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É pau, é o cão, é o cânhamo

Duas De Cinco (Single)O rapper paulistano Criolo, o maior redefinidor de parâmetros do hip-hop brasileiro dos anos 2000, dá partida aos trabalhos daquele que deve vir a ser seu terceiro álbum – ou segundo, já que toda a mídia branca tradicional ignorou e ignora até hoje a existência do CD de estreia, Ainda Há Tempo, de 2006.

O ato inaugural é um single que contém duas novas canções, “Duas de Cinco” e “Cóccix-ência”. O site oficial do artista oferece desde ontem as novidades, com generosidade: pode-se ouvir diretamente  via canal oficial no YouTube, ou fazer download gratuito de ambas as faixas, ou comprar a matéria concreta em vinil, por intermédio da Livraria Cultura.

As letras seguem o padrão complexo e abstrato do compositor, que nos ajuda transcrevendo a de “Duas de Cinco” no vídeo (abaixo).

O tema de “Duas de Cinco”, recorrente na obra de Criolo, é o universo das drogas – como sempre, sob abordagem crítica. Em pique de declamação ortodoxa de rap, ele vai cerzindo o (nosso) tecido social: “É o cão, é o cânhamo, é o desamor”, “cocaína é uma igreja gringa de le chereau”, “havia uma pedra no meio do caminho/ ele não é preto veio, mas no bolso leva um cachimbo/ é o sleazestack, zói branco, repare o brilho/ chewbacca na Penha, maisena com pó de vidro”, “glamour pro alcoolismo”, “a cada maço de cigarro fumado a morte faz um jaz entre nós”, “um governo que quer acabar com o crack, mas não tem moral pra vetar/ comercial de cerveja”, “é salto alto, MD, Absolut, suco de fruta”, “esse doce não é sal de fruta/ azedar é a meta/ tá bom ou quer mais açúcar?”.

Maconha, cocaína, crack, cigarro, álcool, suco industrializado, sal, açúcar – estrategicamente, é pela crítica à intoxicação que Criolo abre a nova jornada. É por intermédio dela que se faz, mais uma vez, peça no (efeito-)dominó que redefine, progressivamente, o debate entre o rap e as MPBs, entre a cultura branca e a cultura negra, entre o “centro” e a “periferia”. Criolo, como Emicida, é cultura negra para brancos e cultura branca para negros – é cultura “crioula” paratodos.

No mais, Criolo e seu single se inserem no tempo histórico de 2013 por pelo menos duas vias polêmicas. A primeira é o verso em que ele chama o governo na chincha para “vetar” comerciais de cerveja – a causa parece justa, mas o verso vem à tona no mesmo instante em que os heróis emepebistas de Criolo (e nossos) estão sob escrutínio da sociedade por surpreendentes afãs censores. Qual censura é boa? Qual censura é ruim? É possível gozar a liberdade de uma vida sem censura (se o “rei” Roberto Carlos nos permite a citação distorcida)?

Criolo nos ajuda a perguntar, muito mais que a responder.

Outro ponto sensível da letra de “Duas de Cinco” se dá no verso “muito blá se fala e a língua é uma piranha”. A “piranha” ali colocada poderia ser interpretada como uma citação misógina? A mera referência causaria o estardalhaço que a letra de “Trepadeira”, de Emicida, causou? Devemos policiar nossos ídolos com lupa tão milimétrica? Temos esse direito? Temos esse dever? Podemos entender que mecanismos nos levam a proteger mais este, expor mais aquele, entre todos os ídolos de que dispomos em nosso cardápio consumista (intoxicante)? E a privacidade? E a liberdade de expressão?

Por enquanto incólume bombardeio, Criolo segue adiante com “Cóccix-ência”, de ritmo rock-funkeado sobre letra complexa, difícil de entender (confesso que não consigo decifrar vários trechos), e cheia de imagens fortes e rimas (quase) livres: “O que não é seriado da Fox/ é playboy se acabando no ox (?)/ artesanato humilde de durepox/ (…….) pensa em tirar, vá tomar no seu cox”. Crítica à mídia, à vaidade e/ou à famigerada inveja (“pavão que não tem rabo paga pau pra espanador”), imagens de violência, preconceito, vidas de aparência. É evidente que a crítica social está aguda em Criolo, mais uma vez, à parte quaisquer mal-entendidos.

“Nosso rap leva o amor”, afirma de passagem o artista em “Cóccix-ência”, negando e dialogando com o “Não Existe Amor em SP” de 2011 e com os versos (anti-)jobinianos, “é o cão, é o cânhamo, é o desamor”, de  “Duas de Cinco”. Por ora, são só duas músicas, é cedo demais para maiores interpretações.

Mas que luxo termos Criolo, do Grajaú, para raciocinar conosco.

 

(por Pedro Alexandre Sanches)

Data: outubro 16, 2013