pra vocês, cês sabem que ainda estou sob impacto emocional daquele evento? Foi muito bonito, muito significativo, muito legítimo. É sério. Eu consigo lembrar os rostos das pessoas, uma coisa que me comoveu muito, porque era um outro tipo de público, um público jovem, com a marca da diversidade, e as pessoas estavam felizes. Mas o que mais me tocou foi que várias meninas negras chegaram pra mim, naquela confusão, “ô, Leci, você me representa mesmo!, vou votar em você!, joguei o meu voto no lixo!”. Eu subi no palco e disseram “já fala”, eu não sabia o que eu ia falar, então fui falando do coração. Vocês gravaram aquilo tudo, né? Depois eu queria, quero guardar pra mim, foi muito legal, foi um momento muito legal na minha vida.

Pedro Alexandre Sanches: Fiquei reparando que você desceu do palco e se formou uma roda de tietes ao seu redor.

LB: Foi muito legal, né? Os depoimentos das pessoas foram maravilhosos, eu lavei a alma naquele dia.

PAS: O que você falou das meninas negras ao seu redor deve ser algo habitual pra você.

LB: É, mas é que ali era um público específico, que acompanha a comunicação alternativa. Tinha muito estudante, menina, trançadeira, rapper, tudo.

PAS: Sem-teto…

LB: E quando você escuta, principalmente de jovem, um depoimento desse, é comovente. Porque é assim, nunca sei se a gente tá na sintonia. O palavreado é outro, o comportamento é outro, eles frequentam outros lugares. A minha vida hoje é o quê? É esta Assembleia e show nos finais de semana, quando posso fazer. Então estou muito fechada nesse negócio, não saio mais, nem me divirto, porque não dá tempo. Mas foi muito bom, muito bom mesmo. Mas vamos lá, sou toda de vocês.

PAS: Eu queria começar agradecendo você receber a gente aqui, ficamos muito felizes. A primeira pergunta era justamente nessa linha: o que um mandato público faz com a sua carreira musical? Como ela se modificou em função de você, ou a senhora, ter virado deputada?

LB: Pode me chamar de você, cara, eu não tenho essa coisa, não, pelo amor de Deus. Com vocês é você mesmo. Veja bem, o que muda é que o meu tempo agora, pra arte, ficou bastante reduzido. Eu quase não tenho feito shows, até porque tem um detalhe: qualquer show que tenha dinheiro público eu não posso participar, pelo fato de estar deputada. Não posso participar de um monte de coisa, morro de tristeza, porque o palco é a minha vida há 40 anos. Mas, por outro lado, o que eu percebo é que tá tendo uma identificação infinitamente significativa neste momento, pelo fato de eu estar atuando na política de acordo com tudo aquilo que eu compus e interpretei e defendi. A minha vida artística sempre foi usada de forma instrumental pra ajudar as pessoas.

Desde o primeiro compacto simples que fiz, tenho a preocupação da arte como ajuda, como ferramente pra colaborar com os outros. E coincidentemente, entre aspas, as “minorias”, principalmente as minorias. Eu sempre cantei pras minorias. E fui uma artista marcada por esse comportamento, pelo fato de ter tido músicas censuradas, ficar sem gravadora durante cinco anos, não participar de determinados programas de TV, não ser inserida em determinados projetos, por causa da minha cabeça. A minha cabeça sempre foi muito maluca. Então você se atira nisso, mas você tem de se preparar pras proibições, pros obstáculos. E eu sempre entrentei isso com muita ousadia.

Eu fiz uma carta pra PolyGram em 1981, pedindo a minha saída da gravadora. Não quiseram aceitar meu repertório, então estou pedindo demissão. Na época todo mundo dizia: “Mas como é que você pede demissão de uma multinacional?”. Eles não respeitaram a minha arte, mandaram eu ir pra casa fazer outro som. Aí eu fiquei nervosa, fiz uma cartinha e entreguei.

PAS: Essas músicas eram “Zé do Caroço” e várias outras…

LB: “Zé do Caroço”, “Deixa, Deixa”, “Assumindo”. Foram cinco anos em que tive que bater na porta de muitos lugares, na Funarte, nos Sescs da vida. Sobrevivi cantando nesses projetos, Projeto Pixinguinha. Cantei nas cadeias, todas as cadeias do Rio de Janeiro eu conheço. Cantava em dia dos pais, dia das mães, Natal. E também fazia parte de eventos políticos, eventos de partidos de esquerda. Eu sempre cantei nos palcos das bandeiras vermelhas.

LeciBrandao1985-thumbEm 1985, o Adiel de Carvalho, já falecido, diretor da gravadora Copacabana, aqui de São Bernardo do Campo, foi quem me ofereceu oportunidade de voltar. E eu voltei com o LP Leci Brandão, que vendeu tanto que eu não pude nem gravar no ano seguinte, só gravei em 1987. Foi o que veio com “Isso É Fundo de Quintal”…

PAS: Com todas aquelas músicas que a PolyGram rejeitou.

LB: Veio “Zé do Caroço”, “Deixa, Deixa”, veio tudo. Em 1987 gravei o Dignidade, o LP que tem a música “Só Quero Te Namorar”, que foi o carro-chefe. Também gravei “Nova Manhã”, que era uma música que falava do que aconteceu depois das Diretas Já. Tinha “Lá e Cá”, em que eu fazia o comparativo do negro na avenida na Sapucaí e da luta do negro na África. Comecei e me interessar também pela coisa da percussão, de cantar música afro-brasileira. Aí dei uma pancada de venda no Brasil inteiro. Ou seja, em 1985 retomo essa carreira que vai até 1990. Depois a Copacabana teve problemas financeiros, deu uma parada, e eu fui pra uma gravadora do Rio de Janeiro que acabou sumindo comigo daqui de São Paulo, onde eu estava muito bem. Os meus CDs de 1993, 1995 e 1996 o pessoal de São Paulo não conhece, embora eu tenha recebido o Prêmio Sharp de melhor disco de samba pelo de 1995, Anjos da Guarda.

Agora, depois do segundo milênio, aconteceu um monte de coisa na minha vida. O “Zé do Caroço” foi super-regravado.

PAS: Por que aconteceu isso com você no segundo milênio?

LB: Eu não sei, depois do segundo milênio acontece meu primeiro CD ao vivo, gravado no Sesc Pompeia, que vocês vão levar uma parte hoje de presente. Aconteceu de eu voltar a comentar carnaval na Globo. Voltei em 2000 e 2001 no Rio, e em 2002 vim pra cá, dei uma mudada no carnaval de São Paulo. Tudo que eu fazia no Rio, falando das pessoas e das comunidades, [o diretor globalAloysio Legey me autorizou a fazer em São Paulo. Fiquei aqui comentando de 2002 a 2010, e o carnaval de São Paulo realmente mudou. Mudou a transmissão, mudou tudo. Então me coloco como responsável por essa transformação do carnaval de São Paulo, em termos da visibilidade. Ninguém falava das coisas, e a gente veio e falou.

No segundo milênio acontece também o fato de outros artistas, inclusive de MPB, gravarem coisas minhas. Volto aos Estados Unidos, Jorge Aragão me levou pra lá em 2005 pra fazer dois shows com ele. Fui pra Suíça, convidada pelo Martinho da Vila para o Festival de Montreux. Voltei a Angola também, pro Misambola. Fui pro exterior, tudo seguidinho. E aí vem, em 2010, esse convite pra ser candidata.

PAS: Foi um convite? Não foi ideia sua?

LB: Não, eu não queria saber, não. Foi um convite, o Orlando Silva e o Netinho de Paula [políticos do PCdoB, o segundo também cantor] me convidaram. Dei uma canseira neles. Levei um parto, foram nove meses pra eu responder. Mas os movimentos sociais começaram, “você tem que ir, você é uma mulher que fala as coisas, não é uma simples artista que vai se aventurar”. A gente foi, e foi tão legal que a gente teve quase 90 mil votos. Foi bem significativo. Eu me lembro que no meu folder de campanha eu colocava todas as minhas lutas na minha carreira. Tudo que está naquele folder foi tudo que eu cantei, tudo que eu assumi, que eu defendi. E aí fica mais tranquilo, você tem um projeto. Eu já tinha o projeto cantando, então esse projeto veio pra dentro da Assembleia Legislativa. Só que o que eu não sabia é que a maior Assembleia Legislativa do país, que é esta aqui, era uma Assembleia com gente tão conservadora. Agora, então, ela tá hiper, ultra-reacionária. Nós vamos ter muita dificuldade aqui de tentar aprovar, fazer audiências públicas, porque tem uma bancada que tá aqui só pra dizer não e pra atrasar o Brasil, como aquele Congresso Nacional em Brasília tá fazendo. Não muda nada, é a mesma coisa.

PAS: Você já foi pra uma segunda eleição, isso quer dizer que a experiência foi boa pra você? Está gostando?

