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Três apresentadoras, uma multidão

Mel Gonçalves tem 25 anos, é transexual e apresenta um programa na TV brasileira. Essa frase se tornará verdadeira a partir das 23 horas da sexta-feira 4 de março de 2016, quando estreia na TV Brasil o programa Estação Plural, cuja apresentação ela divide com Ellen Oléria, 33 anos, e Fernando Oliveira, 32 anos.

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Caçula na bancada do talk show, Mel transita entre tímida e orgulhosa de si, durante a gravação do quinto episódio do programa, nos estúdios da TV Brasil em São Paulo, às 8 horas da manhã da segunda-feira 29 de fevereiro. Todos estão prontas, maquiados e vestidas quando chega o convidado da vez, o deputado federal baiano Jean Wyllys (PSOL-RJ). Sim, o Estação Plural versa sobre diversidade sexual. Ellen é a integrante lésbica do trio e Fernando, mais conhecido como Fefito, representa a população gay.

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Parece piada de mau gosto, mas é a realidade nua e crua: para aquém do inédito empoderamento de uma transexual feminina numa rede aberta e pública de TV, nunca houve no Brasil um talk show nesses moldes, fosse nas emissoras públicas financiadas pela coletividade, fosse na toda-poderosa Rede Globo ou nas demais redes comerciais pautadas pelo lucro.

Muito jovem, nascida a região Centro-Oeste, em Goiânia (GO), e integrante pop descompromissada da divertida Banda Uó, Mel está plenamente consciente de papel em que está investida aqui. “A gente cumpre um papel de representatividade, mais que qualquer coisa, porque são pessoas LGBT trabalhando numa TV pública, sendo completmente aceitas e não reprimidas ou exotificadas”, afirma, quando conversamos emocionad@s em meio à ansiedade que toma os dias antes da estreia do programa.

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Pergunto ao deputado e jornalista Jean, à saída da gravação de sua participação, se Mel é a grande novidade do Estação Plural. “Eu diria que a presença dela é o símbolo do avanço, porque a Mel é uma transexual. A questão da transexualidade foi invisibilizada inclusive, durante algum tempo, na agenda LGBT. Ficava em segundo plano. Ter uma apresentadora empoderada, bonita, é um símbolo desse avanço”, ele concorda, antes de abrir um leque mais amplo e representativo:

“Mas também acho significativa a Ellen, porque ela é uma mulher lésbica, negra, assumida como tal, que nasceu no Chaparral, e isso é muito significativo num país que mata muitos negros, em que o extermínio está aí, em curso. Ela é essa mulher negra, jovem, empoderada, lésbica. E o Fefito é um gay fora dos padrões também, isso é interessante. Não tenho nada contra os sarados, acho eles incríveis, queria namorar com todos, mas acho bacana que existam gays como ele e como eu, com um padrão de beleza diferente”.

Como diz Jean, os apresentadoras do Estação Plural são três, mas representam bem mais que duas mulheres e um homem, ou dois homens e uma mulher, ou três mulheres ou homens ou cidadã(o)s: “É um programa que representa a diversidade da comunidade LGBT, combinando isso com outras posições de sujeito, porque a Ellen é negra, o Fefito é nordestino”.

Vencedora da primeira edição do programa musical The Voice, da Rede Globo, a cantora e compositora Ellen Oléria também vem do Centro-Oeste, da periferia de Taguatinga (DF), cidade-satélite de Brasília. Ainda que eu veja uma índia brasileiríssima em Mel, Ellen puxa a brasa da parceira para a afro-identidade. “Tem duas mulheres negras nesse programara. Para nós, enquanto mulheres negras, num programa nacional, é de fato um marco. A gente pode celebrar mais uma vez. Eu sempre cito Leci Brandão, que disse que Jovelina Pérola Negra não fazia muitos programas de TV porque era considerada negra demais para a tela”, ela lembra, colocando ênfase nas palavras negra demais.

Ellen se põe a conversar com Jovelina, dirigindo-se olho no olho a mim, que sou jornalista, homem, de pele branca, gay e brasileiro nascido na região Sul: “Jovelina, onde você estiver, você chegou um pouco antes de nós e é por sua causa também que nós estamos criando esse caminho”.

Nordestino nascido no Recife (PE) e criado no interior pernambucano, o terceiro integrante da equação, Fefito, é jornalista, foi co-apresentador do programa Mulheres, da TV Gazeta, e já andou por Globo, Record, Estado Folha (tem atualmente uma coluna sobre TV no jornal Agora, desse último grupo). Pergunto se um programa como o Estação Plural seria possível em qualquer uma daquelas emissoras da parceria público-privada. “Seria, mas pra isso ser possível precisaria de anunciante. As TVs comerciais têm receio de que não se anuncie num programa voltado pra esse público.”

Pergunto a Fefito se ele já tentou emplacar algo do tipo no conglomerado comercial. “Cheguei a apresentar projeto pra uma das emissoras, e acharam que não era comercial. Tem uma outra questão também: emissoras de televisão em geral são muito preconceituosas”, responde.

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Algum exemplo, Fefito? “Eu já fui demitido de emissoras de TV por homofobia. Cheguei a apresentar um programa matinal, e de repente fui cortado, e descobri por uma coluna de fofoca, dois dias depois, que fui cortado, abre aspas, por ser espontâneo demais. Basicamente porque eu não era um gay masculinizado, heteronormativo. É um choque. Você descobre coisas em lugares que não espera descobrir. Todo mundo acha que as emissoras de TV são superdemocráticas e gays e abertas, e elas são muito preconceituosas. Normalmente quem está na cabeça das emissoras é muito conservador.”

