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Japan Pop Show

Grupo Hibiki Wadaiko, do Nikkey Clube de Marília, se apresenta no Japan Fest - Fotos: Eduardo Nunomura/Farofafá

Grupo Hibiki Wadaiko, do Nikkey Clube de Marília, se apresenta no Japan Fest – Fotos: Eduardo Nunomura/Farofafá

Japan Fest de Marília chega à sua 14ª edição em busca da renovação, sem perder a tradição marcante da cultural oriental

Mario-san surge saltitando e balançando suavemente seus braços largos, trajando um happi, uma vestimenta vermelha e preta, após o término da apresentação da Orquestra Marília Nikkey Gakudan. Jovens iniciam uma roda ao seu redor. São coreografias simples baseadas em repetições. Logo a roda vira uma espiral e poucos parecem prestar atenção no líder. Os movimentos seguem uniformes e contagiantes. A música tocada por um DJ é o J-pop, que ganhou esse nome no fim dos anos 1990 para caracterizar as bandas japonesas que tocavam pop music. Só que para a coreografia dos jovens de Marília as canções são executadas num ritmo mais acelerado, com batidas que lembram, vagamente, o funk, o rap ou o rock. É uma típica dança de festival, que em japonês se traduz como matsuri dance. Mas, apesar do nome, trata-se de uma criação 100% brasileira.

Adolescentes da quarta geração de filhos de descendentes de japoneses que migraram para o Brasil, os chamados yonseis, são os maiores entusiastas da matsuri dance. A dança foi inventada, em 2003, pelo grupo Sansei de Londrina (PR) e se espalhou pelos municípios com colônias nipônicas, como é o caso de Marília, cidade de 232 mil habitantes localizada a 438 km da capital paulista. Vem se tornando uma espécie de dança da integração, por atrair crianças, adolescentes, adultos e idosos (os odiityans e as obaatyans), incluindo não-descendentes de várias etnias.

Quando vídeos no YouTube passaram a ser compartilhados, os jovens yonseis espalhados pelo Brasil formaram grupos e começaram a criar suas próprias coreografias. Já houve exibições de matsuri dance em estados como Amazonas, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros. Em Marília, a dança chegou há pouco mais de cinco anos. “Fomos gravando e eles foram adaptando passos da discoteca, mas sem deixar de incorporar um ou outro passo do bon odori”, explica Mario-san, o microempresário Mario Tahara, de 41 anos.

A fusão do novo com o milenar tem estimulado que jovens fãs da matsuri dance acabem preservando a tradição do bon odori, uma cerimônia budista japonesa de homenagem aos mortos. Envolve todo um ritual, que vai desde a iluminação com velas flutuantes, o som característico dos tambores taiko, a disposição dos músicos, o uso do quimono, as épocas do ano e os horários em que pode ser realizado até as variadas coreografias que remetem à lavoura ou à pesca. Em geral, a dança moderna, já sem o sentido religioso, ocorre depois da tradicional, e os jovens acabam participando das duas.

Em Marília, onde ocorreu no primeiro fim de semana de abril a 14ª edição do Japan Fest, um tradicional evento da cultura oriental em São Paulo, a matsuri dance foi uma das atrações paralelas. Diferente de Londrina, onde se originou, e de Maringá, cidades paranaenses com grupos maiores que se apresentam para plateias de até 20 mil pessoas, no interior paulista a dança luta para conquistar um maior espaço. Cidades com colônias grandes de japoneses, como Tupã, Bastos e Garça, realizam eventos do gênero e também começam a abrir suas programações para os jovens.

Essa renovação rompe com a lógica de isolamento que os orientais no Brasil fizeram questão de preservar – ou, muitas vezes, foram obrigados a se isolar. Durante a Segunda Guerra Mundial, e alguns anos depois dela, os descendentes de japoneses eram vistos como o “perigo amarelo”, inimigos dos brasileiros. Uma herança que vinha desde o Estado Novo de Getúlio Vargas, quando imigrantes japoneses, alemães e italianos tiveram suas liberdades de locomoção e comunicação cerceadas. Nos anos 1960 e 1970, os nipo-brasileiros iniciaram um processo de inclusão de brasileiros na colônia, como a permissão de casamentos de seus filhos com os gaijins (os não-japoneses), fenômeno pesquisado por Ruth Cardoso em sua tese sobre a mobilidade social dos japoneses. Era uma forma que encontraram para se integrar à sociedade brasileira.

De lá para cá, essa paulatina miscigenação fez com que as festas orientais passassem a ser frequentadas por um público ocidental que se interessa pela culinária e pela cultura japonesa. Na festa de Marília, uma espécie de quermesse com atrações artísticas compareceram mais de 50 mil pessoas entre os dias 8 e 10 de abril. A programação, no melhor estilo Japan Pop Show, incluiu karaokê, concurso de miss nikkey, taiko, cosplay e shows de cantores da colônia nipônica. A maioria das atrações veio de Marília e de cidades como Lins, Tupã, Assis, Araçatuba e Mogi das Cruzes.

