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Explosão, implosão & o depois

Por Pedro Alexandre Sanches

Mundo Livre S/A Nação Zumbi, as duas bandas essenciais do manguebit pernambucano, se unem para gravar um disco em parceria. O acontecimento dá pano para manga.

image001-648x648Em primeiro lugar, não é exatamente um disco em parceria. Se fosse um LP, em vez de um CD, o lado A seria todo ocupado pelo Mundo Livre, enquanto a Nação Zumbi se desincumbe do lado B. As duas bandas não se encontram, de corpo presente, em nenhuma das 14 faixas.

Vem à mente um tipo de LP que grassou nos anos 1970 dentro da multinacional CBS (atual Sony) e, particularmente, do movimento do forró nordestino. O diretor artístico (e também artista) Abdias não tinha certeza do pleno potencial desse e daquele forrozeiro, e por isso fazia com que dois deles dividissem um único LP, lado A para um, lado B para o outro. Jacinto SilvaElino JuliãoJoão do Pife e Osvaldo Oliveira, entre outros, tiveram de passar pela experiência.

Não foram só eles: em 1967, os baianos Caetano Veloso Gal Costa tiveram de dividir um mesmo LP de estreia (Domingo), dois por um. O mesmíssimo aconteceu em 1972, com os pernambucanos também estreantes Alceu Valença Geraldo Azevedo. Mais tarde, todos alçaram voo com asas próprias.

Não é o caso da Nação e do Mundo Livre, evidentemente – ninguém aqui é iniciante. Mas o projeto da gravadora Deck, iniciado no ano passado com as bandas Ultraje a Rigor Raimundos, parece dar um passo atrás, outro adiante, em relação a histórias passadas. O passo atrás é que não dá para escapar da impressão de que os hoje periclitantes Ultraje e Raimundos tiveram de dividir um mesmo CD porque dois eram demais para eles. O passo adiante é a proposta: Ultraje cantava Raimundos, Raimundos inteprretavam Ultraje. A fórmula se repete agora em Mundo Livre S.A. vs Nação Zumbi.

O formato dois-em-um guarda um tanto do drama manguebit, 19 anos após o marco inaugural de Da Lama ao Caos (Sony, 1994), quando Chico Science era o homem de frente da Nação Zumbi.

O mangue foi um movimento que explodiu retumbantemente, mas implodiu não muito tempo depois. Os acidentes de percurso (principalmente a morte de Chico em 1997, num acidente de carro) não bastam para justificar os percalços: essas coisas da vida acontecem com todo mundo. Há um mistério até hoje oculto na relativa retração de um de nossos maiores e melhores movimentos musicais pós-tropicália, muito pouco tempo depois de ele ter encantado um monte de gente.

Para esses efeitos, Mundo Livre S.A. vs Nação Zumbi é ouro puro. É chegada a hora de remexer não o baú, mas a lama nutritiva do mangue – que já nos propiciou muitos e importantes legados, dos quais elejo de cara dois: o hábito plugado de realizar downloads (“ilegais”, diriam alguns) de música e o advento do movimento mais-que-musical Fora do Eixo. Mangueboys originais brigaram, com maior ou menor ardor, com esses seus filhos todos.

Fred Zero Quatro (o nome proeminente do Mundo Livre) é brigado com os downloads. O tributário/primo mais novo China (ex-Sheik Tosado) aprecia tretar com os mato-grossenses (etc.) do Fora do Eixo, como se eles fossem perigosos inimigos, e às vezes, nisso, nos deixa na dúvida sobre se não estaria portando a voz escondida de primos mais velhos e menos tagarelas. Nós sabemos, as hierarquias existem, e não é só nas “seitas” comunocapitalistas.

Sim, aquele caldo cultural era riquíssimo, e nos ensinou, uma por uma, as diretrizes para os anos e as décadas que viriam a seguir. Planet HempO Rappa, hip-hop paulista, funk carioca, Cidadão Instigado Cabruera, resgate do brega nordestino e nortista, tecnobrega paraense, neo-forró nordestino, Macaco Bong, Móveis Coloniais de AcajuVanguart e neo-folk fora-do-eixo Rio-SP, músico-que-carrega-caixa: tudo tem a ver com o manguebit e com os mangueboys. Festivais como Abril pro Rock e RecBeat (e aí temos mais ideólogos silenciosos) deram à luz, talvez por cesareana, os circuitos atuais de festivais FdoE e correlatos, por mais que detestem genética e hereditariedade.

