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O Rock in Rio e a morte da política

Amigo meu disse que o Rock in Rio simboliza a morte da política. Ele não desenvolveu, mas achei a ideia intrigante e resolvi aprofundar. Estive lá no final de semana (o Rock in Rio recomeça nesta quinta-feira, 24/9) e colhi amostras para análise.

Primeiro, devo advertir que não sou um hater por vocação, não falo mal por impulso ou para obter aprovação de amigos em bar ou em fórum da internet. Caguei para as necessidades de socialização pelo sentimento de pertencer a uma turba.

Há séculos descobri que não é a venue, a locação, que determina a subversão. Woody Guthrie transformou feiras agropecuárias rednecks em palanques socialistas. Bob Dylan foi ao coração do conservadorismo, o folk Newport Festival, munido de sua Fender Stratocaster, para fazer a sua “passeata” pela guitarra elétrica. Caetano, Gil e Mutantes fizeram a Revolução tropicalista pela via dos caretérrimos festivais da canção.

É um curioso paradoxo: o mesmo Rock in Rio que colocou na sexta-feira passada Zélia Duncan e Mart’nália fazendo micagens de maluquetes no palco, pisando duro na corridinha, “imitando” Cássia Eller, também abrigou a própria Cássia com seu jeito de olhar de cima, quase com desprezo, cuspindo e mostrando os peitos desafiadoramente. Cássia era o descontrole, era a vida fora dos trilhos, não tinha nada a ver com simulação.

O mesmo festival que tieta celebridades como Cláudia Leitte também coloca Tom Zé tocando para 100 mil metaleiros no meio da tarde escaldante (metaleiros que o estranharam a princípio, mas depois o celebraram). Foi onde eu conheci Amadou & Mariam e vi Bruce Springsteen cantar “Sociedade Alternativa”.

Capela foi montada para realizar casamentos dos casais roqueiros - Foto Magalhães - I Hate Flash

Capela foi montada para realizar casamentos dos casais roqueiros – Foto Magalhães – I Hate Flash

É claro que há no Rock in Rio o banquete de signos, o bombardeio signíco do mundo comercial. Ele me incomoda, como a todos vocês, é opressivo muitas vezes. Embora deva confessar que, dessa vez, eu não achei incômodo o Playcenter do Rock in Rio. Eu inclusive achei divertidos os casamentos exibicionistas numa capela estilo Las Vegas – assisti a dois deles, tinham senso de humor e alegria.

Mas, quando procurei pela política, tava difícil. Evandro Mesquita, da Blitz, quase me surpreendeu – é difícil achar um artista com menos teor de política no sangue, mas ele veio com um discurso do tipo “quando a gente puder voltar a sonhar neste país…”, e eu imaginei que viesse algo dali. Mas não saiu mais que isso.

Foi de onde menos eu esperava que veio a política com P maiúsculo. Confesso que não acreditei quando os Titãs, em vez de “Sonífera Ilha” ou “É Preciso Saber Viver”, escolheram “Bichos Escrotos” e “Polícia” para fazer o seu pot-pourri de anos 1980. Seria mera coincidência, não fossem os statements políticos de Sérgio Britto (“Vocês também são explorados. Vocês também são explorados. Aqui!”) e de Paulo Miklos (“Porque aqui no Rock in Rio só bicho escroto é que vai ter”). Estava ali a maior intervenção política do festival, mas o problema foi a ressonância daquilo: lá embaixo, como aqui no jornalismo, ninguém captou.

Talvez viesse daí o decreto de morte da política do meu amigo. O problema não está na legitimidade do artista ou no tamanho de sua declaração pública. O problema está no público, na incapacidade do espectador de reconhecer as mensagens. Predomina uma consciência sem sentido histórico, sem conhecimento do que veio antes, que não sabe o que o Brasil viveu, o que atravessou e muito menos o que o mundo vive. Que canta bem os refrões em inglês, mas não sabe escrever nem expressar quase nada em português.