LB: A segunda eleição é porque foram tantos os assuntos e as pautas que vieram pro primeiro mandato que eu não podia parar, não podia estacionar. Houve oportunidade pra tanta gente, pra tantas reivindicações. As pautas que vêm pra cá são pautas difíceis, de gente que nunca tinha tido uma oportunidade de resposta pra suas coisas, principalmente o povo pobre, o povo negro, o povo de terreiro, o segmento LGTB, quilombolas, povos indígenas, mulheres, juventude. É muita coisa. São Paulo é muito grande, são 645 municípios, e cada lugar tem um problema diferente. Então, a partir do momento em que você opta por cuidar de gente… Eu era de duas comissões, agora só tenho uma porque entraram sete partidos novos e nos partidos com menor número – no caso do PCdoB só tem eu e o Atila Jacomussi -, a gente só tem direito a cada um ter uma comissão. Eu fiquei com a Comissão de Educação e Cultura, mas eu era da Comissão de Direitos Humanos também.

Nessas duas comissões, se você observar, o meu trato é todo com gente. Eu não sou do comércio, da indústria, do asfalto, de milho, de feijão, nem do boi, nada disso. Meu negócio é gente. E quando você trata de gente dentro de uma Assembleia Legislativa com a cara desta aqui a batalha é muito grande. Mas a gente conseguiu abrir oportunidades nas entidades, no povo que tem Organizações Não Governamentais, projetos que davam certo cerceamento ao segmento LGBT. A gente foi pra cima de todo tipo de atitudes preconceituosas que aconteceram em São Paulo nesses quatro anos. Acho que prestei um serviço legítimo a essas pessoas. E aí eu falei, poxa, tem que continuar, tem que continuar. Mas aí acontece a crise de Dilma Rousseff, PT, essa coisa toda, e a gente na coligação, é claro que houve uma diminuição. A gente teve 71 mil votos. Tem uma baixa aí, mas isso tudo é resultante do momento político que o Brasil tá atravessando. Mas mesmo assim, dentro desse processo, nós conseguimos manter a bancada do PCdoB. E tem outro detalhe: o PCdoB não frequentava isto aqui havia oito anos. Com a minha entrada em 2010, voltou o PCdoB pra dentro da Assembleia. Foram dois deputados, estava também o Pedro Bigardi, que era prefeito de Jundiaí, e agora tá aí o Atila, de Mauá. O PCdoB mantém sua bancada, apesar de toda dificuldade, e isso pra mim é uma vitória.

PAS: O que podem fazer dois deputados de um partido dentro desse cenário?

LB: Olha, eu acho que, se você tiver uma meta, uma equipe boa, aguerrida, que entenda a cabeça de quem está comandando… Quer dizer, eu estou deputada, mas tenho uma assessoria, que tem que ter uma sintonia muito legal comigo, que é pras coisas poderem acontecer. A partir do momento que você vê o resultado do coletivo, é muito legal. Eu não posso falar do outro deputado, porque sei que ele tá também tratando da campanha dele pra prefeito de Mauá. Mas é claro que um time de dois não pode competir com um time de seis, oito, dez, como tem aqui. É mais difícil, mas a gente tá se virando. E o povo vem aqui. Tudo que tá colado aqui nesse gabinete…

PAS: O seu gabinete é o mais animado de todos.

LB: …São coisas que as pessoas vêm aqui procurar a gente. Tudo que acontece eu digo: “Cola, que é pra todo mundo ver o que a gente tá fazendo”.

PAS: Até Jornalistas Livres estão colados aí.

LB: Pois é, exatamente (risos). Eu faço isso com muito prazer, mas principalmente com muita consciência e responsabilidade. Eu sei o tamanho do meu compromisso na área política. Tenho um compromisso muito grande e muito amplo.

PAS: Tem um cartazinho ali fora que diz “Quilombo da diversidade”. O nome do seu gabinete é esse?

LB: De 94 gabinetes, o único gabinete que tem nome é o nosso.

PAS: Foi você que batizou?

LB: Eu batizei. Isto aqui é um quilombo. Por que é um quilombo? Eu me lembro da história de Zumbi, ele recebia em Palmares não só negros. Eram todas as pessoas que lutavam pela liberdade. Tinham pessoas de outras etnias e segmentos. É o caso daqui, se você olha o gabinete tem gente de todo tipo. Tem branco, negro, mulato, nissei, gordinho, magrinho, gente da sul, da leste, da norte, de São Paulo, do Rio (que sou eu), do Amazonas, de Minas Gerais. É uma diversidade, aqui é o quilombo da diversidade. Porque tudo que sai deste gabinete, em termos de projetos, audiências, fóruns, são coisas muito diversas. A gente trata um pouquinho de tudo. Mas eu só posso tratar das coisas que conheço e com que me identifico. Como vou me meter, por exemplo, em questão de comércio, indústria? Transporte, por exemplo, eu não sou empresária, mas sei que o povo precisa de transporte. Em questão de mobilidade a gente se mete, por exemplo o negócio do metrô. O projeto de metrô 24 horas foi a primeira coisa que a gente fez, lá em 2011, e que a gente batalha até hoje. Por que a gente tá na questão da Petrobras, por exemplo? Eu não sou petroleira, nunca participei, mas é o emprego das pessoas que não têm nada a ver com o desvio de dinheiro lá.

PAS: Qual é sua participação na história da Petrobras?

LB: Nós fizemos uma Frente Parlamentar em Defesa da Petrobras, dos funcionários da Petrobras. Eu sou a coordenadora, saiu daqui o negócio. Aliás, tivemos 35 deputados que apoiaram, de todas as siglas partidárias.

PAS: É um assunto polêmico, qual é o seu ponto de vista?

LB: Não, a partir do momento que você explica que quer defender a principal empresa do país e o emprego dos trabalhadores de lá, que não têm nada a ver com essa história, todo mundo entende. É claro que somos totalmente contra, bater palma pra ladrão eu não bato. É uma coisa que a gente fala no Rio de Janeiro, não vou bater palma pra maluco dançar. É uma frase que veio da comunidade, da favela, e eu falo muito isso aqui. E eu não vou bater palma pra ladrão, eu não gosto de ladrão.

PAS: Qual é o objetivo dessa frente aqui na Assembleia de São Paulo?

LB: Nós vamos fazer debates, seminários, outras audiências. Tem uma ideia legal de a gente ir pra outros municípios e fazer acontecer a frente nas cidades que têm referência com Petrobras. Tem um monte de cidades que têm polos petroquímicos. O pessoal está bem animado, tanto é que tinha a presença de trabalhadores da Petrobras aqui, com uniforme.

PAS: Leci, como é pra uma mulher negra ter o mandato que você tem hoje? Quais dificuldades você enfrenta? Existe discriminação em relação a essas coisas aqui dentro desta casa?

LB: Veja bem, quando nós entramos aqui havia uma grande desconfiança, porque diziam o seguinte: “Artista é um mandatinho só, vem aqui pra aparecer e vai embora”. Eu me lembro que no 1o de maio de 2011 o CQC e o Pânico me fizeram perguntas tipo “como está o samba lá no gabinete?”, “como estão os malandros?”, “como estão as mulatas?”, nesse nível. E eu respondendo a todo mundo, de uma forma sem agredir ninguém: “No gabinete não tem samba, o samba tem quando vou fazer meus shows. Malandro lá não tem, até porque malandro do samba é o bom malandro, o malandro sutil, que tem a alegria. Escola de samba tem compositores, velha guarda, diretor de bateria, diretor de harmonia. Não tem malandros. E as mulatas, também não temos mulatas. Nós temos negras no gabinete, eu sou uma delas”. Aí acabou a entrevista, os caras não perguntaram mais nada. Foi dessa forma que a gente falou com eles, tanto é que estão todos amigos. CQC e Pânico, quando se encontram comigo, me tratam com o maior respeito do mundo.

PAS: Você está dizendo que soube impor esse respeito a eles?

LB: Exatamente. Não xinguei ninguém, não disse que não dava entrevista, nada disso. Então, tranquilo, né? Também havia aqui deputados que nem me olhavam na cara. Não olhavam. Não olhavam pra minha cara. Fingiam que eu não existia. Quando foram criadas as comissões de Educação e Cultura e de Direitos Humanos e eles começaram a ver minha atuação, a coisa foi mudando. Eles viram que não vim pra cá pra passar tempo, que vim pra cá pra trabalhar. As audiências públicas que nós realizamos aqui… Antes da novela Salve Jorge nosso mandato falava de tráfico de pessoas. Logo no primeiro mês a gente fez aqui a semana do orgulho gay. Teve gente que deu ataque, teve deputado que ficou achando que os meninos vinham pra cá dar pinta. Não, o pessoal veio, normal, receberam suas placas. Então nós trouxemos assuntos que nunca antes nessa Assembleia o pessoal tratou com o respeito que a gente trata. A questão da lei 10.639, que não é respeitada nem executada do jeito que tem que ser, trouxemos pra cá mais de 300 professores do estado todo. Foram muitas as discussões que vieram pra cá, quilombolas, mulheres, Lei Maria da Penha, a inexistência de uma Secretaria Estadual da Mulher, o genocídio da juventude negra, as cotas. Tudo isso foi discutido nesses quatro anos.