Com tudo isso, há tempos os pais da matéria orgânica altamente nutritiva parecem estar (não tenho certeza se estão mesmo) de cara amarrada diante de cada um dos filhotes fora-de-controle que pariram.

O disco mútuo, repito, é ouro puro, ainda parcamente assimilado aqui nas minhas pós-vitrolas. Na primeira audição, me rebelei contra o sistema Deck: que saco ouvir sete músicas da Nação reinterpretadas pelo Mundo Livre, depois vice-versa. Resolvi escutar saltado: um Mundo, uma Nação, outro Mundo, outra Nação.

Primeiras sensações. Que penoso reouvir os hinos geracionais “A Cidade” e “Livre Iniciativa” despidos de seus arranjos originais. E que canções sensacionais. E que letras certeiras, norteadoras. E que saudade. E por último, mas não menos importante, que delícias (mansas) essas novas versões.

220px-Jorgeben_samba_esquema_novoA segunda rodada de troca-troca Zumbi-S/A me traz a sempre fodona “A Praireira”, da Nação, versus “A Musa da Ilha Grande”, do S/A. Mundo Livre arrasa de verde-e-amarelo, numa versão altamente subvertida, arrastada, triste, triste, tristíssima de “A Praieira”. A Nação, com “A Musa da Ilha Grande”, costura toda uma volta ao mundo (musical) (pós) (brasileiro): parte de um arranjo jamaicano, caribenho, à la Paralamas do Sucesso, para acabar soando feito Jorge Ben (Jor) filtrado pelo Mundo Livre (“samba esquema noise!”) filtrado por Los Sebosos Postizos, melancólica banda paralela da Nação, devotada exclusivamente ao repertório de Jorge Ben. São muitas camadas de amor.

Nas rodadas seguintes, há a (inevitável?) formação de barriga, agravada pela escolha de repertório não especialmente brilhante de ambas as bandas – ai, será que estou entrando num espinheiro?

Quem vem quebrar um quase-tédio é o Mundo Livre, numa releitura inteligentíssima (embora não necessariamente agradável) para “Rios, Pontes e Overdrives”. Em pouco mais de três minutos, ouço heavy metal e samba, Titãs e maracatu, Raimundos e embolada, digitália e analogia (?), cavaquinho e quebradeira: samba esquema noise. Que poder de síntese tinha (tem?) o manguebit. E agora, com tudo (re)aparecendo virado, desvirado, revirado, (re)misturado?

A pergunta ricocheteia (e eu não vou conseguir responder):  por que esses caras explodiram para dentro em vez de implodir para fora? Por que, depois do instante fundador de sedução irresistível, o isolamento, o ensimesmamento, a ranzinzice, o “não fui eu que fiz isso tudo aí, não”, o “não quero que refaçam aquilo que eu fiz (e não fiz)”? São também as coisas da vida?

A Nação volta a crescer na penúltima rodada, com “Seu Suor É o Melhor de Você”, pastoso, sexy, (sexista,) sólido, sonoro, soturno. O Mundo Livre se despede com “Samba Makossa”, em clave afrobeat, Manu Dibango-beat, sambabit, Manu Chao-bit, mais jeitão de Zero Quatro que de Chico Science. E o CD se conclui por “O Velho James Browse Já Dizia…”, canção recentíssima do Mundo Livre, em brinquedo no qual a Nação cruza gratidões num arco que vai de Roberto Carlos James Brown, de Tim Maia Mano Brown, de Tom Zé a Carlinhos Brown, tudo sempre muito masculino, talvez um pouco masculino demais.

Termino por aqui disposto a outras (muitas) rodadas aleatórias de Mundo Zumbi versus Nação Livre. E sem resposta para nenhuma das perguntas. E imaginando que não deve ser bolinho ser herdeiro, legitimo ou bastardo, do velho ainda vivíssimo Ariano Suassuna.