Eduardo Cunha foi vaiado pessoalmente. Dilma foi vaiada virtualmente. Mas o impacto dessas vaias era nulo: o cidadão como que perdera sua legitimidade pública. É tipo a notícia veiculada nas TVs de mídia do metrô: embalada a vácuo, desprovida de sua organicidade, ela perde sua capacidade mobilizadora. E as caixas de ressonância seguem essa toada: cheguei a ler notícia dizendo que estavam esgotadas as senhas para a tirolesa.

Freddie Mercury, em 1985, fez política ao reger a multidão em “Love of My Life”. A comunhão que aquilo propiciava era única, era uma promessa utópica, um sentimento que conseguia perpassar todas as classes, as idades, os estratos sociais. O Queen que desembarcou este ano era só um tributo, não tinha por que odiá-lo com tanta veemência: desde que Freddie morreu, muitos já foram convidados para cantar no seu vácuo: Tom Chaplin (Keane), Zuccero, Pavarotti, Robbie Williams, Paul Rodgers e o próprio Elton John. Nada disso pretendeu ser o Queen. O novo cara, Adam Lambert, tinha só 9 anos em 1991, quando Mercury morreu, e é um menino desses do American Idol, cuja lição é só décor, impostura – é jeca se sentir lisonjeado que ele tenha gostado de Ney Matogrosso, Ney é um milhão de vezes mais importante.

De Rod Stewart ouviu-se o que se esperava ouvir - Foto David Argentino - I Hate Flash

De Rod Stewart ouviu-se o que se esperava ouvir – Foto David Argentino – I Hate Flash

Quanto aos outros shows, devo dizer o seguinte: Elton John e Rod Stewart fizeram seus espetáculos de cassino com eficiência quase letárgica. Ivete no show dos Paralamas, ocupando o lugar que foi de Djavan em “Uma Brasileira”, foi (na minha opinião) uma heresia. Gojira foi chato. Metallica, sempre profissional. Angra foi maçante até que chamou o Dee Snider ao palco.

A maior das apresentações do festival, no sentido de impacto da palavra, foi a do grupo inglês Royal Blood. Apenas dois caras, um deles fazendo do baixo uma espécie de dublê de guitarra (Mike Kerr), e um baterista que poderia estar numa banda grunge (Ben Tatcher). Um power duo, como White Stripes, Blood Red Shoes, Death From Above 1979, duas criaturas ocupando um palco de 22 metros de altura e 44 metros de largura (você pode argumentar que o Black Keys também faz isso, mas note que tem um baixista e um laptop atrás deles).

Jogando-se no público contra o zelo dos seguranças, tocando com virulência, espancando a bateria e fazendo canções como “Blood Hands” se projetarem mais alto e mais palpáveis do que as megaestruturas do festival, eles preencheram um vácuo de sentido. “O importante é que a música seja a representação do que o artista pensa e no qual acredita”, disse Mike Kerr. O Royal Blood mostrou que a política não só ainda não morreu como não tem jeito de matá-la – mesmo que o comportamento de manada assim o indique.

Roda gigante lembrava  os tempos do Playcenter - Foto David Argentino - I Hate Flash

Roda gigante lembrava os tempos do Playcenter – Foto David Argentino – I Hate Flash

