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Lá vem a temporada das flores

Petrus Wilhelmus Josephus Schoenmaker chegou ao Brasil em 1959, vindo de VerversSolf, na Holanda, uma região conhecida por seus velejadores. Tinha 15 anos. Naquela época, Holambra (nas imediações de Campinas, a 125 km da capital paulista) ainda era apenas uma fazenda que um grupo de teimosos holandeses insistia em querer transformar, desde 1948, num centro produtivo nacional de uma flor conhecida como palma de Santa Rita, ou gladíolo.

Não teve serviço na roça que ele não tenha feito: puxou enxada, criou galinhas, dirigiu trator, plantou e colheu bulbos. Ao mesmo tempo, gostava de dançar e farrear, o que o tornava particularmente diferente dos irmãos.

Para ajudar a expandir os negócios, sua família se engajou na organização de uma festa de flores em sua cidade, Holambra. A ele, como festeiro convicto, sobrou a tarefa de organizar as danças folclóricas na segunda edição da feira, em 1982. Mas Petrus tinha planos mais ambiciosos: viajou até a Holanda, pesquisou grupos regionais, desenvolveu um acervo de linguagens e de incorporações e inventou a dança circular (base das apresentações públicas), além de sistematizar um repertório de 170 danças de diversas culturas e épocas: mazurca, valsas, xotes. E países: Israel, Estados Unidos, França. Só não tem do Brasil. “Eu sei o meu lugar. Imagine eu tentando ensinar samba no Brasil?”, diverte-se Schoenmaker.

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Após 35 anos daquela época de pioneirismo, Petrus se tornou o holandês-símbolo do núcleo de Holambra. É o Embaixador das Flores. É o rosto mais conhecido da região, como se fosse uma daquelas figuras da aveia Quaker. O cargo não poderia estar em melhores mãos: seu sorriso sempre largo e fácil, seu senso de humor desabrido, sua facilidade para a piada e a improvisação, tudo nele o torna um boa praça daqueles que dá prazer ter por perto.

Em 2006, ao receber o título de Cidadão Honorário de Holambra, Piet, como o chamam, disse: “Somos todos irmãos e irmãs e é através da dança que as pessoas se encontram e partilham sua riqueza interior”. Em abril deste ano, ele ganhou uma estátua de dois metros de altura perto do moinho de vento de Holambra.

Na tarde desta sexta-feira, 23 de setembro, como há anos, Petrus, hoje com 72 anos, surgirá com um microfone e sua verve especial para animar um evento que já se tornou uma tradição na exposição das flores em Holambra: a Chuva de Pétalas, que acontece sempre por volta das 16 horas.

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Hoje a feira de flores terá chuva especial, porque nesta sexta começa a primavera. O lugar que parece mais preparado no país todo para recebê-la é essa pequena cidade cenográfica dentro da pequena Holambra. Até domingo, quando termina, 300 mil pessoas terão passado pela Expoflora, que é a maior feira de flores e plantas ornamentais da América Latina.

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No momento da chuva, o mascote Tulípio, um funcionário dentro de uma fantasia com cabeça de bulbo de tulipa, sobe numa plataforma de uns 60 metros, e, por meio de um “expirador” gigante, sopra 150 quilos de pétalas sobre um público eufórico, umas 5 mil pessoas que já começam a se aglomerar no campo uma hora antes da cerimônia. Petrus revela que são necessários 18 mil botões de rosas para conseguir tal nível de “precipitação atmosférica”.

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A locutora, pelo alto-falante, informa que é um momento de reflexão, e que há uma especial mística naquele ritual: caso uma pétala de flor caia na mão de algum dos circunstantes, essa pessoa poderá ter um desejo realizado. Mas não vale procurar a pétala com as mãos, tem que cair voluntariamente na palma da mão da pessoa.

O que começou com uma festa simpática adquiriu solenidade – é como disse Eric Hobsbawm, em A Invenção das Tradições. Algumas senhoras choram, tem gente que segura santinho. “A gente precisa ter fé. Eu tenho uma mãe doente, acredito que tudo em que a gente confia pode acontecer”, diz a turista Alzira Pereira, visivelmente emocionada. Os alto-falantes tocam “Amigos para Siempre (Friends for Life)”, canção composta por Andrew Lloyd Webber, só que na versão de Los Manolos.

