eis aí o texto sobre chico science, o mangue bit e a música brasileira dos anos 1990, publicado na “carta capital” especial de 15 anos. estou saindo para dar uma volta neste fim-de-semana, mas depois a gente pode conversar sobre o assunto, e também sobre uns erros que estão contidos aí embaixo e vários leitores já constataram…

No quintal de casa
Antenado com o futuro, Chico Science devolveu o Brasil à música pop

POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

O medo da origem é o mal [*]. A pista principal estava dada numa das primeiras frases declamadas por Chico Science quinze anos atrás, em Da Lama ao Caos, seu disco de estreia com a banda Nação Zumbi. A década anterior, na música brasileira, havia sido tomada de assalto por um modelo de rock que lutava para furar a casca do ovo, mas continuava essencialmente pautado pelo que acontecia nos EUA e na Inglaterra, ou seja, punk, new wave, gothic, uma série de termos gringos assim.

O pernambucano Chico Science, então com 28 anos, despontou naquele 1994 como um dos nervos expostos do chamado mangue bit. O movimento preservava na sonoridade e no imaginário a atração pelo chamado “Primeiro Mundo”, mas, novidade, começava a trilhar um caminho de volta ao quintal de casa. O mangue era “bit”, transistor, computador, mas Chico e Fred Zero Quatro (o outro cérebro por trás da jogada) haviam sacado que o horror à própria origem era um inimigo a combater. Foram buscar no ecossistema dos manguezais do Recife e nos folguedos de maracatu da zona rural o cimento para as ideias amontoadas de modo ainda confuso em suas cabeças.

Zero Quatro, líder da banda Mundo Livre S/A (ou mundo livre s/a, só em letras minúsculas), escrevera em 1991 um protótipo de manifesto, que foi batizado de “Caranguejos com Cérebro” e viria a constar no encarte de Da Lama ao Caos, o primeiro lançamento mangue bit.

Numa primeira parte, o texto defendia que os aparentemente inóspitos manguezais do Recife constituem viveiro explosivo de plantas, peixes, micro-organismos, matéria orgânica. A seguir, aplicava o conceito à metrópole em si, a “Manguetown”, e inseria um elemento crítico: “O Recife detém hoje o maior índice de desemprego do País. Mais da metade dos seus habitantes mora em favelas e alagados”. Na conclusão, apresentava a “cena” mangue, “um núcleo de pesquisa e produção de ideias pop” interessado em combater a “depressão crônica que paralisa os cidadãos” e resgatar a criatividade nas entranhas da “Manguetown”.

A tecnologia, em tempos pré-Google, blogs, YouTube ou Twitter, surgia como elemento essencial da equação, e daí surgia a imagem-símbolo do movimento que se armava: uma antena parabólica espetada na lama do mangue. Dos subúrbios, favelas, periferias e lavouras de Pernambuco emergiriam nutrientes para alimentar, via internet e afins, o estado, o País, quiçá o planeta. Nessa troca se fortaleceria o metabolismo dos próprios “micro-organismos” do mangue.

Analisado em retrospecto, e sem supor que os meninos recifenses de classe média baixa soubessem disso conscientemente, o levante mangue bit frutificou e está em pleno vigor hoje. Não se pode dizer que tenha influenciado tudo o que veio depois, mas foi manifestação precoce de um ideário que só faria crescer dali em diante. Da periferia paulistana emergiu o hip-hop. Dos morros cariocas, o funk. De subúrbios mornos do Pará, o tecnobrega. E assim por diante.

Hoje se expressam e se fazem ouvir, cada vez mais, artistas desses vastos “ecossistemas” supostamente estagnados, os mangues da desigualdade social brasileira. Neste caso, como em nenhum outro, as preferências iniciais dos músicos (hip-hop, rock, funk, música eletrônica) foram encorpadas pela redescoberta de maracatu, ciranda, coco, baião, frevo, samba, jovem guarda, balada cafona de beira de estrada. Numa revisão modificada dos procedimentos tropicalistas de 1968, os micróbios do mangue começavam no chamado “underground” a desembaçar um espelho-Brasil no qual não nos mirávamos mais.

Outra qualidade “fora de moda” recuperada pelos autobatizados “mangueboys” foi a de combinar à arte (ou diversão) elementos pontudos de engajamento (ou conscientização), hibernantes no meio musical desde o AI-5. No Monólogo ao Pé do Ouvido que abria Da Lama ao Caos, Science pregava do seguinte modo o reencontro com as origens: Viva Zapata, viva Sandino, viva Zumbi, Antônio Conselheiro, todos os Panteras Negras, Lampião, sua imagem e semelhança.

