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É esta a juventude que quer tomar o poder

O jovem músico relembra sua história: “Meu primeiro instrumento foi o cavaquinho. Sempre quis tocar violão e guitarra. Via James Brown e queria fazer, sempre tive essa influência meio americanizada das coisas. Aí me apresentaram o partido alto, conheci Candeia. Comecei a tocar violão, que me deu conhecimento de harmonia. Depois passei pro teclado, hoje em dia consigo tocar guitarra, teclado, baixo”.

RND02-Nov.-27-11.01Esta é a juventude que quer tomar o poder. Quem fala é Filiph Neo, 26 anos, um dos integrantes do grupo 5 pra 1, que se lança agora com o álbum de estreia GoodFellaz. “Não tenho virtuose em todos os instrumentos, meu instrumento de raiz é o teclado devido à atividade de produção, de estar sampleando. Mas acho interessante falar essas coisas, porque muitas pessoas ainda acham que o rap não é música. A gente está bem preparado, produz, entende cada acorde, sabe o que quer como sonoridade e estética musical.”

De fato, a audição acurada de GoodFellaz mostra que o 5 pra 1 é um quinteto que faz do hip-hop a linguagem propulsora para criar música, com M grande. No disco, como na vida, a música está ao redor, por todos os lados, segundo contam os rapazes.

Filiph é de família de músicos, tem avô profissional de big band, que fez sax tenor para Agnaldo Timóteo e outros artistas populares.

O pai de Renan Samam, 26 anos, era dono de um bar e do lado do bar ficava a escola de samba Primeira Lá de Casa. “Meu primeiro contato com música foi no samba, e através desse rolê conheci dois irmãos que eram netos da senhora que era dona da escola de samba, dona Dirce. Eles gostavam muito de rap, dançavam break, eram os caras que abasteciam a quebrada (Campo Limpo, zona sul de São Paulo) com informação, porque tinham contato com os caras que colavam na estação São Bento.” O currículo de Renan já soma produções para Fernandinho Beat Box e Kamau e parcerias com Emicida.

Dee, 25 anos, também vem do samba: “Minha caminhada vem do samba e de igreja evangélica. Venho de família evangélica. A gente saía do culto, ia pra casa e ficava batucando na lata. Aí veio o primeiro instrumento de samba, tocava repique de mão, ainda não escrevia nem cantava. Minha mãe cantava, fazia backing vocal para Raça Negra, viajou com Negritude Júnior. Meu pai era trombonista, regente de coral”.

Will, 28 anos, o mais velho dos cinco, é filho de KL Jay, um dos quatro Racionais MC’s, e também tem tio DJ: “Meu tio sempre gostou muito de samba, flash-back, disco, dance, house, pagode, samba-rock, partido alto, quase todos os tipos de música. Meu pai sempre me apoiou muito, nunca me forçou a nada”. Will já tocou com Kamau, Marcelo D2 e Rael.

O caçula do grupo é DJ Murillo, apenas 16 anos, cujo pai “é DJ das antigas”, dos bailes dos anos 1980 e 1990, da equipe Kaskata’s. “Eu ficava ouvindo com ele os discos que comprava, e isso despertou o interesse de tocar. Ele começou a me ensinar, teve que ter paciência, foi difícil.”

Fotos Divulgação

Atrás, Filiph Neo, DJ Murillo e Will; à frente, Dee e Renan Samam – fotos de divulgação

O samba e a música brasileira estão impregnados por tudo, embora o arcabouço mais visível de GoodFellaz seja o gangsta rap estadunidense, entre outras vertentes do hip-hop do norte. “Rap é compromisso”, cantam (sim, eles CANTAM) ecoando Sabotage em “É o Rap” – mas é preciso ter ouvidos abertos para escutar o samba e o Brasil nos interstícios de GoodFellaz.

O samba estaria mais escondido que outros dados musicais no disco? “É uma questão de ponto de vista”, explica Filiph. “Toda vez que a gente pensa em samba, pensa em repique, rebolo, cavaco, a parte percussiva. Mas na verdade o samba originou várias outras vertentes, o samba-rock, se fundiu com o jazz e veio a bossa nova. Eu não preciso necessariamente ser tão óbvio, e ao mesmo tempo em alguns momentos posso ser. O rap é muito livre. Produzi Rico Dalasam, ali escancaro algumas coisas, tem o axé, só que essa não é a proposta do 5 pra 1. Mas a música brasileira está presente o tempo todo. ‘Mente em Expansão’ é uma bossa nova, ‘Então Vai’ é Azymuth. A gente tem vivência com rhythm’n’blues, tanto da soul music nacional, Tim Maia, Cassiano, quanto o r’n’b gringo, desde Motown até caras como Drake. Nossa proposta é ressignificar a música brasileira”.