Theodosina Ribeiro

Theodosina Ribeiro

 

É claro que é um fato histórico que São Paulo fez na minha vida, porque esta Assembleia tem 180 anos, e a primeira deputada negra foi a doutora Theodosina Ribeiro, nos anos 1960, e eu sou a segunda deputada negra a entrar nesta casa. É um fato histórico, uma coisa muito séria. E digo a você que essa mídia normal aí nunca fez uma página comigo pra falar sobre isso, nem quando nós fomos eleitos, nem quando fui reeleita. Eu acho que a gente merecia ter uma matéria de capa numa Ilustrada da vida, porque eu sou uma artista, estou deputada, houve uma compreensão do povo de São Paulo de que nós não viemos pra cá fazer graça. A gente veio pra cá pra trabalhar, e estamos cumprindo o nosso dever com muita dignidade.

Mas é claro que se eu tivesse feito alguma coisa errada eu já teria ido pra todos os jornais, como fui no dia em que roubaram o carro de um assessor. O caro apareceu numa biqueira, aí: “Carro de assessor de Leci Brandão é encontrado em ponto de droga”. Aí pronto, começou todo mundo a ligar aqui. Aí interessa pra eles, quando é esse tipo de matéria. Também quando houve a questão da Prefeitura, que fui lembrada pra ser vice-prefeita do Fernando Haddad. O jornal botou: “Candidata a vice-prefeita comparece em evento do PSOL”, tudo pra tentar… Mas nunca reconheceram. É um simbolismo muito forte eu estar aqui. Até porque tem um detalhe, eu não tenho universidade, não sou advogada, engenheira, administradora. Não tenho formação acadêmica. Universidade da vida minha tem seis palavras que mamãe me ensinou: bom dia, boa tarde, boa noite, com licença, por favor e muito obrigada. É desse jeito que sigo minha vida. O que aconteceu de diferente comigo depois que entrei pra cá? Aprendi um novo vocabulário.

PAS: Um novo vocabulário chato, ou você se adaptou?

LB: Tem umas coisas que são bem chatas, mas tem outras coisas que acho legal. Você lida com muito universitário, passa a se interessar até bem mais por outros assuntos. Eu sempre me interessei pela questão social, pela questão de injustiça. Injustiça sempre me incomodou. O racismo sempre me incomodou. Preconceito de toda ordem sempre me incomodou. E, quer queira, quer não, você vai trazendo esse ensinamento pro seu dia a dia. Você não precisa estar devorando livros, até porque não tem tempo. O meu lance é no dia a dia, aprendo muita coisa na rua, com o povo. Sou uma artista que tem uma vida muito comum. Vou ao supermercado, à farmácia, à padaria. Só não posso andar em São Paulo, andar é mais complicado, porque o povo me conhece e aí não consigo andar. Passa o motoqueiro, me vê, dá a volta na moto, tira o capacete, “ô, Leci, vamos fazer um selfie aqui”. Isso acontece em qualquer lugar que eu vá. O cara do balcão da padaria ou da lanchonete, o garçom, o motoqueiro que tá passando, o cara do caminhão, o cara da Eletropaulo, motorista de ônibus. É desse jeito, o povo gosta muito de mim.

PAS: Nessa hora passa pela sua cabeça se estão chamando a sambista, a cantora, ou a política?

LB: Não, é a cantora, a artista. Aqui em São Paulo, eu atuo artisticamente desde 1985. São muitos anos em que fiz as principais festas de rádio, praça da Sé, praça da República, favela, fundão da leste ou da sul. Quebrada é comigo, eu adoro fazer show nesses lugares.

PAS: Não seria muito bacana se isso se congregasse, se esse respeito se transferisse pra sua figura política?

LB: Mas eu acho que isso tá acontecendo, porque senão eu não teria sido reeleita. Sabe por quê? Não teve dinheiro nessa campanha, não teve nada. A televisão mostrava minha cara às 13h30, meu povo tá trabalhando, 20h30, meu povo tá na condução pra ir pra casa. Ninguém vê a minha cara na televisão. Sabiam que eu era candidata, e houve mobilização por parte da juventude, da periferia. A periferia sabe exatamente o que a gente fez e tá fazendo.

PAS: Já te falei que você é a minha deputada, que votei em você duas vezes e conheço um monte de gente que também votou. Você conquistou uma galera mais classe média também.

LB: É, a turma aqui do gabinete começou a falar, “os setores médios votaram em você”. Que que é setor médio, o que é isso? “Você teve voto em Perdizes, no Morumbi…” Mas eu nem conheço. “Ah, mas eles votaram.” Encontro muita gente em aeroporto, na ponte aérea, as pessoas chegam de terno e pasta, “votei em você, hein?”. E é aquele negócio, eu sou a grande lutadora pelo movimento negro, mas tem branco que vota em mim, mas muito branco, muito (risos). Brancos e brancas. Chamam votação de opinião, que eu tenho muito voto de opinião. Quando vou fazer show sei que acabo chamando pra mim vários eleitores. Eu falo no show, não só canto, falo da educação, da violência, do Brasil achar que só tem cultura na ponte aérea e nos outros estados não existe nada. Compus várias músicas que falam sobre esses temas. As pessoas ficam surpreendidas, porque meu show não tem só samba. Tem samba, tem partido alto, mas de vez em quando canto um Milton Nascimento, um Djavan, um Chico Buarque.

PAS: Um Olodum

LB: É, eu canto a Bahia. Fui a primeira pessoa fora da Bahia que gravei o Olodum, que é essa coisa do ritmo afro-brasileiro que entrou na minha vida. O primeiro disco de ouro que eu tive foi por causa de “Olodum Força Divina”, em 1988.

PAS: Quando havia muita discriminação contra a chamada axé music.

LB: É, não sou da fase da axé music, sou antes. Gravo Olodum em 1988, o axé chegou bem depois. Gravamos o Araketu em 1989 e o Ilê Aiyê em 1990, os três principais blocos da Bahia, que não eram conhecidos nem nada. Tonho Matéria ganhou Prêmio Sharp de melhor música com “Maravilha”, que gravei no LP de 1990. A primeira pessoa que gravou o boi bumbá de Parintins fui eu, em 1990, uma música do Garantido, ninguém nem sabia o que era. Gravamos o Maranhão, Alagoas.

PAS: Podemos concluir que uma característica sua é o pioneirismo?

LB: Exatamente.

PAS: Como você falou, você não foi a primeira, mas foi a segunda mulher negra a ser deputada estadual em São Paulo. Isso estava repetindo o que te aconteceu como sambista, como compositora.

LB: Na Mangueira, na ala dos compositores da Mangueira, exatamente.

PAS: Ali você foi a primeira mulher?

Cassiana Belfort

Cassiana Belfort

LB: Exato. Tem muitas coisas assim que a gente faz… Tem coisas no meio artístico que são encomendadas. O produtor chega, “quando você for dar entrevista tem que falar isto”. Eu, não, eu sempre falei as coisas da minha cabeça. Fico muito irritada com umas novas cantoras que dizem que ouvem Noel RosaIsmael Silva. Mentira. Ouvem nada. O cara mandou falar (risos). Eu não aguento esse negócio, umas minas que você olha a cara delas e vê que não tem história ali. Mas vai pra Lapa, e essa gente toda tem um cartaz. Todo mês aparece uma nova cantora, “esta aqui é a nova musa”, depois você não escuta falar mais, porque não tem estofo. Tem que ser visceral. Por que ninguém mostra a filha da Jovelina Pérola Negra (Cassiana Belfort), por exemplo? Ela tá aí cantando, a voz inclusive é parecida com a da mãe. E eu não vejo ninguém falar, porque a menina é negra, bem negra, não tem a estética que a televisão quer.

Eu tenho muita dúvida do sucesso no país. Eu duvido desse sucesso de alguns anos pra cá, sabe por quê? Porque ele acaba dando visibilidade a pessoas que não têm talento, mas têm a cara bonita, um olho assim, um corpo assado. Mas não têm aquilo que você espera pra te emocionar. Você hoje não escuta mais artista que faz você chorar. Aí vai no show da Nana Caymmi, da Maria Bethânia, da Célia, da Elza Soares, aí você sente o negócio. Quantas cantoras vieram, “a nova Clara Nunes”? Eu conheço cinco já. Nenhuma fica, não vai ficar, não é assim que funciona. A nova Clara, a nova Beth Carvalho, não tem isso. Ficam inventando, mudam o cabelo da menina, botam aplique, mandam a menina pro cirurgião plástico. Se fosse assim, cara, as cantoras que são mais fortinhas não existiriam.

Jovelina Pérola Negra (1944-1998)

Jovelina Pérola Negra (1944-1998)

 

Eu não tenho nenhum preconceito de gravar com quem quer que seja, gravo com todo mundo, tenho participação espalhada por aí com um monte de grupos. Mas tem uma coisa que é aquela invencionice de alguns caras da mídia, que têm um certo poder… um certo poder, não, um bom poder financeiro. Pagam pra tocar na rádio de meia em meia hora. Às vezes o cara vai fazer um show ao vivo, aí é decepção. Chega lá, não é nada daquilo que você escutou no CD. Eu queria que eles fossem democráticos, que dessem abertura e oportunidade, fizessem festivais de verdade, não festival que já tem carta marcada. Tem um monte de programa que é carta marcada, você já sabe quem é que vai ganhar. Tem que ter festival como tinha antigamente, que todas as pessoas participavam e ganhava o melhor mesmo. Todos esses medalhões da MPB passaram por festival, todos.