O mangue não costumou citar muito o neocangaceiro pop pernambucano Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”, mas, de todas essas imagens-exemplo, a do conterrâneo Lampião parecia especialmente forte. Completava um imaginário que vinha dos mangues salgados do litoral, passava pelo maracatu de baque virado da Zona da Mata e furava o Nordeste (e o Brasil) sertão adentro. Quando o mangue bit estreasse no cinema, em Baile Perfumado (1997), de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, o protagonista seria um mascate libanês amigo de Padre Cícero e Lampião. Science, em Banditismo por uma Questão de Classe, trataria como equivalentes o bando do “Rei do Cangaço” em fuga da polícia e os bandidos de favela do final do século XX. Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, expandiria e exportaria essa imagem.

O cangaço reaparecia junto à crítica social na faixa-título de Da Lama ao Caos, cantada, como sempre, em pronunciado sotaque local: Com a barriga vazia não consigo dormir/ e com o bucho mais cheio comecei a pensar/ que eu me organizando posso desorganizar/ que eu desorganizando posso me organizar. Talvez fosse uma “estética da fome”, mas reivindicando o fim da fome.

Ainda em 1994, a Nação Zumbi foi convocada a participar de um tributo a outro “rei”, Roberto Carlos. Chico incumbiu-se de reler o hino pacifista quase-religioso Todos Estão Surdos (1971), originalmente uma louvação a um personagem messiânico difuso entre Jesus Cristo, John Lennon e o próprio Roberto Carlos. E subverteu-o completamente, com cacos que não constavam do soul original de Roberto e Erasmo: Você que está aí sentado/ levante-se!/ há um líder dentro de você/ governe-o/ deixe-o falar. Parecia o discurso de Geraldo Vandré ou Mano Brown, nunca o do “Rei do Iê-iê-iê”. Por essa Roberto não esperava, mas não saiu diminuído com a diabrura.

A Cidade, um dos temas mais incisivos da primeira lavra de Science, parecia um concentrado de todas as características já mencionadas. Martelava com sarcasmo o pino da desigualdade social (a cidade não para, a cidade só cresce/ o de cima sobe e o debaixo desce). E demarcava qual era o fermento do crescimento das cidades: a força de pedreiros suicidas. Soava como um funk ou um rock, mas lá no meio invertia expectativas: Eu vou fazer uma embolada, um samba, um maracatu/ tudo bem envenenado, bom pra mim e bom pra tu.

Não convenceu o sempre nacionalista Ariano Suassuna, que passou a se insurgir contra o que via como espírito unicamente colonizado no mangue bit. Secretário de Cultura do Estado de Pernambuco a partir de 1995, o dramaturgo só chamava o líder da Nação Zumbi de Chico Ciência, e virou inimigo número 1 dos “mangueboys”. E A Cidade terminava melancólica, ou irônica, ou ambos: Num dia de sol Recife acordou/ com a mesma fedentina do dia anterior.

Mesmo motorizado por efeitos tecnológicos e eletrônicos, o som da Nação Zumbi privilegiava percussões tribais e se esforçava por falar à aldeia natal. O desejo de empatia e aproximação se convertia na sonoridade impressionante dos nomes de localidades periféricas pernambucanas listados em Rios, Pontes e Overdrives, e proferidos em velocidade de rap: É Macaxeira, Imbiribeira, Bom Pastor, é o Ibura, Ipsep, Torreão, Casa Amarela, Boa Viagem, Genipapo, Bonifácio, Santo Amaro, Madalena, Boa Vista, Dois Irmãos, é o Cais do Porto, é Caxangá, é Brasilit, Beberibe, CDU, Capibaribe e o Centrão. A retórica é contemporânea àquela dos funkeiros cariocas Cidinho e Doca no Rap da Felicidade, cujo desejo de autonomia se traduz em eu só quero é ser feliz/ andar tranquilamente na favela onde nasci.

A decisão entre ficar em casa e migrar para a sede central da indústria cultural, no eixo Rio-São Paulo, permaneceria como dilema para as bandas do mangue. O impasse ensaiaria dissipar-se mais tarde, quando grupos mineiros como Skank, Pato Fu e Jota Quest descobrissem que era possível ter repercussão nacional a partir de um quartel-general montado na Belo Horizonte natal.