Brasileira ou estrangeira ou ambas, a música de GoodFellaz explode da faixa 5 adiante, numa sequência de musicalidade viajandona, concentrada, cheia de balanço (e/ou groove): “Papo de Milhão” (“favelado quer o mundo e o sistema diz que não”), “Mente em Expansão” (“revolução é de dentro pra fora”, “o seu destino é você quem faz”), “Eu Tô Bem” (“eu só quero paz pra minha quebrada”), “É o Rap”, “O Que Ela Tem” (“ela tava lá dançando Jorge Ben“, “o que ela tem, o que ela tem, tem tanto que me faz bem, me faz refém, como ninguém, ela me tem, ela me tem”).

10403122_610902575673971_3329139502695124641_nEvidentemente movidos pela imensa influência dos Racionais, os 5 pra 1 locomovem a história do rap nacional num processo que, com todo respeito, resolve vários dos dilemas deixados em aberto pelo grupo de Mano BrownEdy RockIce Blue e KL Jay. Nenhuma das críticas mais insistentes que os Racionais enfrentaram no passado veste bem nos 5 pra 1. O rap deles é música – eles cantam, eles compõem, eles produzem. A consciência social convive sem tensão com momentos de descontração e de ternura. Não há em GoodFellaz (nem no EP do ano passado, chamado Kush & Garotas) um flash sequer de desrespeito à mulheres, aos homossexuais, a qualquer minoria irmã.

Há, a propósito, uma mulher na retaguarda dos rapazes. Eliane Dias, companheira de Mano Brown, empresária dos Racionais e diretora-executiva da produtora Boogie Naipe, está ao lado deles emitindo olhares de rigor e suavidade para a rapaziada.

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Eliane descreve a iniciativa de bancar o lançamento de GoodFellaz: “Ouço música o dia inteiro, e vejo muita mesmice, em toda vertente, não só no rap. Se é o funk é a mesmice, se é MPB é mesmice, se é sertanejo é a mesmice. É muita mesmice. Eles vêm com uma proposta diferente, mais adiantada. É ousado? É. É arriscado? É. Mas a gente tem que arriscar. Se eles toparam arriscar, eu é que vou topar mesmo”.

O casal também faz dupla na Boogie Naipe, Eliane no posto executivo, Pedro Paulo no artístico: “A parte executiva, empresarial, eu tenho total autonomia pra fazer, mas a parte artística a gente combinou que Brown tem que dar o seu olhar, a sua opinião. Ele deu o OK, tudo bem”.

A juventude quer tomar o poder, e assim também as mulheres – todo mundo quer tomar o poder, tem poder para todo mundo. Eliane brinca com a procura que também faz, de um grupo de meninas ou de uma rapper menina: “O Brown tinha aprovado a Flora Matos, mas eu estava começando na produção e ela não quis. Eu procuro a menina ainda, já apresentei quatro meninas pro Brown. É um saco ter que ter esse aval, vou pegar a minha independência do Brown. Fica me segurando, tenho um monte de coisa que posso fazer com os artistas, e ele é truncadão. Qualquer dia desse falo: ó, acabou, alforria total, 100%, escravidão tá acabando”.

Eliane graceja ao falar de independência e escravidão e alforria, bem consciente de que está lançando GoodFellaz na Semana da Consciência Negra: “Eu penso nisso 24 horas, não consigo nem dormir, de tanto que penso”. Prima-irmã da consciência, a palavra liberdade e seus derivados perpassam também as falas dos cinco rapazes, com frequência mais que simbólica: “Não tem bloqueio quando a sua mente já é livre” (Will), “o rap é muito livre” (Filiph), “eu e meu pai temos uma relação muito livre” (Will), “a gente é livre, mano, a gente não é preso a nada” (Renan), “a gente é livre pra poder voar” (Will).

Eliane: “Escravidão tá acabando”.

Correlata à necessidade de liberdade é a autoestima, que também frequenta o tempo todo o discurso e as músicas dos 5 pra 1. Trago o tema à tona, e os olhos sedentos por liberdade brilham de autoestima. Os garotos transbordam.

Renan: “Tem que ter autoestima, tem que levantar a cabeça e fazer as coisas andarem. Ninguém é bravão e revolucionário todo dia. A gente quer sorrir também, viver bem, tirar uma onda, estar com a nossa família, ter autoestima. É o que faz a gente ficar em paz, levar essa mensagem pras pessoas, mostrar nossa autoestima pra elas”.

Dee: “…E também instigar pra outras pessoas, no convívio da gente, na periferia, sendo claro. Trazer autoestima, levar autoestima.  Tenha autoestima. Levanta. Vai”.

Filiph: “…Se cuide. Vista-se bem. Não tenha medo de ganhar dinheiro. Não tenha medo de ser próspero…”.

Dee: “…Não tenha medo de ser negro. Não tenha medo de ser você”.

Nas ruas, os estudantes apanham e tomam bomba da polícia do governador Geraldo Alckmin. No estúdio, os 5 pra 1 compõem, gravam e cantam “Mente em Expansão”.

É esta a juventude que quer tomar o poder.

 

Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004)
  1. Ademar Amancio Responder

    Não conheço a turma.Boa sorte.

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