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O apogeu da bossa negra

“É o funk, é o rap, é o samba” – parece que estamos numa versão black power de “Águas de Março”, mas a faixa de abertura do disco se chama “Selva de Pedra”, e o protagonista da nau é Edi Rock, um dos quatro Racionais MC’sContra Nós Ninguém Será é o primeiro álbum solo do rapper paulista, e “Selva de Pedra” é apenas um entre muitos indícios de que Tom Jobim ficaria orgulhoso de Edi Rock se estivesse vivo e se a bossa nova não tivesse sido tão branca como foi.

Contra Nós Ninguém Será é um tratado de hip-hop brasileiro, um disco-alicerce, com dezenas de participações especiais de gente muito importante para a nossa bossa preta, de Ndee NaldinhoMano Brown e Helião EmicidaFlora Matos Rael, de Ice BlueKL Jay Dexter Crônica MendesDemis Preto e Don Pixote, de Seu JorgeMarcelo Falcão e Lino Krizz Vanessa JacksonMarina de la Riva Nego Jam, de  SandrãoWilliam Magalhães e Túlio Dek SalazarSimone Brown DJ Cuca (o produtor da maior parte das faixas) – e, não, eu não consegui citar todo mundo que participa.

É um disco que remonta aos primórdios do rap nacional, mas permanece o tempo todo com olhos e ouvidos essencialmente abertos para o futuro. É um disco para ser ouvido do início ao fim, tijolo por tijolo, bloco por bloco, conceito por conceito.

Seguindo um rumo já apontado nos palcos por Mano Brown, Edi Rock faz o funk (inclusive o carioca), a discotheque e o samba polvilharem o rap antes duro do núcleo Racionais. À parte o clichê das fusões musicais, as conexões e os nexos nunca soam caricaturais ou previsíveis – ao contrário. A “Selva de Pedra” da abertura, por exemplo, começa sacudida, mas termina num coro gospel catártico. “Abrem-Se os Caminhos” anuncia-se como reggae e tem a participação de Marcelo Falcão, d’O Rappa – mas extravasa as convenções do ritmo jamaicano e se consolida em mais, bem mais que uma canção de um gênero só (ou dois).

“Eu Canto Uq Soul”, com os jovens Flora Matos e Rael, é um rap afro, racial, ritual. “Voltarei para Você”, logo em seguida, é cantado pela cubanobrasileira Marina de la Riva, em espanhol e português, em tempo de tango-rap, por la unidad de la America Latina. A visão panorâmica de Edi Rock instala o rap nacional no topo da montanha, de onde, se prestarmos máxima atenção, ele talvez nunca tenha saído.

“Na Bolsa de São Paulo os valores tão em falta”, previne a segunda faixa, “Você Não Pode Se Enganar”, que vai desaguar bem adiante, na metade do disco, na audaciosa “Cava Cava”, composta e cantada com Don Pixote e Emicida. De início, parece que estamos num túnel que está sendo perfurado com muito esforço do interior de um presídio rumo à liberdade. Mas não é isso. A narrativa é de um assalto, que desemboca na partilha do resultado da escavação: “Cinco do Joseph Safra/ três do Abílio Diniz/ cinco do Antônio Ermírio/ duas do Antônio Luiz“.

Talvez seja uma mera canção de ladrões (nada que Bob Dylan Johnny Cash não tenham feito às dúzias), mas parece mais que isso. O túnel cavado mira para a liberdade, tanto quanto para a cobrança histórica de um pouco de tudo que os brancos já roubaram dos pretos. É disso que fala, o tempo todo, o disco que se chama Contra Nós Ninguém Será.

Segue-se a “Cava Cava” a estonteante “Liberdade Não Tem Preço”, coprotagonizada pelo ex-presidiário Dexter, que vem anunciar simbolicamente a conquista (real) da liberdade para o amigo e parceiro. “Cara, liberdade não tem preço, cê falou pra mim/ o que é ser preso numa jaula feito um passarim/ o que é passar o carnaval sem tocar tamborim/ o que é ruim, mó veneno, cê me disse assim”.

A conquista da liberdade se dá entre as faixas 13 e 14 (num total de 23), e há muito ainda pela frente.

Um pouco de rap ortodoxo comparece antes e depois da 13 e da 14, mas há riquezas a granel reservadas para a parte final do primeiro álbum solo de um dos Racionais. Seu Jorge canta lindamente o refrão tipo punhal-de-veludo-no-coração de “That’s My Way”, em versos meio gospel que já são clássicos entre frequentadores de shows de rap: “Esse é o meu caminho e nele eu vou/ eu gosto de pensar que a luz do sol/ vai iluminar o meu amanhecer/ mas se na manhã o sol não surgir/ por trás das nuvens cinza tudo vai mudar/ a chuva passará e o tempo vai abrir/ a luz de um novo dia sempre vai estar/ pra clarear você/ pra iluminar você/ pra proteger/ pra inspirar/ e alimentar você”.

A partir da catarse de “That’s My Way” ainda restam duas faixas para o álbum terminar. O pique que se instala é de rap-discotheque, primeiro em “Homem Invisível”, com Mano Brown, Helião e Lino Krizz (um dos intérpretes do “oi, oi, oi” da abertura da saudosa novela Avenida Brasil), e o final apoteótico de “Viver e Deixar Viver”, com Lino Krizz, BIG RDGNegreta e Salazar.

“Homem Invisível” é outro rap que pede que o sol venha brilhar, emitida por um homem-em-vias-de-deixar-de-ser-invisível. A composição, assinada coletivamente pelos intérpretes, tem versos de impacto, que causariam orgulho em Chico Buarque, se a MPB heroica não tivesse resolvido ir morar num condomínio blindado de segurança máxima:

“Sou pescador de ilusões nos padrões atuais/ entre ladões e ações de assustos gerais/ o capataz me flagrou e flagra você também/ a mente que não vai além da nota de cem/ você foi diluido, você foi esquecido/ você foi humilhado/ o que te fez bandido/ na sociedade morta do nosso rei falido/ terrível, temido, sofrido, homem invisível/ (…) no mais, o que será, será/ diz que Deus, diz que Deus dará/ na luz ele proverá/ é crer, quem vive vera/ porque é preciso acelerar/ meu rap causa cólera/ verso faz fogo e pólvora/ favela pode apavorar”.

Falta o encerramento, com o disco-funk otimista, positivo e propositivo de “Viver e Deixar Viver”. E o que é, segundo Edi Rock e seus rap-parceiros, a máxima de “viver e deixar viver”? “É viver e aprender/ amar e evoluir/ bater no peito e reagir”, “é pro bem, prum bem maior/ é pensar só no adianto/ enxergar uma real melhor“, “é o caminho pela frente/ é ser livre e se libertar/ conhecer um mundo diferente”, “é querer ser merecedor/ jogar limpo na diversidade/ na amizade cultivar o amor”, “é correr pelo que é certo/ entender o problema alheio/ cada vidro tem seu teto”.

Não é todo dia que um disco só passa tantos e tão importantes recados. Quando não se avistam mais super-heróis nos céus além do horizonte, a bossa negra vem nos redimir.