O mangue não passou incólume às garras da indústria cultural, ao contrário. Por volta de 1993, a imprensa caiu de amores pelo movimento e superestimou sua maturidade. Trombeteou seus conceitos sem entendê-los completamente, mudando o nome para mangue “beat”, e não “bit”. O que era unidade informática (e informativa) virou levada, batida, onda, moda. O segundo álbum apanhou Chico desencontrado da sabedoria espontânea do início. Afrociberdelia (1996) parecia diluir e embaralhar à beira da confusão os mandamentos do mangue.

Embates de bastidor foram travados com a multinacional Sony, que elegeu para divulgar o disco a releitura de Maracatu Atômico, de Gilberto Gil e Jorge Mautner [*], uma canção que de mangue bit só guardava o nome e a referência ao ritmo. Ao que consta, a gravadora impôs ao grupo emendar no final de Afrociberdelia três versões mais comerciais e “dançantes” de Maracatu Atômico. Começava a se desvirtuar, muito cedo, um programa original que não tinha nada a ver com remixes, pistas de dança robotizada ou agrados aos tropicalistas (Gilberto Gil participou do segundo álbum).

Por essas e outras, Zero Quatro jamais chegaria a ser contratado por uma multinacional. Era de sua autoria o mantra Computadores Fazem Arte, do primeiro disco da Nação: computadores fazem arte/ artistas fazem dinheiro. Não era imediatamente compreensível à época, mas faz total sentido hoje, quando a elite “emepebista” se encastela enquanto rappers, funkeiros, tecnobregas e outros “micróbios” compõem e gravam em computadores caseiros e se lançam no próprio bairro. Fazem-no sem qualquer apoio da indústria oficial, mas vendem discos artesanais a granel, e se comunicam com milhões de ouvintes.

Science não teve tempo de decidir como reagiria às pressões e imposições. Morreu aos 30 anos, num acidente entre Recife e Olinda. No velório, Suassuna chorou diante do caixão e o corpo foi escoltado ao cemitério por um grupo de catadores de cana da Zona da Mata, vestidos como guerreiros de maracatu.

Afrociberdelia podia padecer de certa desintegração discursiva, mas guardava alguns maracatus de tiro certeiro. Manguetown voltava ao tema da origem (andando por entre os becos/ andando em coletivos/ ninguém foge ao cheiro sujo/ da lama da manguetown), sob a perspectiva atormentada de um proletário. Somos todos juntos uma miscigenação/ e não podemos fugir da nossa etnia/ índios, brancos, negros e mestiços/ nada de errado em seus princípios, cantava Etnia. Além de revalidar os fundamentos da frase “o medo da origem é o mal”, pressagiava os ventos de afirmação racial de hoje. Na brincadeira de que um curupira já tem seu tênis importado, cutucava sem querer a tragédia dos “curupiras” favelados e seu fascínio por tênis Nike, fontes de status e extermínio.

Sangue de Bairro elaborava nova lista de endereços periféricos de nomes brasileiríssimos, Besouro, Moderno, Ezequiel, Candeeiro, Cela Preta, Labareda, Azulão, Arvoredo, Quina-Quina, Bananeira, Sabonete, Catingueira, Limoeiro, Lamparina, Mergulhão, Corisco, Volta Seca, Jararaca, Cajarana, Viriato, Gitirana, Moita-Brava, Meia-Noite, Zabelê [*].

O mangue bit à maneira de Chico Science interrompeu-se com sua morte, entre problemas amontoados à frente de quaisquer soluções. O movimento dos moleques periféricos não resolveu impasses, nem a maioria daquelas mazelas se extinguiu de 1994 para cá. Mas o significado do pequeno levante talvez estivesse inscrito no CD de despedida, em Um Passeio no Mundo Livre, espécie de Rap da Felicidade em versão recifense (eu só quero andar/ nas ruas de Peixinhos/ andar pelo Brasil/ ou em qualquer cidade/ andando pelo mundo/ sem ter “sociedade”). Um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar, afirmava no início daquele maracatu cibernético. Foi isso o mangue bit. E Chico Ciência não viu, mas o Brasil hoje não se encontra onde estava há década e meia.

[*] contém erros. por favor, consulte o quarto comentário da caixa de diálogos abaixo.

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004)

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