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Contravenções de Moreira

O selo Discobertas, de Marcelo Fróes, percorre o túnel do tempo na contramão e volta à obra do sambista de breque Moreira da Silva (1902-2000) na década de 1950, na caixa de três CDs Moreira da Silva – Anos 50. Mas 47 gravações se somam às caixas anteriores, que abrangeram os LPs de Moreira na Odeon (atual EMI), a partir de 1958.

1956 Moreira da Silva e Seus Grandes Sucessos - O TalO intervalo 1950-1957 apresenta muita novidade para quem conhecesse o artista carioca das reedições anteriores. O licor do bombom está na primeira reedição de seu primeiro LP, “O Tal” – Moreira da Silva e Seus Grandes Sucessos., lançado em 1956 pela gravadora Santa Anita, depois perdida na poeira. O disco de 10 polegadas trazia versões anos 1950 para os clássicos de breque “Acertei no Milhar” (1940), “Amigo Urso” (1941) e a fundadora “Na Subida do Morro” (também presente na versão em compacto de 1952).

1958 O Último MalandroFora essas, mais exceções como “Olha o Padilha”, extraída de compacto de 1952 e retomada depois no primeiro LP da Odeon (O Último Malandro, de 1958) e “1.296 Mulheres” (regravada em 1966), tudo tem sabor de ineditismo na caixa Anos 50. “Olha o Padilha”, sobretudo, soa estarrecedora a ouvidos de 2013, pelo conteúdo violentamente racista devotado à “nega” do narrador.

“Sou Motorista” (1950) revive o passado do próprio Moreira, que fora chofer no serviço público nos anos 1920. Temas como “Viva o Cabral” (1953) e, sobretudo, a até hoje célebre “A Turma do Funil” (1957) flagram o apelo do artista como cantor de carnaval, de marchinhas feitas especialmente para os salões de baile de fevereiro. A ode alcoólica “A Turma do Funil” era, veja só, uma parceria entre Moreira e outro idealizador de hinos da boemia, Adelino Moreira, compositor de sucessos para Nelson Gonçalves Angela Maria.

Na contramão do racismo explícito acoplado a muitas das letras, a esquecida “Poeta dos Negros” (1953) celebrava Castro Alves e remetia de modo oficialesco aos tempos não tão idos da escravidão: “Liberdade era o que o negro queria/ em 1888 a Princesa Isabel a Lei Áurea assinou/ e a escravidão no Brasil acabou”.

capa-MOREIRA_FINAL_RGBSão marcantes, também, as aproximações de Moreira com o sincretismo entre candomblé e catolicismo (nas várias loas devotas a São Jorge/Ogum),  a política (“Bamba de Caxias”, de 1954, sobre o polêmico político Tenório Cavalcanti, ou “Vote em Mim”, de 1955), a contravenção e o crime (“Jogo Proibido” e “Carreira do Crime”, ambas de 1953).

O pacote dedicado a Moreira da Silva pela Discobertas se completa com a reedição da biografia O Último dos Malandros, do jornalista Alexandre Augusto. Publicado originalmente em 1996, o livro volta ao ar pela Sonora Editora, também de Fróes.

Tais iniciativas nos levam a perguntar: como é que esses caras têm conseguido driblar as patrulhas da polícia MPB?  E nos levam a comemorar: que bom que conseguem!

 

(por Pedro Alexandre Sanches)