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Samba, funk, soul, blues & cia.

la73-luiz-melodia-perola-negraO carioca Luiz Melodia é negro gato que sempre pulou de galho em galho na música e na indústria musical brasileira. Nesse volume da série Três Tons, a Universal não consegue reunir os melhores álbuns de Melodia, e sim os que ela guarda em seu catálogo. O resultado poderia se chamar Três Tempos de Luiz Melodia, pela disparidade audível em Pérola Negra (1973), Felino (1983) e Pintando o Sete (1991).

Pérola Negra é história pura: a estreia em LP apresentava um artista que desconhecia fronteiras de gêneros musicais (soul, funk, samba, jazz, forró etc.), plantado num enclave tempo-espaço que unia a pós-tropicália ao momento anterior à eclosão do movimento black Rio. “Pérola Negra” e “Magrelinha” eram as obras-primas mais vigorosas num álbum composto por dez obras-primas, e nada mais.

felinoFelino é posterior ao abrasileiramento do reggae jamaicano de Bob Marley, em grande medida por obra e graça das elaborações de Gilberto Gil. Melancólico e festivo ao mesmo tempo, “Só” era o reggae por excelência do LP: “Tava naquela que dá dó/ olhando a lua andar só/ gota de chuva, nota dó/ sinto o tempo descontente ao redor/ como o puro alimento desta horta/ mesmo se tudo juntar por aí/ em nós o só há de sempre existir”. A faixa de abertura, “O Sangue Não Nega”, queixava-se de modo discreto dos preconceitos que teimavam (teimam) em tentar confinar os artistas negros brasileiros ao samba dito “puro”: “Disseram no jornal, televisão/ que eu não gosto mais de samba, samba/ jornal, televisão está no ar/ mas eu sou bamba, bamba/ a lógica se move, deixa estar/ a luz do sol, a cor do mar não se fabrica/ em minhas veias corre sangue a batucar”.

pintando-o-sete-W320Anos adiante, já na década de 1990, Pintando o Sete representava algum acomodamento de Melodia aos padrões globais-radiofônicos, expressa no arranjo convencional para “Codinome Beija-Flor” (1985), de Cazuza, aproveitado como trilha sonora de novela. A sofisticação musical do artista transparecia, no entanto, fosse em “Maura”, um samba da antiga composto por seu pai, Oswaldo Melodia, ou em “Mistério do Planeta” (1972), regravação de um dos rocks-sambas mais gingados dos Novos Baianos.

 

(por Pedro Alexandre Sanches)