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No passo da MPB universitária

Por Pedro Alexandre Sanches

 

De Graça, o segundo álbum de Marcelo Jeneci, tende ao sombrio, ao soturno, ao tristonho. Contrasta francamente com o antecessor, o genial Feito pra Acabar (2010), que tinha seus momentos graves (como a maravilhosa balada “Quarto de Dormir”), mas de modo geral era vivaz, aberto, de plenos pulmões.

2010 Feito pra AcabarNão há problemas quaisquer em um álbum ser soturno, noturno. Os artistas têm todo o direito à introspecção, e não é raro sermos cúmplices deles nas decisões de reclusão e de mergulho para dentro. A capa robertocarliana de De Graça guarda mais identidade, individualidade e altivez que a paisagem cosmética e perfumosa da de Feito pra Acabar (à dir.), em tudo associada à Natura, a patrocinadora hiperpolitizada de Jeneci.

Cabe aqui, no entanto, um pingo de reflexão sobre o percurso desenhado pelo artista paulistano, que é, afinal, o percurso de muitos dos artistas brasileiros contemporâneos que tocaram o sucesso e/ou a empatia em seus primeiros movimentos. Ou é, pelo menos, o percurso dos artistas de origem ou compromisso com alguma “intelectualidade” universitária, com a MPB (hiper)universitária contemporânea – dificilmente ouviremos esse tipo de dilema nos próximos trabalhos de um Michel Teló, de um Wesley Safadão, de uma Gaby Amarantos (será, Gaby?) ou de um Mr. Catra.

Tomem-se Los Hermanos como pedra exemplar: sucesso popular estrondoso com “Anna Júlia” (1999), guinada à introspecção conceitual-intelectual, encaramujamento total da música de seus (ex-)integrantes. A massa admiradora, como já fizera com Renato Russo, segue para onde seus guias resolverem rumar – mesmo que o destino seja a beirada persistente de um abismo simbólico.

A pergunta vale para Jeneci, ou para Tulipa Ruiz (que outro dia fez um interminável show “autoral” na de resto divertidíssima festa de música brasileira Santo Forte, em São Paulo), ou para onze entre cada dez artistas novos “intelectualizados”: que pânico é esse que a possibilidade do sucesso provoca, a ponto de transformar os bem-sucedidos em ensimesmados, os alegres festeiros em deprimidos conceituais?

Por que não olhamos com mais carinho para iniciativas como o Santo Forte do DJ Tutu Moraes, que move uma superpopulação festiva de fãs de música brasileira pelo puro e simples prazer de dançar? (Uma iniciativa como a de Tutu, em São Paulo, há uns 15 ou 20 anos, estaria fadada ao fracasso retumbante. Sim, nós mudamos. Muito. Para melhor.)

Por que parece feio, para nós brasileiros, sejamos tucanos, marineiros, petistas ou black blocs, cultivar a flor do que pode dar – e tem dado – certo? Por que seguimos para sempre ouvindo a Transa (1972) de Caetano Veloso até gastar, se faz tempo que Gilberto Gil não cansa de professar sua (nossa) Fé na Festa (2010)?

Em tempo: esta não é uma resenha de De Graça, do sensacional Jeneci. São observações que vicejaram internamente a partir de uma primeira e por enquanto única audição. É provável que voltemos ao assunto logo adiante (se não ficarmos ensimesmados-deprimidos-acuados por demais em nossas cavernas).

 

P.S. às 14h20: tenho lido, nas redes sociais, amigos e colegas jornalistas musicais desdenhando o disco de Jeneci, classificando o disco e/ou o artista de “chato”, bobagens assim – em que medida nós, jornalistas, somos parte ativa (por vezes estúpida) do círculo vicioso-virtuoso?