Publicado originalmente em El Pájaro que Come Piedra

  1. Nilson Chavier Responder

    Ora, rock é um produto hoje em dia! Nada mais que um produto! Não há atitude no rock desde… sei lá… “Woodstock”, onde os “produtores” tiveram um enorme prejuízo financeiro em detrimento do orgasmo, digamos, sócio-cultural, que propuseram ao mundo e que se eternizou.lá fora. Cito também o “Festival de Águas Claras” e o primeiro “Hollywood Rock” tupiniquins Hoje em dia, o rock está na mão de “produtores”, elementos que só mexem com dinheiro, que conhecem a fundo as tecnologias e progressões harmônicas Prét-à-Porter de milhares de canções e de como não se “errar” num palco, transformando o que poderia ser expressão artística em material sintético sem diferença de textura e onde nada comove. Sou saudosista! Penso que o melhor do rock nacional já passou, mas.. foi há muito tempo atrás… bem antes dos Barões Vermelhos, Legiões e Paralamas, salvo, claro e óbvio, a Gigante Cassia Eller, realmente um mito e um vácuo na música até hoje não preenchido, nossa Edit Piaf da cena Rock, uma Estrela muito brilhante ao nível da grande Dama Rita Lee dos outros bons tempos e tão boa no palco quando Janis Joplin já foi. Penso que o filé mignon do nosso rock se situa no início da década de 70 com “O Terço”, Som Nosso de Cada Dia, Ave de Veludo, Bixo da Seda, Novos Baianos, Tutti Frutti, Raul Seixas, claro, os Irmãos Batista e Mutantes, Made in Brazil, O Peso, Erasmo Carlos em ótima forma à época…e outras tantas bandas com tamanha carga de atitude, expressão e energia que supria qualquer deficiência técnica por falta de informação ou de equipamentos da época com maestria. Esses caras sim seriam dignos de se propor num festival que se diz de rock. Mas para esse tipo de rock, salvo raríssimas exceções, não há mais seguidores. Se exigiria deles, também, espontaneidade, disposição para chuva e lama, propósitos político-sociais e percepção artística e sensorial diferenciadas, coisas muito além do simples “entertainment”, a alegria fabricada e engarrafada oferecida nos recentes “rock in Rio’s sendo necessário montar até “parquinho de diversões” infantilizando e neutralizando uma reunião de mentes com potencial pensante. Manifestações culturais dependem única e exclusivamente da qualidade do que se é divulgado. Nossa atividade diária consiste em engolir lixo de todos os sabores, então o que devolvemos é também, em grande parte, lixo. Mas, graças a Deus, uma nova onda surge, da espontaneidade que liberta, nos livrando paulatinamente dos veículos mediáticos tradicionais, autênticos rufiões do lixo sonoro, para divulgação mais direta ao público, cara a cara e sem medo de errar, pois quem tem medo de errar, também tem medo de viver e quem não vive, não se expressa. Na cidade de São Paulo, o “Picanha de Chernobill”, um genial grupo de gaúchos adotados pela cidade, perambula divulgando sua arte, levando seu equipamento nas costas e seu talento com firme e convicto propósito de levar a sua música a todas esquinas, música esta de muita qualidade e refino, diga-se! Mesmo sob a estrutura precária de suas apresentações, é capaz de transmitir valores valores artísticos e atitude político-sociais em divulgar uma maneira de encarar ama vida totalmente estranha ao mesmo tempo fascinante para um paulistano robotizado de andar apressado, de olho no celular. O Picanha de Chernobill é um digno representante do rock’n’roll brasileiro, com atitude e pegada idênticas aos gigantes já citados na década de 70, os anos de ouro do rock brasileiro.

  2. Bruna Japiassu de Menezes lima Responder

    inacresitavel a falta de profissionalismo! “Casamento eram realizados de mentir”? Parece que mentira é a matéria, pois se tivesse realmente assistido às cerimônias teria visto que assinamos e recebemos nossa certidão de casamento diretamente das mãos da Dra juíza de paz Maria Vitória!
    Vergonhoso!

    • Eduardo Nunomura Responder

      Bruna, lamentamos pelo erro, já corrigido. Escrevi a legenda sem consultar o repórter, Jotabê Medeiros, que estava no local. Foi um desrespeito para com os casais e testemunhas que ali foram celebrar o amor. Desejamos a você, seu marido e a todos os casais felicidades nesses casamentos abençoados pelo rock’n’roll.

  3. Ito Cavalcanti Responder

    ANALISEM .
    O ROCK IN RIO, E ONDE TEM A MAIOR CONCENTRAÇÃO DE BRASILEIROS IDIOTAS .

