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Imutável camaleão

O sempre econômico Edu Lobo é focalizado na série de reedições da Universal Music, para ele rebatizada Dois Tons de Edu Lobo. Haveria mais maravilhas a tirar do ineditismo em CD, como o raríssimo Edu Canta Zumbi (Elenco, 1968), mas os títulos recuperados na caixinha são Camaleão, de 1978, e Tempo Presente, de 1980.

Edu_Lobo_camale_oCamaleão começa pela jobiniana “Lero-Lero”, com vocais dos conjuntos MPB 4 e Boca Livre (esse último presente em várias faixas) e versos brasileiríssimos de Cacaso: “Sou brasileiro de estatura mediana/ gosto muito de fulana, mas sicrana é quem me quer”. A seguir vem “O Trenzinho do Caipira” (você pode ouvir em FAROFAFÁ, aqui), o monumento musical de Heitor Villa-Lobos, aqui acompanhado de versos de Ferreira Gullar.

As faixas de sabor épico (como “Canudos” e “Sanha na Mandinga”, além das já citadas) se alternam com o intimismo bossa-emepebista característico de Edu. O disco termina, épico e lírico, com releitura da canção de festival “Memórias de Marta Saré” (1968, gravada por cantoras como Marília Medalha Elis Regina), nesta versão cantada por Wanda Sá, à época Wanda Lobo.

CapaTempo Presente, por sua vez, traz uma grande notícia na forma de participação especial de uma cantora e compositora que estava sendo relançada no Brasil naquela época: Joyce, atualmente Joyce Moreno. Ela é coautora, com Edu, da faixa-título e do tema de abertura, “Rei Morto, Rei Posto”: “Deixa incendiar/ deixa quem quiser ir/ um dia a verdade vai ter que sair/ (…) por cima do muro ela tem que sair”.

Joyce aparece cantando “Rei Morto, Rei Posto” ao lado do grupo vocal bissex Viva Voz. Do clã dos Caymmi, Dori Caymmi coloca voz grave na dramática “Desenredo”, dele e de Paulo César Pinheiro. O tom, dessa vez, é bem menos épico que lírico e ensimesmado.

Juntos, Camaleão Tempo Presente contam um pouco sobre a trajetória de Edu na MPB, marcada pela solidez, pela coerência e por uma intransigência maior que a da grande maioria de seus pares. O camaleão do título do primeiro LP não devia, de modo algum, ser o próprio artista.

 

(por Pedro Alexandre Sanches)

 

 

Data: agosto 19, 2013