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Estripulias da MPBzinha

por Pedro Alexandre Sanches

Abre-se a porta da arca. Os versos que em 1980 eram declamados por Chico Buarque agora são de Maria Bethânia – a dança das cadeiras acontece também no seio da elite da MPB. Mesmo assim, não espere a pasmaceira da nova versão discográfica de A Arca de Noé, clássico infantil-emepebista de inspiração bíblica baseado em poemas musicados do bossa-novista Vinicius de Moraes (1913-1980). Quem cantará o tema de abertura após a passagem de Bethânia, em partes que antes eram cumpridas por Milton Nascimento, são dois ícones da black music brasileira anos 2000: o samba-funk-roqueiro Seu Jorge e Péricles, sambista egresso do grupo de pagode Exaltasamba. A fila andou.

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“A Arca de Noé”, de 1980

A dança das cadeiras é também geracional quanto à equipe de produção da nova Arca. Se antes eram o diretor artístico Marco Mazzola e o produtor Fernando Faro que regiam a balbúrdia, a nova equipe de concepção é formada por Suzana Moraes, filha de Vinicius, mais Adriana Calcanhotto (que vem se dedicando à música infantil na persona-codinome Adriana Partimpim), Dé Palmeira (do Barão Vermelho) e o empresário de artistas Leonardo Netto. Pode-se dizer que as crianças estão entregues a mãos dedicadas, e delicadas.

Bancada pela multinacional Sony Music, a nova Arca embaralha os repertórios dos volumes 1 e 2, lançados (e exibidos pela Rede Globo) respectivamente em 1980 e 1981, em meio à comoção pela morte de Vinicius.  Uma das marcas da releitura é que circunscreve os trejeitos infantis das versões antigas, deixando a graça encantadora de crianças mais a cargo dos versos que de cacoetes musicais, sonoros e/ou sonoplásticos.

As novas versões são, em regra, inspiradas. A velha guarda da MPB vai bem com Caetano Veloso, em releitura mais vagarosa de “O Leão” (originalmente interpretada por Fagner, e desta vez dividida com o filho Moreno Veloso), Erasmo Carlos (em “O Pintinho”, que era das Frenéticas), Chico Buarque (em “O Pinguim”, antes cantada pelo parceiro coautor de Vinícius, Toquinho) e Gal Costa.

Essa última cuida de uma das surpresas do CD, “As Borboletas”, que não constava das primeiras versões – a outra que pertence a essa categoria é a deliciosa “O Elefantinho”, por Adriana Partimpim, sob arranjo audaz, inusitado. Os belos versos de “As Borboletas” fazem elegia simultântea de dois extremos, o claro e o escuro, a borboleta e a mariposa: “Borboletas brancas são alegres e francas/ borboletas azuis gostam muito de luz/ as amarelinhas são tão bonitinhas/ e as pretas, então…, oh, que escuridão!”.

Veteranos de gerações intermediários ocupam bom espaço no novo xadrez. Zeca Pagodinho converte “O Pato” ao samba de fundo de quintal  – e faz bonito, mesmo sob a sombra da histórica versão primeira do MPB 4Mart’nália faz algo parecido com “O Gato”, que era de Marina LimaMarisa Monte, pouco amistosa a projetos que a desviem de sua própria rota, cuida bem de “As Abelhas” no lugar de Alceu Valença, transformando-a em valsinha dolente. Arnaldo Antunes produz um dos mais gostosos momentos, em “O Peru” (que era sensacional na versão de Elba Ramalho), mais uma vez aproximando com muitos “glu, glu, glu” os universos concretista e infantil.

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“Arca de Noé 2″, 1981

A vontade dos produtores de alargar o conceito de MPB existe, embora a iniciativa soe um tanto tímida. Começa pela presença de Seu Jorge e Péricles e segue com Chitãozinho & Xororó tornando moda de viola o dramalhão criado por Elis Regina em “A Corujinha” –  apesar da interpretação caprichada, parece cruel com a dupla sertaneja a escolha de compará-la com Elis. Outra audácia contida é dar “A Galinha d’Angola” (que em 1981 era de Ney Matogrosso) a Ivete Sangalo, sob o acompanhamento do grupo português Buraka Som Sistema. O resultado é legal, mas deixa a impressão de que a produção optou pelo kuduro, por falta de coragem (ou vontade) de adicionar funk carioca, brasileiro, à receita.

A cota, digamos, jovem fica por conta da presença da Orquestra Imperial, em “A Foca” (que foi de Moraes Moreira), e da caçula Maria Luiza Jobim, em “A Cachorrinha”, que em 1981 foi interpretada por seu pai, Tom Jobim. Nesse caso, como em outros, o fator clã parece exercer mais influência que a rotatividade geracional – Mariana de Moraes, filha de Vinicius, ganha “A Formiga” (originalmente de Clara Nunes) e Paulo Jobim, filho de Tom, cuida da mui católica “São Francisco”, com as vozes que eram de Ney Matogrosso divididas com Miúcha, irmã de Chico. Para arrematar tanta ode à hereditariedade, encerra a nova Arca uma versão de “A Casa”, com a voz de Vinicius em pessoa cantando no lugar do grupo Boca Livre.

A Arca de Noé 2013 é artisticamente irretocável, e terá sido merecidíssimo se cair no agrado das crianças digitais do século XXI. No pano de fundo, ainda se presta a metáfora completa dos atuais impasses, dilemas, becos-sem-saída e tentativas de solução da cansada MPB universitária (com o perdão, mais uma vez, pela redundância) – tanto a de ontem como a de hoje. Fecha-se a porta da arca.

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“Arca de Noé”, versão 2013

(Ouça aqui canções das três edições de Arca de Noé e outras canções brasileiras para crianças.)