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Vai, Juliano! ser Gauche na vida

Juliano Gauche2

O Gauche, de Juliano, se refere a um rapaz tímido e sem muita aptidão, como definem os dicionários, ou a um artista engajado de esquerda, na tradução da palavra francesa? Certa vez, dividimos uma mesma mesa de bar em São Paulo, um de frente para o outro. Até então nada tinha ouvido de sua produção musical, que depois vim a saber ser bastante recomendada em dois discos da banda Solana. Então, naquele dia, mais ouvi do que falei. E ele também. Como não pude tirar essa dúvida que agora me cerca, vou arriscar um palpite.

Juliano Gauche é tímido, mas também progressista. E veio a ser, como diria o poeta Carlos Drummond de Andrade, um gauche na vida. Ele acaba de lançar seu primeiro disco solo, homônimo, claramente autoral, e lançado em parceria com o ótimo site A Musicoteca (só petardos da nova cena musical jovem brasileira, e todos gratuitos). O cantor e compositor capixaba, de Ecoporanga, cidade no noroeste do Espírito Santo, apresenta ao público um álbum de uma intensidade poética rara nos dias de hoje.

Com letras desbocadas (“Cuspa, Maltrate, Ofenda”, “Amor do Capeta” e “Deixa Essa Porra Pra Lá”), mas também intensas (“Contando os Dias”, “Isto” e “Sérgio Sampaio Volta”), dramáticas (“Além de Todo Gesto” e “Como a Falta de Ar”) e viscerais (“Ao revólver”), Juliano Gauche clama para falar ao mundo de tudo o que vê ao seu redor, e de como toda essa confusão de imagens e sentimentos atinge o interior de cada um de nós. Pelo menos foi essa a leitura que fiz do disco. Mas tenho certeza de que as músicas vão atingir cada pessoa de maneiras diferentes. Só por isso já vale a pena ouvi-lo.

A obra do artista capixaba gira em torno dos especto dos artistas malditos, e não foi por acaso que ele já fez releituras de Raul Seixas e Sérgio Sampaio. O novo trabalho de Juliano Gauche tem clara influência de Tatá Aeroplano, da banda Cérebro Eletrônico, que foi quem o acolheu em sua chegada à capital paulista (Tatá também estava naquela mesa de bar). O disco pode ser ouvido também no Soundcloud.

(por Eduardo Nunomura)