Há cenas memoráveis. A começar de uma exposição de ikebana, que já teve mais de 30 edições e começou antes mesmo do Japan Fest. No bon odori da Marília Nikkey Gakudan, sete senhoras cantaram com colas escritas em japonês nos seus leques, que também serviam de proteção contra o sol inclemente. De Londrina, vieram o grupo folclórico Jishin Shamidaiko e o Taiko Ishin Ladies. O primeiro é um grupo de jovens músicos que tocam instrumentos do Japão, como o koto (uma harpa lírica, também conhecida como cítara japonesa) e o shamisen (espécie de banjo de três cordas que as gueixas tocam). As Ishin Ladies são um grupo de mulheres de meia idade para cima, a mais velha delas com 74 anos, que tocam o tambor japonês com a energia de adolescentes.

De Mogi das Cruzes, veio um garoto-prodígio de 11 anos, já vedete de programas de auditório da televisão brasileira. Ryu-Jackson toca e dança músicas do rapper sul-coreano Psy e de Michael Jackson. Começou a sua carreira artística aos 4, quando, depois da morte do cantor norte-americano, passou a querer imitá-lo. Ryu dubla seus ídolos, mas também canta com voz potente e afinada em português, inglês e japonês.

A dupla de campeões brasileiros de karaokê Takeshi Nishimura e Satiko Ono, de São Paulo, faz uma apresentação com cenas que lembram a leveza e a pureza dos movimentos do teatro kabuki. Os cachês são modestos. Principais atrações musicais das duas primeiras noites, os cantores Kenji Yamai e Joe Hirata, ambos de São Paulo, receberam R$ 2,5 mil cada. Houve ainda apresentação de cosplay, termo que remete a “costume play”. Jovens e adolescentes usam fantasias para fazer uma representação a caráter de seus personagens preferidos de animes e videogames.

A 14ª edição da Japan Fest foi orçada em menos de R$ 400 mil. Neste ano, as empresas parceiras não foram tão generosas quanto em edições passadas – em 2015, a festa custou R$ 450 mil. Desta vez, o maior apoiador, o banco Bradesco, ofereceu R$ 60 mil, enquanto a Brasil Kirin (filial da multinacional japonesa Kirin Company), dona da marca Schin, destinou 20% sobre o valor da venda das bebidas. Patrocinadores menores contribuíram com valores inferiores a R$ 10 mil. Cada barraca de alimentos, bebidas e outros produtos comercializados paga 20% sobre as vendas na festa. E houve a venda de alguns poucos milhares de ingressos, a R$ 5 ou um quilo de alimento cada.

Farofafá

Segundo o coordenador-geral do evento, Carlos Nakamura, a 14ª Japan Fest ganhou em março o direito de participar do ProAC (Programa de Ação Cultural), do governo estadual de São Paulo, mas não conseguiu captar recursos a tempo – será solicitada uma prorrogação deste prazo. Nesta edição, os organizadores decidiram não solicitar apoio da Secretaria Estadual de Turismo, embora a festa faça parte do calendário oficial do turismo paulista. No ano passado, a secretaria se comprometeu a bancar a infraestrutura, que envolvia a montagem do palco e de tendas. “O evento já foi e não recebemos o dinheiro que prometeram. A estrutura foi bancada por nós”, garante Nakamura, que estimou esse custo em cerca de R$ 30 mil. A assessoria de imprensa da Secretaria de Turismo nega essa informação e afirma que atendeu à solicitação com a montagem da infraestrutura da edição de 2015.

A festa é realizada no clube campestre do Nikkey Clube de Marília, uma instituição sem fins lucrativos fundada em 1930 pela colônia japonesa, que migrou para trabalhar nas fazendas de café na região. Algumas plantações ainda podem ser vistas na SP-294, que liga Marília a Bauru, mas os orientais já abandonaram o campo há algumas décadas. A maioria atua no comércio e nos serviços. Na cidade de Marília, vivem cerca de 2.300 mil famílias de descendentes.

Desde a primeira edição, que surgiu em 2002 a partir de uma iniciativa da TV TEM, afiliada mariliense da Rede Globo, emissora que cuida da divulgação do evento, o Japan Fest tem conseguido um feito que, para a comunidade oriental, é de grande valor e um eterno desafio: integrar os diferentes grupos de japoneses. Nikkeis, descendentes de Okinawa, fieis do Seicho-no-ie e as tribos de jovens, que em muitas regiões promovem seus encontros separadamente, têm no Japan Fest de Marília a sua principal referência. Parece pouco, mas para quem como eu, neto de japoneses, cresceu sem saber a riqueza desse convívio, é muita coisa.

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo.

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