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Luan, ao vivo, para sempre

Desde 2009, Luan Santana já lançou cinco álbuns (quatro deles pela Som Livre, da Rede Globo), mas nunca lançou um álbum de estúdio. O mais novo da coleção, O Nosso Tempo É Hoje, segue a norma, sob os padrões estratégicos-econômicos de “financie um DVD e leve junto um CD ao vivo”.

Nessa metodologia, a energia do artista diante da plateia vira o carro condutor. O coral feminino de vozes hipnotizadas entra na receita como legitimador, a prova de que quem ama Luan sabe todas as letras dele de cor, mesmo as ainda inéditas em CD e DVD. O círculo virtuoso-vicioso se retroalimenta, mas sonega do artista e dos ouvintes a experiência da elaboração de estúdio, da ausência da voz das fãs, do apuro técnico entre quatro paredes.

É uma pena, porque o virtuosismo, na música de Luan, vem dos arranjos, que são elegantes, fundados naquele estilo de sanfona que correu mundo via Michel Teló e é de fato classudo à beça. A voz, as letras e as melodias de Luan (e parceiros) são mais planas e chapadas que a musicalidade do grupo, algo que a experiência de estúdio poderia enriquecer, mas está interditado pelas normas e pela economia da cultura do pop sertanejo dos anos 2000. Não é uma peculiaridade de Luan, já que dez entre dez astros da música urbano-sertaneja contemporânea só fazem lançar um DVD-CD ao vivo atrás do outro.

2013 Te EsperandoHá pouco tempo, o jovem astro havia lançado um EP, um CD de duração menor, com apenas quatro músicas – outro tubo de ensaio que a indústria fonográfica local tem testado ultimamente. Te Esperando (capa à dir.) poderia ter sido a chance para uma amostra de canções de estúdio do artista, mas não: ali, as versões de “Sogrão Caprichou” (tema de novela global), “Garotas Não Merecem Chorar”, “Cabou, Cabou” (bastante difundida anos atrás na leitura tecnobrega paraense) e da faixa-título aparecem novamente ao vivo, praticamente da mesma maneira como seriam repetidas agora, no CD “cheio” O Nosso Tempo É Hoje.

Talvez o modelo da hora seja esse, e não seja o caso de lamentar – mas os refrões cantados em coro pelo público, às vezes por cima da voz do cantor, a cada nova faixa do EP e do CD e do DVD, acabam por dar um pouco nos nervos. Enquanto a plateia canta a altos brados para agradar o ídolo, Luan canta as dores e as alegrias do amor, o romantismo-ostentação, a vontade de ter esposa, dois filhos e um cachorro (em “Cê Topa”), a solidão, a oração pós-católica (ou evangélica) “Senhor, multiplica, multiplica, enche de mulher na minha vida” (em “Multiplica”).

O contrato coletivo é complexo, por vezes esquisitão. Ainda bem que a sanfona virtuosa embala o pacotão com suavidade.

 

Data: novembro 07, 2013