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A pequena vila cenográfica é o coração do sistema floricultor de Holambra. Fachadas que parecem a da Eurodisney, com displays fotográficos gigantes,  tamancos-orelhões, restaurantes que servem comidas típicas, doces.

unnamed-8 (1)O museu, ornamentado com placas em holandês (“welkomen”, bem-vindos), conta com fotografias, objetos de época (bicicletas, arados, tratores) e casas cenográficas, como era a fazenda Ribeirão onde tudo começou e quem foram os pioneiros a chegarem ali – existe até as fotos da seleção de futebol holambresa, uma espécie de Tulipa Mecânica, ao lado do padre Stokman, que abençoava seus campeonatos.

Petrus conta que, adolescente ainda nos terrões da fazenda Ribeirão, tentou jogar bola. “Mas, com minha habilidade, não dava para participar. Eu descobri que posso ser violento jogando. Miro mais o jogador do que a bola. Achei que era melhor ficar mesmo com os corais, e passei a cantar no coral masculino da igreja”. Após 30 anos cantando e dançando, ele parou de ensinar as danças no ano passado, aposentou-se. Mas algumas das danças coletadas por Petrus, repassadas num ciclo de nove anos para cerca de 200 adolescentes e meninos e meninas de bochechas rosadas, são as mobilizações que dão um maior colorido folclórico à vila, espalhando-se pelos palcos, ruas e átrios da vila.

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Uma das grandes atrações turísticas é o moinho de vento (uma réplica dos moinhos holandeses), o maior da América Latina, com 39,5 metros de altura. Foi construído pelo arquiteto holandês Jan Heijdra em 2008, para comemorar os 60 anos de imigração. Recebe de 20 a 30 visitantes durante a semana, e nos finais de semana de 100 a 300, que pagam para subir seus 310 degraus e apreciar uma vista da região.

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Hoje, esse cuidado paisagístico e essa festinha, organizada como um showroom incansável, já são o coração de um negócio que movimenta cerca de R$ 6,6 bilhões no país todo, e que espera um aumento de 6% a 8% este ano. Não há crise que uma flor não derrube, parece dizer a Flower Parade.

Os 68 anos da imigração holandesa na região emprestaram uma legitimidade étnica especial ao lugarejo. Foi algo tão reconhecido que, em 2003, a rainha da Holanda, Beatrix, acompanhada da família (entre os parentes, o filho Willem-Alexander, hoje rei da Holanda), resolveu visitar sua comunidade do Além Mar. Petrus Schoenmaker, como de hábito, foi incumbido de preparar as cerimônias dançantes para receber a família real. Ele conta como foi:

“Preparei 250 dançarinos para receber a rainha. Sempre é especial, não? A gente quer caprichar. Teve umas coisas engraçadas. A rainha veio de carro de São Paulo. A comitiva dela tinha arrumado um carro com uma bandeirinha da Holanda em cima do capô, mas havia um defeito na fixação. A bandeirinha abaixava e a comitiva tinha que parar na estrada para levantar de novo. Até que a rainha não aguentou e disse: ‘Prefiro dar preferência a chegar a tempo’, advertiu. Ainda assim, chegou  45 minutos atrasada. Eu estava numa enrascada: imagine manter 250 crianças em linha esperando por uma rainha durante uma hora em pé, sem ficarem inquietas? O príncipe veio de helicóptero. Eles nunca viajam juntos, é uma regra. Ele chegou muito antes e logo pediu um banheiro. O banheiro mais próximo era um banheiro público não muito adequado, tentaram tirar isso da cabeça dele, levar para aposentos mais reais. Ele se negou. ‘É que eu preciso de um banheiro para fumar escondido antes que a minha mãe chegue’, revelou”.

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Fotos Jotabê Medeiros

Petrus Schoenmaker é um remanescente de um cavalheirismo e uma humanidade que parecem ser os maiores legados da vida tranquila e sem pressa de Holambra. Os patrocinadores impõem sucos industriais e paradas aculturadas de música para promover detergentes e produtos de limpeza; as flores não têm preços especiais, são até mais caras do que nas floriculturas do centro. Estão à venda pelos pavilhões gérberas, orquídeas, rosas, violetas, crisântemos, tangos, lírios, tulipas, entre outras variedades. Na saída da Expoflora, há um setor de preparação das flores para a viagem de volta, para que cheguem intactas aos seus destinos.

Mas é a recepção calorosa da população e a possibilidade de uma pausa tranquila entre a aceleração das grandes cidades que parece tornar Holambra um destino cada vez mais procurado entre as festas do estado de São Paulo. Groeten!

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