PAS: Você não chegou a passar?

LB: Passei. Fiz o Abertura de 1975 e o MPB 80…

PAS: Ah, sim, você chegou um pouco depois.

LB: …com “Essa Tal Criatura”, que acho que foi uma das melhores letras que fiz na minha vida.

PAS: É exatamente depois dessa que a PolyGram passa a te cercear.

LB: É, Essa Tal Criatura foi o último disco que fiz na PolyGram.

Rafael Vilela: Leci, com relação a democracia e mídia, estávamos citando o caso da Valesca Popozuda, que é uma artista que a gente foi entrevistar outro dia, e o contrato dela com a gravadora não permite ela falar em política e em absolutamente nada que se relacionasse a liberdade de imprensa, a uma crítica a isso. Ela gravou pra gente em apoio aos Jornalistas Livres, que é o que ela podia, mas os contratos que permitem ela estar hoje acessando esse público massivo da TV, da Globo, não permitem mais nada. Você falou um pouco de como você sofreu isso na pele, mas como você vê essa nova geração? Que capacidade tem essa nova geração de artistas de falar para o público para além da música?

LB: Eu acho que os artistas independentes estão tranquilos. A turma independente tem a cabeça legal, eles fazem os shows deles, botam a música na internet, no YouTube, e vão fazendo suas coisas. Não estão a fim de seguir essas regras. Quer cantar de camiseta e descalço, vai cantar. A primeira coisa que eles fazem é fazer você botar roupa da marca tal. Você tem que se vestir assim, mudar seu cabelo, ter uma banda com tais e tais músicos, ter backing vocal. Eu boto backing nos meus DVDs, mas eu não tenho vocal em show, sou eu e os meus meninos do Sampagode, e vamos aí pro mundo. Eu não tenho aquele palco que eu fico na frente e a banda lá trás, que ninguém vê. Meu palco é todo mundo perto de mim, porque a gente é interligado o tempo inteiro. Eles fazem parte do show, todos nós somos artistas. Tem gente que não apresenta nem a banda. Você vê DVD aí que não se vê a cara dos músicos que estão acompanhando. Isso é um negócio maluco.

PAS: O que choca a gente nesse caso que o Rafael falou é saber que existe artista que, por contrato, não pode falar de política. Como seria isso no seu caso, por exemplo?

LB: Impossível, impossível. 

PAS: Não é concebível que um contrato diga de que assuntos um artista pode falar.

LB: Você agora me fez recordar uma coisa. Nos anos 1970, eu fiz matéria pra um jornal chamado O Lampião [dedicado ao público homossexual], que era do Aguinaldo Silva. Aguinaldo era fã meu, eu estava na Mangueira nessa época. Pegaram um exemplar do jornal e levaram lá na Mangueira pra mostrar, “mas como, a Leci Brandão, compositora da escola, fez matéria pra esse jornal?”. O presidente não sabia nem que jornal era aquele, e a matéria não tinha nada demais. Apenas eu tinha feito uma música em que eu apoiava o gay people, chamavam gay people na época.

PAS: É “Assumindo”?

LB: Não, é “Ombro Amigo” [atenção, por favor, à letra dessa música], que vem no meu LP de 1977 na PolyGram. Foi trilha sonora de uma novela da Globo chamada Espelho Mágico. É uma balada, não é nem samba. Os compositores falaram: “A Leci é uma pessoa que participa aqui das coisas todas. Quando tem festa dos compositores ela vai pedir biscoito, chocolate pra gente fazer a festa. É parceira nossa. Ela defender essas pessoas pra gente não tem problema algum”. Você vê, lá em 1977 já tinha rolado essa coisa. Você ter que ter um comportamento diferenciado em função do que as pessoas estão impondo, pra minha cabeça, isso sempre foi…

Uma vez teve uma matéria no Jornal no Brasil que me incluiu entre os artistas xiitas, fui chamada de xiita com Nei Lopes e não sei mais quem. Eu estava na lista. É muito engraçado, porque talvez, pela minha educação… Minha criação sempre foi muito simples, minha mãe era servente de escola. A gente nunca teve esse conhecimento amplo, de que deve-se falar isso ou não falar aquilo. Isso nunca teve na minha vida.

PAS: Dona Lecy está viva?

LB: Graças a Deus!, 92 anos. Quando você abrir meu boletim, ela está do lado, no dia da posse.

PAS: Ela mora aqui ou no Rio?

LB: Mora no Rio. Ela não poderia morar em São Paulo, não tem condição, porque é muito frio aqui. Mas ela adora São Paulo porque vê que São Paulo trata muito bem a filha dela, tem muito orgulho. Eu estava falando com o pessoal do gabinete outro dia, todo dia passa na minha cabeça a minha história. Tem dia que estou aqui neste gabinete e fico lembrando quando eu varria sala de aula lá na Escola Nicarágua. Sabe como é? Fico lembrando a minha mãe, o sacrifício todo. Lembro eu indo na padaria comprar pão correndo, tinha que vir pão quentinho pra gente poder vender os lanches na escola pro pessoal. Lembro as minhas mãos na fábrica Realengo, que eram cheias de calos, eu trabalhava com metal. Eu não esqueço. A minha história quase todos os dias passa na minha cabeça. Ou seja, eu não perco a minha referencia.

PAS: E isso ficou maior a partir do momento do cargo público?

LB: Eu acho que sim. Quando me olho aqui, vejo aquele plenário, eu penso: “Meu Deus do céu, eu estou aqui”.

PAS: Seria você explicando pra você mesma por que você está e merece estar nesse lugar?

LB: É, sabe, isso passa bastante. Fico lembrando todas as dificuldades que tivemos. Me lembro que, quando fui cantar no Flávio Cavalcanti, fui com o vestido que uma amiga minha me emprestou, Alice Alves Ferreira, que também é jornalista no Rio de Janeiro. Eu não tinha roupa pra cantar. Quando me fui convidada pra cantar no Teatro Opinião, em 1973, porque me viram cantando na Mangueira, eu adotei uma roupa, uma calça jeans tipo pescador, descalça, ou então de tamanco-chão, uma camiseta e uns colares. O pessoal dizia: “Vamos ver uma neguinha magrinha da Mangueira que canta lá no Opinião, que é maravilhosa”. Jornalsitas iam na segunda-feira no Opinião só pra assistir a gente cantar música de protesto. E eu nem sabia que eu fazia protesto.

PAS: Já eram músicas suas?

Capa

LB: Músicas minhas. Compositora. Eu começo como compositora. Depois é que as pessoas falavam: “Não, Leci, você pode cantar música dos outros também”. O pai do ex-governador do Rio de Janeiro, o Sérgio Cabral jornalista, foi o meu grande descobridor. Ele levou o Marcus Pereira ao Rio pra me ver cantar no Opinião e aí assinei o contrato, minha primeira gravadora foi a Marcus Pereira.

PAS: E o Cartola foi importante nesse início também.

LB: Cartola foi importante, minha madrinha morava no Morro da Mangueira e conhecia Dona Zica, ia no barraco dela, Dona Neuma. Cartola e eu fizemos o programa Ensaio com o Fernando Faro, ali já mostrando quem eu era. Tem umas músicas bem legais naquele programa, que depois a Trama lançou em DVD em preto-e-branco. Tem música ali que nunca foi gravada. É meu iniciozinho.

PAS: Leci, você antes falou da mídia, eu já devo ter lhe dito isto na entrevista anterior. Trabalhei na Folha de São Paulo por dez anos, de 1995 em diante, e não entrevistei você nenhuma vez enquanto trabalhava lá. Eu tenho responsabilidade nisso, porque pessoalmente não prestava atenção na sua obra, só que ao mesmo tempo nunca um chefe meu me solicitou, deu a ideia, me pediu ou mandou eu entrevistar Leci Brandão. Fui entrevistar você já quando trabalhava na CartaCapital, e acho que, embora esse seja um caso específico, reflete o comportamento dessa mídia. Há figuras que não atraem a atenção da mídia “normal”, como você falou antes. Como você entende e sente isso? Essa mídia realmente é refratária a você, como você também citou, de ninguém ter feito uma grande matéria quando você chegou à Assembleia Legislativa?

LB: É o racismo explícito, né? É esse racismo que existe nesse time. Até porque só interessa o tal do prato cheio. O prato cheio pra eles é se eu tivesse feito alguma coisa errada. Aí você pode ter certeza que eu estaria na primeira página. Eu lembro que no outro mandato, assim que começou o ano político, fizeram uma matéria falando da questão da Matilde Alves (primeira ministra da Promoção da Igualdade Racial do governo Lula), negócio do cartão corporativo, uma matéria que botaram o Edson Santos. E falaram do Orlando Silva, por causa da tapioca. Três negros, cara, no início de um ano político, é muita coincidência, né? Que é que há? Não dá. A gente, por exemplo, às vezes vai em festas. Você pode abrir a Mônica Bergamo, não tem foto da gente, não tem. Eles botam todo mundo lá, a gente não tá. É claro que o fato de eu ser uma mulher negra que não tenho essa formação que eles exigem pra que você esteja dentro da Assembleia e o fato de eu fazer músicas contra as coisas que eles acham que são legais e eu discordo fazem com que eu não seja interessante pra estar ali naquele espaço. Uma pessoa que frontalmente tá em desacordo com essa turma é persona non grata, isso a gente sabe.

