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Filhos de peixe peixinhos são

Nana, Dori e Danilo CaymmiPoucas coisas na MPB são tão manjadas quanto a família Caymmi se reunir para defender o patrimônio musical do patriarca Dorival, morto há cinco anos. E, no entanto, este disco Caymmi (Som Livre) é nada menos que sensacional. O repertório eleito pelos três filhos é dado mais às sutilezas que às obviedades. Inclui temas marginais de Dorival, como  “Balaio Grande” (1941), “A Mãe d’Água e a Menina” (1985), “Modinha para Teresa Batista” (1992), “Acaçá” (1997) e a meiguice tragicômica de “Fiz uma Viagem” (1956), entre outras.

Nana, em estado de graça, transforma “Francisca Santos das Flores” (1972) num fado cantado com sotaque português de arrepiar. Dori Danilo, ambos donos de voz masculinamente caymmianas, dividem temas mitológicos afrobrasileiros da estatura de “Itapoã” (1972, “sereia morena/ vem toda manhã/ se banha nas águas/ de Itapoã”) e resgatam a crítica ainda envergonhada ao racismo da maneira como Dorival a construiu em 1975, em “Retirantes”: “Vida de nego é difícil/ é difícil como o quê/ (…) eu quero morrer de açoite/ se tu, nega, me deixar”.

A parceria com a Som Livre, gravadora da Rede Globo, deve explicar a incidência de temas televisivos, como “Retirantes” (tema de abertura da novela Escrava Isaura), “Caminhos do Mar” (de Porto dos Milagres, de 2001) e “História pro Sinhozinho” (1957), conhecida como “Tia Nastácia” na versão que Dorival adaptou para o Sítio do Picapau Amarelo em 1977. Essa última Nana canta (novamente em estado de graça) no original, tratando “a velha de colo quente/ que canta quadras/ que conta história para ninar” não como Tia Nastácia, mas como Sinhá Zefa.

 

(por Pedro Alexandre Sanches)

 

Data: julho 30, 2013