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O nome dela é trovão

Ellen OlériaA brasiliense Ellen Oléria ganhou notoriedade no ano passado como vencedora do programa de calouros The Voice Brasil e nesse caso nada houve de inventado ou fabricado na descoberta global. Seu segundo álbum, Ellen Oléria, sai com aval da major Universal e brilha em versos de pena própria como “meu nome é encruzilhada”, no funk-jazz “Linhas de Nazca”. O nome dela é encruzilhada, e poderia ser também MINORIA – Ellen é mulher, negra, homossexual e “gorda” (como ela própria acrescenta), e tem um tremendo vozeirão na encruzilhada entre MPB, soul, funk, jazz, folk, rock etc. etc. etc. As composições próprias demonstram fibra e paixão, e o setor de regravações pode ajudar a convencer quem tenha preguiça de ouvir o novo composto e interpretado por uma nova (Ellen tem 30 anos).

Nessa seara, Ellen demonstra amor pela música negra brasileira, suingando duas de Jorge Ben, “Taj Mahal” (1972) e “Zumbi” (1974), e duas de Milton Nascimento, “Maria, Maria” (1978) e “Aqui É o País do Futebol” (1970), essa última gravada por Wilson Simonal, no contexto conturbado da Copa do Mundo de 1970: “Brasil está vazio na tarde de domingo, né?/ olha o sambão, aqui é o país do futebol/ no fundo desse país, ao longo das avenidas/ nos campos de terra e grama o Brasil só é futebol/ nesses 90 minutos de emoção e alegria/ esqueço a casa, o trabalho, a vida fica lá fora/ dinheiro fica lá fora/ a fama fica lá fora/ família fica lá fora/ o salário fica lá fora/ estudo fica lá fora”. As coisas que “ficam lá fora” foram adaptadas livremente pela intérprete, a partir da letra original.

Demonstrando brasilidade de norte a sul e de leste a oeste, Ellen regrava ainda a “Anunciação” (1983) do pernambucano Alceu Valença e a “Nuvem Passageira” (1976) do gaúcho Hermes Aquino. Essa última é o momento de maior delicadeza, quando o vozeirão da mulher-encruzilhada se amansa e canta “a namorada analisada por sobre o divã”. De chorar.

 

(por Pedro Alexandre Sanches)