PAS: Você sentia isso de fato, de jornais grandes como O Globo, Folha e Estado de São Paulo não se interessarem pela sua obra?

LB: O Estado até já fez alguma coisa minha. O Globo, pelo fato até de eu ser do Rio, quando fui fazer o show Eu e o Samba no Canecão, fez uma matéria de meia página comigo, dizendo que eu nunca tinha cantado no Canecão. O jornalista dizia que Leci Brandão, estranhamente, nunca teve as benesses da grande mídia, talvez pelo fato de ela ser uma cantora que questiona e discute muito, não tem medo de falar as coisas.

PAS: É um pacote de motivos, né?

LB: É. A própria Carla (Carneiro do Nascimento, sua assessora) me segura um pouco. Porque tem coisa que eu fico desesperada, já quero ir pra tribuna pra descer o pau.

PAS: Você gosta da tribuna?

LB: Não é gostar. Eu gosto de ir pra tribuna quando tem um B.O. (risos). Aí eu adoro. Aí eu gosto, gosto. Ato de racismo, ato de preconceito, negócio da família. Teve um aí que falou dos pancadões. Tudo bem, o pancadão atrapalha o povo, eu também concordo, mas chamar funkeiro de criminoso eu não vou admitir. Estou com um projeto do funk como movimento cultural e musical de São Paulo. Hip-hop também a gente fez. Samba como patrimônio imaterial de São Paulo também é nosso. A questão do nome social dos gays [ela quer dizer de travestis e transexuais].

PAS: A partir de quando passei a prestar atenção na sua obra, muito atrasado, e constatei que ela é genial, maravilhosa, uma coisa que se tornou especialmente marcante pra mim é que os rappers te adoram, os pagodeiros te adoram, os funkeiros te adoram. Isso num universo que é o seu, do samba carioca, que muitas vezes foi muito purista e agia como se o samba fosse o único gênero musical aceitável. Você nunca teve isso, você canta música da Bahia, do Norte, aceita o funk, o rap…

LB: Tanto é que meu primeiro disco de ouro, em 1988, foi por causa da música “Olodum Força Divina”. O produtor, Alceu Maia, implicou muito com essa música, “o que que é Olodum?”. Cara, é um bloco que tem na Bahia, ganhei de presente um LP do Olodum e gostei muito da batida. Conheci o Olodum sem harmonia nem nada, era só a voz do cantor e os tambores. O “Olodum Força Divina” me foi mostrado numa mesa de quarto do Hotel Jandaia, e o Olodum veio pra São Paulo fazer um programa na TV Cultura. Tô lá no café da manhã, entram os meninos todos de sandália havaiana, shortinho curto, aquela coisa de baiano mesmo, solto, à vontade. “É Leci? Leci Brandão, é? Olha, a gente adora ‘Papai Vadiou’, lá na Bahia toca muito sua música, ‘Isso É Fundo de Quintal’.

Aí falei a eles que devo muito à Bahia, porque estava sem gravar havia cinco anos e foi uma senhora lá do Curuzu, de Salvador, que mora no Rio de Janeiro e tem uma entidade chamada Caboclo Rei das Ervas, esse caboclo falou pra mim que eu ia voltar a gravar. Só que ele falou que eu ainda ia sair do Brasil antes disso acontecer, aí eu duvidei do caboclo. E recebi um convite, e fui cantar em Luanda, fui pra África. Cheguei lá, bati cabeça na terra, agradecendo, pedindo agô pra Seu Rei das Ervas. Muito bem, conheci Seu Rei no início de 1984, em novembro de 1984 eu estava descendo em Angola, em julho de 1985 eu estava assinando contrato e em 15 de outrubro de 1985 eu lancei o LP Leci Brandão. Contei pra eles a história da Bahia, os caras no dia seguinte… Sempre andei com um gravadorzinho na bolsa.

PAS: Até hoje?

LB: Até hoje eu ando com esse gravadorzinho cassete.

PAS: Mas você ainda encontra fitas cassete?

LB: Lá no Rio de Janeiro a gente batalha e encontra. Onde encontro eu compro. Aí eles quiseram me mostrar uma música lá no quarto deles, o cara começou “supremo maior da divindade da natureza/ o que vai, vai”. Gravei. Falei pro produtor: “Alceu, eu não sei as 11 que vou gravar, mas a 12a eu tenho. Vou gravar uma música dos rapazes lá da Bahia, o Tonho Matéria e o Betão”. Betão até já morreu, negócio de droga, negócio complicado. “Mas como é que vai gravar isso, essas letras que ninguém entende?”. Essa música me trouxe uma coisa muito boa, eu vou gravar. (O telefone celular toca. Ela atende.) Cara, propaganda da Nextel a essa hora é brincadeira (risos). Então, que eu fiz? Chamei uma rapaziada que já tinha gravado comigo antes, chamei o Gordinho do Surdo, o Paulinho da Aba, Téo Lima, que é um cara da Bahia, um excelente baterista. Sempre toquei tantã, mostrei pra eles no tantã e a gente começou a fazer a base. No dia que a gente começou a fazer, quando o pessoal escutou, “o que vai, vai”, desceu o estúdio todo, “o que está acontecendo aqui neste estúdio?”. Ficou todo mundo já… E o que fez o Alceu, malandro? Ligou já pra Carlinhos Brown, que foi lá pra botar a tal da caixa. Porque o grande lance da música é (imita o som da caixa).

PAS: Brown nem era conhecido ainda.

LB: Não era essa coisa que é hoje, né? E Brown botou. E olha só como é que orixá, quando põe a mão nas coisas, ele põe. Esse disco era um disco de Ogum, e Seu Rei falou que eu era filha de Ogum.

PAS: Cada disco tem um orixá?

LB: A partir de 1985, sim. Todos os meus trabalhos têm uma saudação de um orixá. O primeiro foi Seu Rei das Ervas. Depois foi Iansã, que Seu Rei falou pra mim que é quem cuida da minha parte musical. E o terceiro foi de Ogum, que é o dono de minha cabeça mesmo. E Ogum é da luta, das guerras, né? Aí peguei uma fita de rolo no estúdio e mandei pra um amigo meu da Bahia. “Pô, mande pra gente.” Os caras começaram a tocar essa música em Salvador, e tocou em Ilhéus também. Xuxa estava vindo com Marlene Mattos e passaram em Ilhéus. Quando chegaram, estava tocando na birosca lá a música, “que vai, vai”. Marlene chegou ao Rio, ligou na Copacabana. Os caras estavam terminando ainda, “manda essa música pra cá”. Naquele tempo a Xuxa tinha uma navezinha no programa dela (risos). Cara, todo dia a Xuxa entrava na nave, “que vai, vai, que vai, vai”. Entrava na nave, saía da nave, as crianças incorporaram a música. Teve um final de semana que eu estava no programa da Angélica, Milk Shake, no da Xuxa e no da Mara Maravilha no SBT, com “Olodum Força Divina”.

Aí, em janeiro de 1989, José Sarney ia dar uma notícia, não sei qual foi a grande notícia que o Sarney deu. Era coisa financeira, relacionada a economia, e o Brasil todo ia parar porque ia ser dada essa notícia no domingo no Fantástico. Naquele tempo a gente lançava música no Fantástico. Viajei com a Globo na quinta-feira, no domingo Olodum fazia ensaio no Pelourinho. Grua, holofote pra tudo quanto é lado, eu gravando com o Olodum. Fui na Lagoa do Abaeté, no Farol, Mercado Modelo, peguei os principais pontos da Bahia e gravei tudo lá. Quando chegou no domingo seguinte, quando o Sarney ia dar essa notícia, a música entrou no Fantástico. Cara, na segunda-feira eu tava tocando no Brasil inteiro. Porque todo mundo gostou, a música era diferente. Quem gravou essa batida da Bahia, do Olodum, da Banda Mel, fomos nós, que éramos do samba. Só que ninguém assumiu a música, era lado A e lado B, LP, o produtor botou na faixa 2 do lado B, escondeu a música. Só que não adiantou, ela saiu, aí ganhei disco de ouro.