Se o conglomerado comercial disfarça preconceitos atrás de suposta inviabilidade mercadológica (ou seja, atrás dos preconceitos dos indivíduos que dirigem empresas anunciantes supostamente não preconceituosas), o que explica a demora das TVs públicas em se engajar em temas caros à cidadania como um todo? “É incrível, né?, que não exista um programa desse na TV aberta, que a própria TV pública nunca tenha feito”, espanta-se comigo Myriam Porto, diretora de produção artística da TV Brasil. “Concordo com você, demorou muito, mas felizmente estamos nós aqui agora com o Estação Plural.”

Ela prossegue: “É uma obrigação da TV pública. A TV Brasil tem trabalhado todas as diversidades: a diversidade religiosa, com programas que falam de todas as religiões, a diversidade cultural, a regional, estamos sempre tentando atender o país inteiro. Estava faltando isso. Estamos sendo coerentes com a diversidade que a gente propõe”.

Ponta-de-lança das questões de direitos homossexuais na TV (via Big Brother Brasil) e no Congresso Nacional, Jean é ele próprio apresentador de um programa afim das diversidades sexuais na TV paga, no global Canal Brasil (Cinema em Outras Cores). Ele discorre sobre a relevância do engajamento tardio da TV pública (e aberta):

“O Brasil é um país muito homofóbico, e um país que se recusa a assumir sua homofobia, e por isso mesmo não avança nesse sentido. Acho que a TV Brasil era a TV que deveria dar esse passo, porque a TV pública tem que ter esse compromisso. Não pode ter medo, não pode ficar refém da audiência ou de ataques orquestrados. Houve um ataque orquestrado quando o Cinema em Outras Cores ia estrear, pra dar a impressão de que ninguém queria ver o programa. E foi o contrário, na grade do Canal Brasil é o programa de maior audiência”.

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Debatendo com personalidades diversas como o médico Drauzio Varela (no programa de estreia), a atriz e cineasta Bruna Lombardi e o rapper MV Bill, o Estação Plural trata como trunfo o fato de não se ater, necessariamente, às pautas do universo LGBT. No encontro com Jean Wyllys, por exemplo, debateram hábitos contemporâneos, redes sociais, representação política – e, sim, orgulho e visibilidade LGBT.

Nesse contexto, Mel Gonçalves sabe que a simples presença dela pode ser tão importante quanto os assuntos que ela estiver debatendo, se não mais importante. “Já dei bastante entrevista, já participei de muitos programas. Já aconteceram coisas boas e coisas ruins comigo na TV. Mas como apresentadora nunca tinha participado, é a primeira vez.”

Coisas boas e coisas ruins, Mel? “Coisas ruins, de perguntarem coisas que não se deve perguntar pra ser humano nenhum, de invadirem minha privacidade. Coisas boas, de falarem sobre meu trabalho e deixarem de lado aquilo que é meu, pessoal, o meu gênero, a minha sexualidade. Isso não ter que vir em primeiro plano.”

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Mel fala sobre a imagem de êxito social que transmite, mesmo pertencendo a uma população majoritariamente marginalizada e discriminada: “Meu caso é muito raro. Como sou artista, é permitido, é mais fácil lidar. As pessoas tendem a respeitar mais, não pelo fato de eu ser trans, mas pelo fato de eu ser alguém que está na mídia”.

O surgimento de exemplos positivos indica uma tendência de melhora, de progresso da sociedade como um todo? “Tende a melhorar, pra todas, mas é muito pouco. Precisa mais, eu quero ver mais transexuais médicas, advogadas, deputadas, prefeitas, quem sabe até presidente da República. É isso que quero, quero ver o mundo com pessoas iguais a mim, quero ver pessoas iguais a mim. Tem muitas, só que a gente é realmente marginalizada. Eu fico muito feliz de não fazer parte da minoria extremamente marginalizada, mas ao mesmo tempo me dá um senso de responsabilidade muito grande, porque preciso mostrar que na verdade não é tão bonito assim quanto o representado por mim. As coisas são bem mais tensas”.

Falo sobre o alívio e o calor no coração que sinto ao vê-la sorridente diante das câmeras, ou fora delas. Recebo de presente mais uma linda lição de transparência e cidadania: “Fico muito feliz de você e muitas pessoas sentirem isso, mas infelizmente a gente é obrigada a engolir muito sapo. Pra estar onde eu estou eu tive que engolir muito sapo e tenho que engolir também muitas coisas. As pessoas não são educadas pra entender as pessoas trans, porque estão muito acostumadas com o cisnormativismo, que traz uma exclusão pras pessoas trans. O fato de isso ser mostrado e ser falado e eu estar representando significa muito, mas nem todo mundo teve as mesmas oportunidades que eu tive, a mesma estrutura que eu tive. Na verdade, 90% delas não têm essa estrutura”.

E como Mel conseguiu ter essa, digamos, sorte? “Porque eu tive uma família, uma família que, por mais que a gente tenha passado por dificuldades e divergências, me acolheu, não me rejeitou, me deu carinho, me deu estudo, me deu um patrocínio, me pegou no colo”.

Mel Gonçalves tem 25 anos, é transexual e apresenta um programa na TV, o Estação Plural. Quando a TV pública se dispõe a fazer aquilo para o que deveria sempre existir, é isto que acontece: atrás das três apresentadoras também vem a gente, a família dela, uma multidão.

 

Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004)

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