    MILHARES E OU MILHÕES DE BABACAS QUE NÃO SABEM NEM SUA PROPRIA LINGUA , O PORTUGUÊS , VÃO APLAUDIR OS CANTORES NORTE-AMERICANOS E OU INGLESES.
    E FAZEM QUE ESTÃO CANTANDO AS MUSICAS EM INGLÊS .
    E UMA PROVA CABAL QUE SÃO PESSOAS IDIOTAS, SUBDESENVOLVIDAS , ENXERIDAS , QUE QUEREM APARECER PARA A IMPRENSA E PARA OS AMIGOS E FAMILIARES.
    MERECEM O TROFEU IDIOTAS DO SECULO XXI ..
    E OS ” CANTORES ” BRASILEIROS … .TÊM UMA ” VOZ BONITA “.
    A “VOZ” DO ” REI” ROBERTO CARLOS , FABRICADO PELA PODEROSA TV GLOBO,A TV DOS BOBOS ,
    ALEM DO CAETANO VELOSO, GILBERTO GIL, CHICO BUARQUE, CLAUDIA LEITE, PAULA FERNANDES , IVETE SANGALO E OUTRAS PORCARIAS.
    A PODEROSA TV GLOBO, A TV DOS BOBOS, MANIPULA MILHÕES DE IDIOTAS.
    EITA POVINHO SUBDESENVOLVIDO , ATE NAS MUSICAS , NOS MUSICOS E NOS ” CANTORES “.
    E NORMAL, E COMUM , E UMA VERGONHA , E UM NOJO, SÃO BRASILEIROS.
    BRASIL… NUNCA MAIS, SALVO SE DEUS DETERMINAR.
    BRASIL , AME-OOU DEIXE-O .
    EU E MINHA FAMILIA PREFERIMOS DEIXA-LO.
    BYE, BYE , BRAZIL.
    GOOD LUCK.
    HUG..

    ITO CAVALCANTI
    CALIFORNIA, U.S.A..

  4. Cid Responder

    “Freddie Mercury, em 1985, fez política ao reger a multidão em “Love of My Life””
    …e eu, na minha ingenuidade, pensei que Freddie fez música. #SouBurro #CartaCapitalMeSalve

  5. Ito Cavalcanti Responder

    O NOME CORRETO E : ROCK RIdiculo.
    EITA POVINHO SUBSDESENVOLVIDOEENXERIDO.
    NÃO SABE NEM SUA PROPRIA LINGUA E VAI E ” CANTA ” EM INGLÊS .
    CULTURA INUTIL.
    SUCESSOS FARAOFAFA .

    Ito Cavalcanti
    California, U.S.A..

  6. Lenir Vicente Responder

    Uma vez Titãs, sempre Titãs.

  7. Artur Marciano Responder

    Ministry é pura política.

  8. Antônio Responder

    Parabéns pelo texto! Temos ainda muito a aprender sobre política. Eu me considero analfabeto no assunto, mas reservo-me o direito de descrever algumas percepções, sempre aberto à crítica e a mudança de posição. Vaiar a presidente em um estádio cuja entrada custou uma fortuna, em detrimento a todo o caos de infraestrutura urbana que vivemos é, para mim, uma iniciativa pouco ou quase nada efetiva. Gastar-se tanto dinheiro para comparecer a um evento – maravilhoso sim, mas bem caro – como o Rock in Rio e participar daquela catarse coletiva é, para mim, o mesmo que virar as costas para o estado de coisas em um país onde os índices de miséria crescem assustadoramente. Clicamos em links para satisfazer curiosidades que não agregam nada. Replicamos notícias falsas sem sequer fazermos uma pesquisa crítica das fontes e, por conseguinte, pessoas são espancadas sem nem saber o porquê. Não esperei nenhuma atitude política no festival. Penso que vivemos a era da superficialidade e “é o que temos para hoje”.

  9. Taciano Responder

    A música hoje é politizada é no RAP, no samba, na periferia. Esse rock de agora é apenas medíocre. E não faz sentido ficar se repetindo nessa lorota comercial, pois esta aí não traz a irreverência, a subversividade do que Rock foi um dia. Isso aí não é Rock and Roll. Isso aí é modinha.

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