Acabou que o Araketu viajou pro Rio pra fazer uma apresentação na Sala Funarte, eu fui assistir e o pessoal me deu um LP, “você gravou o Olodum, tem que gravar o Araketu. Gravei “ketu, ketu, falararará” [Deus do Fogo da Justiça, 1989], outra pancada, pum, estourei de novo. Depois, no LP Cidadã Brasileira, botei o nome todo, Leci Brandão da Silva – Cidadã Brasileira, tem música do sul, de Mato Grosso do Sul, Bahia de novo, “Maravilha”. Então os compositores de outros estados viram, “é carioca, mas tá dando chance pra gente”. Nessa história toda, quando chegou no disco de 1991, Comprometida, gravei Parintins – sem ter ido a Parintins, mas fui a Manaus e me deram uma fitinha cassete –, Alagoas – estava todo mundo de costas pra Alagoas por causa do Fernando Collor, gravei “Minha Sereia”, do Carlos Moura  –, Maranhão – “Boi de Lágrimas”, um bumba-meu-boi maravilhoso, que até Alcione regravou recentemente – e gravei a bahia de novo com “Revolta Olodum”, “eta, eta, eta taratatá”, que foi outro estouro. Essa coisa de eu pegar o Brasil e trazer pro meu repertório acabou tendo um reconhecimento muito grande dos outros estados. Eu sou talvez a única sambista que vai aos estados, canto meus sambas e, na hora que canto a música da terra o povo desaba.

PAS: São Paulo idem, via rap e o pagode paulista. Voltando àquela pergunta, eles te adoram, qual é sua relação com o rap, o pagode?

LB: A minha relação com o pagode paulista, principalmente os pagodes do Sensação, Art Popular, Sem Compromisso, É Demais, e Os Morenos e Revelação, que são do Rio, foi porque tive essa fase maravilhosa. Em 1991 saio da Copacabana e vim pra RGE, que me fez sumir do mercado, foram três anos em que eu estava lançando trabalhos, mas ninguém sabia. Quando foi em 1997, vim fazer parte de uma festa dos melhores do ano. Tinha quase 30 mil pessoas, socado de gente. Quando entrei, cantei com o Sem Compromisso uma música chamada “Felicidade Escondida”, “quero te amar, quero te amar”. Essa música andou, estourou, pô, a Leci Brandão está viva, ela não sumiu. Depois gravei com Sensação, “Resto de uma Saudade”, pancada. Só aqui, eu gravando com um monte de grupos.

Em 1998, a Trama, do filho da Elis Regina, o João Marcello Bôscoli, assina contrato comigo. Aí gravo um samba chamado “Auto-Estima”, que tocou muito aqui em São Paulo, e os compositores começaram a mandar música pra mim. Em 1999 (na verdade, 2001), fizeram uma coletânea de todos esses grupos, Leci e Convidados, que tem Jair Rodrigues, Reinaldo, Jovelina, Almir Guineto, Péricles do Exaltasamba, Marquinhos Sensação, Os Morenos, Demônios da Garoa. É um disco maravilhoso. Foi uma vendagem muito boa. Aí fui gravar, em 2000, o primeiro CD ao vivo, no Sesc Pompeia. Foi quando estourei com “Valeu”, do Leandro Lehart, que gravei de um outro jeito, dei uma releitura mais lenta, outro estouro de vendas, de tudo.

PAS: É nesse disco que tem o Mano Brown?

LB: O que tem Mano Brown é o DVD. São Paulo me deu oportunidade de gravar meu primeiro DVD, lá no Consulado Music, em Santana. Tem Mano Brown, Alcione, Jorge Aragão, Péricles, Reinaldo, Marquinhos Sensação, Marcelinho Sem Compromisso, Paula Lima, Zeca do Trambone. Foi maravilha, 2003.

PAS – “Dona Maria”, com Rappin’ Hood, saiu num disco dele [na verdade, do grupo Posse Mente Zulu].

LB – Saiu, “Dona Maria” tem um pedaço do “Deixa, Deixa”, ele fez uma coisa maravilhosa. E o Rappin’ Hood me convidou pra gravar “Sou Negrão” com ele, foi maravilhoso. Quando chegou no CD A Filha de Dona Lecy, de 2001, chamei ele pra gravar, novamente no Sesc Pompeia, “Sou Negrão” ao vivo, maravilha. Rappin’ Hood foi a primeira pessoa que me convidou pra gravar um clipe. “Sou Negrão” tem um clipe, eu nunca tinha gravado com ninguém. Então esses meninos dos grupos de pagode e rap, devo muito a eles, porque me deram uma retomada. Eu tenho várias retomadas de carreira, saio, daqui a pouco volto. E essa turma aí, hoje, quando faço show, canto quatro ou cinco músicas desses grupos. E o povo de São Paulo canta tudo.

PAS: Mas o que tem na Leci Brandão pra esses caras todos fazerem isso?

Ana_&_Jorge_Ao_Vivo_CD1LB: Eles falam: “A senhora é muito humilde, a senhora recebe a gente, grava com a gente sem fazer nenhuma exigência, e canta legal a música da gente”. Que é um samba mais moderno, né?, mas eu consigo botar um jeitinho do jeito que eles esperam. E isso fez com que eu fosse uma cantora de samba da velha guarda, mas que canta como uma moderna legal. Aí vem minha querida Mariana Aydar e grava “Zé do Caroço” de uma outra forma. Mas antes dela veio Seu Jorge, que gravou num CD com Ana Carolina, e ainda faz um discurso maravilhoso. Não podia nunca imaginar que Seu Jorge ia teatralizar o “Zé do Caroço”. É uma coisa fantástica. Aí vem o Revelação e grava mais rápido, e foi o estouro do verão de 2001 ou 2002. Devo isso ao Revelação.

PAS: “Zé do Caroço” então reestourou em 2002, por aí?

LB: É, depois do segundo milênio que eu te falo, acontece tudo com “Zé do Caroço”, Seu Jorge, Mariana Aydar, aí ele vai pro Tropa de Elite 2.

PAS: Zé do Caroço é você, não é? Hoje com mandato e tudo.

LB: (Rindo.) E eu conheci o Zé do Caroço, ele foi num show nosso. A história é real. Ele tinha um serviço de alto-falante na rádio comunitária. Essa música foi feita em 1978, cara, e a PolyGram recusou, e gravei no meu primeiro LP da Copacabana, em 1985. Aí andou, andou, andou, Seu Jorge regravou, Mariana Aydar me chamou pra gravar com ela. É hoje a minha música mais gravada e mais executada.

Carla Carneiro do Nascimento: No ano passado, a gente fez um levantamento de quantas versões de “Zé do Caroço” existiam pela rede, YouTube. Achamos mais de 300 versões, até fizemos uma compilação, tem piano.

PAS: Ela tem uma mensagem muito poderosa, que foi descoberta num acaso?

LB: Um amigo meu falou que tinha um problema danado na rua onde mora, em Vila Isabel, porque o Morro do Pau da Bandeira, colado no Morro do Macaco, de onde sai a escola Vila Isabel, e tinha uma mulher que morava num prédio e mandou chamar a polícia pra mandar desligar o seviço de alto-falante por volta das 20h. Naquele tempo a novela começava às 20h, ela não tava conseguindo assistir em paz, e era mulher de um cara do Exército, de alta patente. A história é essa aí. É a coisa mais curiosa, eu comecei a dirigir em 1978, estava dirigindo, indo do Leme pra Tijuca. Tinha um Fiat 147 vermelhinho, me lembro que fiz a música dentro do carro. Fiquei cantarolando pra não perder a melodia, porque não toco nenhum instrumento de harmonia. Quando cheguei em casa peguei aquele Panasonic grandão, tijolão, e botei pra não esquecer a música. As pessoas do lado me olhavam no carro e pensavam que eu estava falando sozinha. “No serviço de alto-falante/ no Morro do Pau da Bandeira”, veio vindo a melodia. Nunca poderia imaginar que essa música, não sei quantos anos depois, ia fazer o que fez na minha vida. Coisa de orixás, só posso entender por isso.

PAS: O que você sente quando Seu Jorge transforma “distrai” em “destrói [em “enquanto a televisão brasileira distrai toda gente com sua novela”].

LB: Eu chorei muito na primeira vez que ouvi a gravação. É muito mais forte, né?

PAS: Não sei se você já pensou nisso, mas a volta do “Zé do Caroço” coincide com a chegada de Lula ao poder, que também foi a chegada de um novo líder no Morro do Pau da Bandeira.

LB: É, eu nunca parei pra pensar nisso, mas realmente… A única coisa que eu sei é que não posso ir a lugar nenhum sem cantar “Zé do Caroço”, senão o povo quebra tudo.

PAS: A outra coisa é que Lula é Silva, você é Silva. Este segundo milênio trouxe os Silva ao poder (risos)?

LB: É uma coisa curiosa, né? Luiz Inácio Lula da Silva, um cara que gosta muito de mim. Muito mesmo.

PAS: Queria falar um pouco com você sobre a conjuntura política atual. Por exemplo, por que tem tanta gente indo pra sacada do edifício bater panela e pra rua gritar contra conquistas do quilombo da diversidade?

