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A sina emepebista

Por Pedro Alexandre Sanches

Cavalo, o primeiro álbum solo de Rodrigo Amarante, causa espécie já a partir da primeira faixa. “Nada em Vão” começa devagar, mas logo fica arrojada, intrincada, moderna. Ao mesmo tempo, insiste em fazer lembrar alguma melodia ou arranjo MPB de Marisa Monte. Aí moram as dores e as delícias de ser um ex-Los Hermanos, mesmo para um cara talentoso como Amarante.

A sina anexada ao legado da banda é bipolar. Principiou pela simplicidade absoluta de “Anna Júlia” (1999), refletiu-se no intenso sucesso infanto-juvenil que o rock romântico carreou e desaguou feito tromba d’água na tentativa obsessiva do quarteto polarizado por Rodrigo e Marcelo Camelo em se desvencilhar de tudo aquilo que estava ali: o sucesso de massa, a adolescência inconsequente, a simplicidade de “Anna Júlia”. Los Hermanos rapidamente ficam mais complexos, cabeçudos, e nem assim lograram conseguir assustar fãs mobilizados por um messianismo que talvez se localizasse justamente no espaço abstrato entre os ídolos e o rebanho.

Solo, Camelo pendeu para um formato angustiado, oprimido, de efeitos colaterais opressivos para quem o escuta. Amarante parecia seguir uma trajetória mais solta, tocando com músicos estrangeiros do circuito indie-massa e se divertindo junto à Orquestra ImperialCavalo não confirma a soltura, e se emaranha em amarras parecidas às que tangem o parceiro. Sozinhos ou em grupo, ambos parecem determinados a soar obsessivamente adultos, cerebrais, sábios, ensimesmados. Soam mais ensimesmados que sábios, menos adultos que cerebrais. Não deixam de soar como meninos que talvez tenham crescido depressa demais.

amarantecapacavaloCavalo oscila entre polos. Ora soa gostoso, amistoso, aconchegante: “Maná”, “Hourglass”, “Nada em Vão” depois de sucessivas audições. Noutros (muitos) momentos, ecoa o Caetano Veloso pós-tropicalista deprimido na Londres de 1971: “Irene”, “The Ribbon, “Fall Asleep”, “Mon Nom”, várias. A fórmula compreende canções poliglotas (consta que Rodrigo está radicado em Los Angeles), capa cabeça-iconoclasta (à dir.), lirismo deprê, ecos de bandas progressivas-espaciais do ocaso do (anti)pop gringo (RadioheadSpiritualized etc.), letras herméticas.

No pulsar bipolar, os tempos continuam a parecer estranhos. O (anti)ídolo tenta correr da obsessão dos fãs messiânicos, que cada vez gostam mais dele(s). Quem foi mesmo que disse que o cabeçudismo era antipop? Quem pode ignorar que uma quantidade opressora de bandas decalcadas no formato Los Hermanos não para até hoje de surgir na esteira do espírito à la Tom Zé de Bloco do Eu Sozinho (2001)? Quão aprisionadoras podem ser as fórmulas? Quão aprisionadora pode ser a fuga alvoroçada das fórmulas?

O fim leva ao começo: Rodrigo e Marcelo são (mesmo que não queiram) pontas-de-lança de uma infinidade de artistas brasileiros que, como eles, tentam se moldar a exemplos estrangeiros, mas acabam arrastados, sempre, a uma parecença enorme com o jazz universitário que nos acostumamos a chamar MPB. É isso que faz Amarante lembrar Marisa Monte, por mais que seja diferente dela.

O começo leva ao fim: a influência folk (outro totem das gerações braZileiras pós-Los Hermanos) abre um canyon e enche de beleza lancinante a faixa final, “Tardei”. Como numa fita que se rebobina, principia lembrando o folk pós-tropicalista do estadunidense-venezuelano Devendra Banhart, viaja ao passado trágico do folk latino de protesto do chileno Victor Jara e tarda por evocar, de modo impressionante, a voz forte nordestina folk-messiânica do paraibano desterrado Geraldo Vandré.

No trajeto de “Nada em Vão” a “Tardei”, Rodrigo nos faz lembrar que “Los Hermanos”, afinal de contas, era o nome de uma triste canção folk indígena de protesto do argentino Atahualpa Yupanqui, interpretada pela conterrânea Mercedes Sosa e bastante conhecida em terras brasilis numa versão para lá de triste da gaúcha trágica Elis Regina.

A sina emepebista é algo que assombra a contemporânea MPB universitária (com o perdão da redundância), como se todos os “indies” tivessem ido para Londres com Caetano em 1969, e de lá ainda não tivessem voltado (ao contrário do mestre).