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Ele procurava um psicanalista

Capa-Carlos-Erasmo...-736663A série Três Tons, da Universal Music, usa marketing infame na nomenclatura e programação visual mequetrefe para esconder conteúdos da pesada. O volume dedicado a Erasmo Carlos é exemplo perfeito: os três álbuns escolhidos para reedição são provavelmente os três melhores que o artista carioca concebeu: Carlos, Erasmo… (1971), Sonhos e Memórias – 1942-1972 (1972) e Banda dos Contentes (1976).

Aveludado por arranjos de Rogério DupratChiquinho de Moraes Arthur Verocai, o primeiro marcou a conversão de Erasmo a um tipo muito peculiar de rock-tropicália, a bordo da participação de músicos como Sérgio Dias Ronaldo Leme Liminha (todos então integrantes dos Mutantes) e Lanny Gordin (guitarrista de Gal Costa em Fatal, do mesmo ano). O repertório, inspirado de A a Z, incluía novidade de Caetano Veloso (“De Noite na Cama”), antiguidade de Jorge Ben (“Agora Ninguém Chora Mais”), baladas soul de Taiguara (“Dois Animais na Selva Suja da Rua”) e Marcos Valle (“26 Anos de Vida Normal”) e, por último, “Maria Joana”, uma ode piradona à maconha co-assinada por… Roberto Carlos.

cd-erasmo-carlos-sonhos-e-memorias-remaster-frete-gratis_MLB-F-3189267685_092012a-banda-dos-contentes-em-altaSonhos e Memórias flagrava Erasmo no ápice de sua veia hippie, e poderia ser chamado de um disco de rock rural – não fossem várias das canções ancoradas no Rio de Janeiro (“Largo da Segunda-Feira”) e bafejadas de suave brisa marinha (“Meu Mar”, “Vida Antiga”, “Sábado Morto”, “Sorriso Dela”, “Grilos”, “Minha Gente”), todas da dupla Roberto-Erasmo. Ponto alto era o samba-rock (também roberto-erasmiano) “Mané João”, uma versão mais para a gafieira do drama em triângulo amoroso “Domingo no Parque” (1968), de Gilberto Gil.

Banda dos Contentes, por fim, é um dos discos mais suaves e delicados da história da discografia brasileira. Começa com um rock de protesto freudiano, “Filho Único”, e vai se amaciando entre versão gentil de Belchior (“Paralelas”), rock rural latino-americano de Ruy Maurity (“Continente Perdido – Terra de Montezuma”), toada moderna de Jorge Mautner Antonio Adolfo, filosofia transcendental de Gilberto Gil (“Queremos Saber”, que Cássia Eller regravaria em 2001, pouco antes de morrer). A faixa-título, da dupla Roberto-Erasmo, dava bandeira de que nem os astros mansos do rock estavam livres de pirar o cabeção: “Eu preciso urgentemente de um psicanalista/ vou pagar pra ver meus pontos de vista/ ou então eu mesmo me trato com viola e vou pro mato/ senão minha cabeça explode, explode, explode, explode, explode/ ou quem sabe ela implode/ num processo simplesmente se dissolve/ me diga onde já se viu/ um corpo confuso que a cabeça fundiu”.

 

(por Pedro Alexandre Sanches)