LB: Mas essa tanta gente é a gente da classe média alta, né? Que não aceita, por exemplo, que os aeroportos estejam cheios de pobres. Que as classes C e D, que eles nunca suportaram e sempre subestimaram, estejam com um carrinho zero nacional. Que as pessoas tenham o direito de entrar numa universidade. Que o povo tenha a condição de ter em casa uma TV de plasma, uma geladeira nova, um fogão novo, condição de modificar a casa, botar um outro tipo de móvel, poder usar uma roupinha mais transada. Isso tudo incomoda, porque às vezes olham e as pessoas estão vestidas igual a eles. Pode até ser comprado no pirata, no Brás, mas as pessoas estão felizes, têm esse direito, têm agora um carrinho pra ir à praia também. Sempre viram vinho na novela, hoje elas podem comprar um vinhozinho nacional e tomar, em taça de vinho, porque dá pra comprar uma taça parecida com aquela que é de cristal, mas é a mesma coisa, faz o mesmo efeito. A coisa das cotas, dos negros estarem na universidade. Você vê, hoje, as meninas negras em destaque, podendo ser protagonistas de uma série de coisas. O pessoal da favela tá fazendo vídeo, teatro, se desenvolvendo. Essas coisas sempre incomodam.

Agora, a coisa da panela eu acho engraçada, porque essa turma não vai pro fogão fazer nada. Sempre digo que eles têm que ligar, porque hoje a empregada tem celular, antes não tinha, “onde fica guardada a panela?”. Nem isso eles sabem. Põe aquela panela, guarda separada pra poder bater na varanda da sua cobertura. Só vejo esse negócio de panelaço na classe média alta. Não vejo panelaço na periferia, na zona leste, em lugar nenhum onde mora o povo. Não vejo isso, não. Vejo isso com essa gente que não aceita a tentativa da igualdade no país. Ainda não tá igual, mas tá havendo todo um processo, uma política pública, uma vontade de verdade de fazer com que as pessoas tenham oportunidade, acesso, inclusão. Isso incomoda um monte de gente. Eu fico vendo a cara dos chiques dentro do avião quando entra uma família mais simplesinha procurando o lugar. Fazem cara feia. Não gostam dessa mistura.

PAS: Você presta essa atenção?

LB: Eu presto atenção a tudo, até ao jeito que a comissária de bordo oferece água ou seja o que for. É diferente. Incomoda, incomoda mesmo. Incomoda uma família num restaurante desses aí, um pouco melhor. Ver lá aquele bando de negro sentado, “o que você está fazendo aqui no meu espaço?”. Mas o espaço é de todos. O espaço é nosso. É da cidadania brasileira.

PAS: Essa reação mais forte, se for contar a partir do Lula, demorou 12 anos. Por que agora? Dilma foi reeleita e exatamente em seguida a coisa se tornou mais explícita.

LB: É claro que tem um componente que é muito pesado, que é a questão do desvio. Eles nunca tiveram oportunidade de vir pra cima, porque tava tudo correndo legal, todo mundo com sua casa, com seus filhos estudando, Enem, luz, compra, comida, carrinhos cheios. Veio a crise mundial, a gente não pode descartar esse componente. A crise mundial pegou o Brasil. Aí junta com essa roubalheira toda. Não dá pra explicar o inexplicável. Roubou, tem que ir pra cima. Acho que deveriam bater panela, sim, mas contra esse povo aí, que estava no alto patamar da Petrobras, do Congresso. Tem um monte de político aí que desviou. Agora a Dilma em si, a Dilma não fez parte disso aí, não roubou ninguém. Pode ser que aconteça alguma coisa pra eu…, eu vou ficar muito mal como cidadã, mas eu não acredito de a Dilma estar metida nessa falcatrua toda.

PAS: Você acha que o que causou o acirramento foram as denúncias de corrupção?

LB: É claro. Foi muita coisa, né? Desde a questão do mensalão.

PAS: 2005.

LB: O mensalão acabou respingando num monte de gente que estava dentro do processo. Infelizmente, a gente não contava que fosse acontecer essa catástrofe. Você vê que agora todos os benefícios pras classes sociais menos favorecidas foram atingidos também. Tá mexendo com tudo.

PAS: Você está otimista ou pessimista?

LB: Eu sempre fui uma mulher de esperança. Tenho esperança que isso vai passar. Eu tenho que ter esperança, tenho que confiar muito em Deus, porque acho que o povo não pode regredir. Não pode ter regressão nas conquistas que o povo teve.

PAS: Que existe gente a fim que tenha, existe.

LB: Muito. Mas eu acredito nessa recuperação. Essas empreiteiras têm que pagar mesmo, têm que pagar o que retiraram, a propina. E tem que haver uma forma de salvar a educação do Brasil, porque a falta da educação, o desprestígio com os professores – ninguém mais quer ser professor – acaba fazendo com que não se tenha formação de dignidade ética. Tá faltando isso. Todo mundo quer tirar dinheiro público, desviar. O povo está metendo a mão nas Assembleias Legislativas. Essa coisa de você pegar o que não é seu é muito ruim, pra qualquer pessoa. Mas quando você está no serviço público e foi votada pelo povo, o povo confiou em você pra representá-lo, aí fica complicado.

PAS: Você citou os professores, o governo estadual de Geraldo Alckmin não negocia com os professores em greve [em julho, a greve ainda estava em vigor].

LB: Difícil.

PAS: Como é se relacionar com o governo Alckmin, na condição de deputada?

LB: A nossa relação é cordial, respeitosa. Ele já me recebeu três vezes lá no palácio. Sei que ele torceu pra que eu fosse reeleita, gosta muito do meu mandato. Quando ocupo a tribuna pra falar qualquer coisa contra o governo, eu falo, mas sem xingar o governador. Não precisa isso, não precisa chamar o governador de palavrão. Aliás, não gosto nem em falar de sigla partidária. Eu falo das pessoas, dos projetos. Se a política brasileira não ligasse tanto pra questão do partido e ligasse pros projetos e todo mundo aprovasse o projeto bom do outro nós estávamos muito mais desenvolvidos. O negócio é que todo mundo quer ter interesse com seu umbigo, quer cuidar da sua conveniência e não quer cuidar do povo. Essa é a questão. Vamos cuidar das questões do povo, vai dar tudo certo, seja o partido que for.

PAS: Minha impressão de cidadão, eleitor, é que o governo Alckmin não dialoga. Você está dizendo que não é bem assim? É possível dialogar com ele?

LB: Não, eu, as vezes que pedi audiência com ele nunca me foi negado, não. Eu procuro, bato a porta dos secretários estaduais. Encaminho as minhas coisas dessa forma, porque sou do legislativo, não sou do executivo. Vou pro secretário de Educação, Cultura, Turismo, Habitação, Saúde, Segurança Pública. Eu vou pros secretários, nunca me negaram audiência. Vou lá pedir, peço esperando duas respostas. Ou não ou sim, mas eu quero uma resposta.

PAS: Agora é o quinto ano como deputada. Quais são suas maiores realizações nesse período? O que vem pela frente?

LB: As maiores realizações são a gente ter conseguido ajudar a fortalecer muitas entidades com trabalhos voltados pras comunidades, pra educação, cultura. Ter brigado muito pelo empoderamento da mulher, contra a violência contra a mulher, contra a criança, pedofilia. Ter batido muito na questão da intolerância religiosa. Batalhamos também contra a violência contra a juventude, a gente sabe que os jovens negros correm riscos. O fato de ter batalhado muito pelo respeito aos homossexuais, bi, trans, tanta coisa que LGBT engloba, tentando mostrar pra sociedade que são cidadãos que votam, pagam impostos, como todos, e merecem ser respeitados. Essa questão da família, cada um faz a família que quer. O importante é as pessoas serem felizes, você não pode mandar no coração de ninguém. Cada um tem a sua liberdade.

PAS: Você tem que conviver com uns deputados osso-duro-de-roer quanto a isso tudo…

LB: Bastante. Mas  me tratam muito bem, com muita cordialidade. Essas conquistas, ainda que sejam até pequenas, a gente conseguiu fazer alguma coisa por alguém, e isso me deixa muito grata a Deus, porque sei que sou um instrumento. Eu estou aqui, meu anjo, cumprindo missão. Não acho nem que é mandato, é missão. Eu vim pra Terra pra cumprir missão. Porque o que a gente batalha, briga… Uma vez um amigo me disse: “Mas Leci, você quer ser abonada pela mídia. Você nasceu preta, mulher, pobre, não sei quê, e ainda quer pegar só problema pra defender. O que você queria? (ri) Pegasse uma coisa mais leve”. Não, não é bem assim, né?

PAS: Como o racismo afetou a vida da Leci Brandão, desde pequena?

LB; Ah, quando eu fiz um concurso de redação na Escola Equador. Eu era filha da servente, e quando estava no quinto ano a minha redação era pra tirar primeiro lugar, foi a melhor redação. Mas aí, na hora lá, “não, a filha da servente, não”, aí me botaram pra segundo lugar. Isso foi contado pelas professoras para minha mãe, “sua filha só está recebendo a medalha de segundo lugar porque ela é sua filha, porque a redação dela foi a melhor”. Quando entrei no Colégio Pedro II eu era a única negra da sala, e escutava as pessoas falarem baixinho “tiziu”, “tiziu”. Eu não sabia o que era tiziu. Um dia o inspertor falou: “Tiziu é um passarinho todo preto, é por isso que eles ficam falando isso. Mas eu vou acabar com isso”. Depois de muitos anos acabei fazendo uma música chamada “Apelido: Tiziu” (1990).

Outra foi em 1980, na semana em que eu ia pra final do festival MPB 80, no Maracanãzinho. Fui levar minha mãe num prédio pra visitar uma amiga, e o porteiro mandou que ela entrasse pela entrada de serviço. Aí quebrei o tempo lá. O cara veio ofender a gente, eu digo “não, com a minha mãe, não”. Teve alguns atritos físicos, todo mundo parou na delegacia, eu saí em todos os jornais, na semana do festival. Mas aí não deixei que o porteiro fosse preso, falei que tinham que chamar era o síndico, porque ele tava cumprindo ordens. Isso deu muita repercussão em 1980.

PAS: De lá pra cá mudou? Melhorou?

LB: Acabou essa coisa de entrada em serviço, né?

PAS: Mas digo de modo geral, o racismo como um todo.

LB: No Rio o pessoal é mais misturado, né? O Rio é bem solto, todo mundo tá junto na praia, em bar, no samba. Lá a mistura é bem natural.

PAS: Aqui você acha que não?

LB: Não, São Paulo é diferente. São Paulo tem uma separação. Não é separaçãoo, você vê, você sabe onde tá o negro e onde tá o branco aqui. Você sabve. Você entra nos lugares, você vê.

PAS: Nesse sentido é mais difícil viver aqui?

LB: Nesse sentido, porque de vez em quando confundem. O cara é cliente, tá comprando, o segurança vai, manda o cara sair. Quantos e quantos casos tiveram aqui em São Paulo, principalmente em shopping, na Oscar Freire. As pessoas olham pra gente com uma atitude meio… meio, não, bastante hostil. É que não posso dar conta porque sou artista, conhecida. O cara vem até “ô, Leci, você tá aqui, prazer, fique à vontade”. Mas eu sei o que acontece com os meus irmãos.

PAS: Foi por isso que você ficou feliz na festa dos Jornalistas Livres?

LB: Ah, demais.

PAS: Lá estava bem misturado, mais pra Rio de Janeiro que pra São Paulo.

LB: Foi muito legal. Tava muito bom, alegria total, as pessoas tavam muito alegres. A festa tava colorida, boa de som, de canto, de fala, de performance, boa de tudo. Pessoal tomando cervejinha gelada, comendo carne louca, cachorro-quente, uma delícia.

PAS: Aí passam uns dias, a gente está lá tranquilo, chega uma letra de música enviada pela dona Leci Brandão, por intermédio da Carla, uma letra para os Jornalistas Livres. Que honra! Por que essa futura música?

LB: Eu acho que foi resultante da minha emoção. Depois você me consegue a letra, Carla? Me lembro que é o dia D, tudo partiu do dia D. No dia D, na hora H, sou da classe C, você é da classe A. O resto da letra eu não lembro, só fui terminando com amém. Tem que haver liberdade. É uma questão de liberdade, de justiça social, poder botar todo mundo na comunicação, ter um olhar amplo. Você tem que olhar tudo, tem que olhar todos e tudo que todos estão fazendo. Não adianta olhar só pra um lado, valorizar só um lado, porque tem mais dinheiro. Você tem que olhar o outro que não tem dinheiro, mas tem criatividade, talento, faz coisas boas, bonitas, válidas, contribui pra sabedoria do povo, pro desenvolvimento do país, pra cidadania e pra uma coisa chamada igualdade. Ele não pode ser descartado, tem que estar in, não pode estar out.

Na hora que você dá chance, por exemplo, pra um grafiteiro botar o trabalho dele na avenida 23 de Maio, pô, a vida dele toda, a arte dele tá lá, na 23. Achei uma sacada muito legal da Prefeitura ter dado espaço pros meninos. Quando você faz uma Virada Cultural, que tenha todos os gêneros, não só estrangeiro, e chama a comunidade do samba pra ter um palco, tudo de bom, por que não? Não é Virada Cultural? O samba é cultura. O rap é cultura. O funk é cultura. Tem que entender que o país é miscigenado, gente. Tem que entender a diversidade. Se não entender a diversidade, a gente não chega a lugar algum. Por isso acho muito difícil ser presidente deste país, e é por isso que eu acredito no projeto dos partidos progressistas, porque Lula entendeu que é importante estar no Amazonas como é importante estar no Rio Grande do Sul. É importante estar no Rio Grande do Norte como é importante estar em Mato Grosso. Nós somos brasileiros, somos todos cidadãos.

A grande sacanagem dessa história toda é fazer um jornal nacional e o cara que senta à mesa, o âncora, tem que falar aquele sotaque que tem que ser do Rio ou de São Paulo. A grande sacanagem do país é essa. A grande sacanagem do Brasil é fazer novela e pegar um cara de Ipanema pra falar igual nordestino. É pegar um cara aqui de São Paulo pra falar com a linguagem da quebrada. Ah, cara, que é isso? Vamos dar oportunidade pra todo mundo. Por isso a importância de vocês. Vocês querem fazer um coletivo. É uma comidaria brasileira que vai ter tudo quanto é tipo de tempero. Mistura tudo e vamos comer. É isso aí que vocês tão fazendo. É a cozinha brasileira, bota tudo na panela. Agora, não me faça uma novela com uma história do Nordeste e fica um povo forçando o sotaque. O povo lá não fala assim, cara.

PAS: Na novela I Love Paraisópolis, não tem negros em Paraisópolis…

LB: Eu nem quero ver, as minhas sobrinhas falaram: “Tia, essa novela é horrível. Não é legal, não é boa, o menino não tá convencendo”.

PAS: São todos brancos, protagonistas e coadjuvantes. Uma Paraisópolis branca.

LB: Então acho que essa coisa do telejornal, ele tinha que ter sempre essa diversidade, um negro e um branco na bancada. Vamos pra produtos de beleza. Você tem que ter um shopping que tenha produtos, as mulheres gostam de andar bonitas, tanto brancas quanto negras. Vai procurar um produto pra cabelo negro num shopping. Não tem. Vai procurar uma roupa que tenha um estilo afro. Não tem. É tudo desse padrão aí. E é também com a pessoa gorda, tem uma loja num universo de 300 lojas tem roupa pra gordinho. É muita discriminação todo o tempo. A mulher brasileira não tem o corpo da europeia. A mulher brasileira come arroz, feijão, batata, inhame, coisas que deixam você rechonchudinha. Não dá pra botar aquela coisa tábua na moda, não dá. Isso é muito ruim, esquecem que, por causa do Lula, as classes C e D hoje compram. Ficar tudo voltado pra essa ponte aérea não dá. É tudo na ponte aérea, cara. Não dá pra suportar mais isso, não.

Salão de beleza tem que ter cota. O que é isso, eu quero ir num salão e ninguém vai me atender? Como é que é? Outro projeto que a gente quer fazer aqui é regularizar a profissão de trançadeira. Elas não são consideradas cabeleireiras, cara! E as meninas estão todas de tranças hoje em dia, minha sobrinha tá com uma trança linda. Essas coisas têm que ser mostradas. Porque tudo bem, bota a Taís Araújo fazendo propaganda da Arezzo, legal, mas o nosso povo não tem condição de estar comprando na Arezzo, é muito caro. Tem outras lojas que são legais, as pessoas estão ali, o negócio da sustentabilidade também. Vamos dar força pra esse pessoal, vamos mostrar esse comércio que tá escondido. O pessoal pode não ter a Kombi pra fazer comida de rua, mas pode ter um quiosquezinho que venda um pastel, um bom bolinho, um acarajé, um caldo de mocotó. Tem um monte de botequinho com comida boa aqui em São Paulo que não tem condição de fazer propaganda na TV.

PAS: 71 anos, Leci?

LB: 71 em setembro, dia 12. Sem plástica, sem nada. Tem mulher que fica assim: “Deixa eu ver onde tá a marquinha, deve estar aqui atrás, puxa o cabelo, quero ver a marquinha”. Não tem.

 

Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004)
  1. Ito Cavalcanti Responder

    PARABENS ,A MATERIA FOI EXCELENTE .
    NOTA 10.

    Ito

    Sacramento, California, U.S.A.. Cavalcanti

  2. Gael Responder

    Leci Brandão, acho ela uma excelente cantora, compositora, uma articuladora/defensora de causas sociais raciais. Sua letra “Zé do caroço”, que passei a conhecer na voz de Seu Jorge, nem sabia que Leci era a compositora, acho uma música excelente de ouvir. Em relação ao comentário das novelas, faço minhas as palavras da Senhora Leci Brandão, “uma paraisópolis branca”!
    Sempre leio nas entrevistas da Leci, essa história dela da redação, isso continua tão comum quanto outrora. Leem a redação, tá na cara que é a melhor, quando descobrem a autoria sendo de um afrobrasileiro, criticam, apedrejam, ficam estupefatos. Pensam: “isso foi escrito pelo negrinho da sala, pelo criolinho da sala, não acredito” (os professores pensam, assim).

  3. Carina Gomes Franco Responder

    Sensacional Leci Brandão!!!

  4. Moises Carvalho Pereira Responder

    Ótimo desenvolvimento e coerência na matéria que demonstra o poder cultural de Leci Brandão.

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