Uma traição, uma despedida, um encontro que não aconteceu. Uma mulher ingrata, um casamento que se acaba, um desabafo de quem já não ama aquela que o magoou. Durante uma semana, traremos o perfil de sete cantores do gênero popular romântico, aqueles inseridos no que se convencionou chamar de brega.

Há, no entanto, um teor pejorativo no termo que não é assumido aqui (o Dicionário da Academia Brasileira de Letras,por exemplo, resume brega a algo “de mau gosto, cafona, sem refinamento”). Dizer que Bartô Galeno (foto abaixo), Evaldo Freire, Roberto Muller, Carlos André, Genival Santos, José Ribeiro e Augusto César têm uma produção não refinada é subestimar a capacidade desses artistas em se comunicar com um enorme público.

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Fotos Ricardo Labastier – JC Imagem

Escrevem e/ou cantam letras de alto teor dramático – e verdadeiro. É essa facilidade em expressar sentimentos, dúvidas, medos e paixões que restringe esses cantores “não rebuscados” a um lugar pouco prestigiado na mídia, como se nossa música popular brasileira fosse formada apenas por chicos, caetanos e jobins. Como se o amor, a perda e a felicidade só pudessem ser traduzidos em metáforas, aquilo que os torna acessíveis apenas a um público fechado.

CAPA_AltaNo entanto, apesar de serem classificados por um termo repleto de preconceito, esses artistas continuam a fazer shows em todo o país e a ter suas músicas tocadas nas casas e bares dos subúrbios, principalmente no Norte e Nordeste. São ainda homens que representam um outro momento da indústria fonográfica nacional, quando um único artista vendia milhões de discos (a exemplo de Carlos André, cantor de “Se Meu Amor Não Chegar, cujo LP vendeu um milhão de cópias em 1974), momento este que ruiu a partir de fenômenos como o mp3 e a venda de CDs caseiros.

Seus discos e músicas, aliás, continuam a ser estrelas nos carrinhos de camelôs vistos nas ruas ou em sites como o YouTube, dois “suportes” responsáveis pela formação de novos fãs do gênero. Importante dizer que os artistas trazidos aqui representam um amplo universo musical formado ainda por nomes como Luiz Carlos Magno, Reginaldo Rossi, Márcio Greyck, Odair José, Agnaldo Timóteo, Altemar Dutra, Fernando Mendes

Por questões de agenda e de espaço, trazemos aqueles que sintetizam com louvor esse exuberante gênero, artistas de um tempo em que eles, e não elas, se destacaram ao cantar seus sentimentos. São homens sem vergonha do amor, do bar, da lágrima, da despedida e do encontro que não aconteceu. Homens apaixonados e talentosos que fazem parte de nosso Clube dos Corações Partidos.

Sobre músicas que evocam nossos pais

“Essa música é a cara do meu pai.” Essa frase foi continuamente repetida durante o período no qual esta série foi produzida. Falava-se do cantor, às vezes da música, cantava-se um trechinho (“…’tenho medo que não sejas a flor do meu triste jardim’, lembra qual é?”) e imediatamente um pai surgia na conversa. Alguns estavam vivos, outros não. Alguns faziam parte da família, outros haviam abandonado a casa.

Ele, esse homem evocado, se parecia bastante com os cantores presentes neste especial: não se importava em demonstrar seus sentimentos. Mas há um porém. Evaldo, Zé Ribeiro, Genival e os outros artistas aqui presentes serviam (e servem) como espécies de mediadores para aquilo que o “chefe da família”, o homem que chegava às 18h depois de um dia cansativo de trabalho, nem sempre tinha coragem de dizer.

O pai, é claro, não chegava sozinho à memória: estava sempre acompanhado por outras imagens – todas verdadeiras, mesmo não sendo reais – que circundaram a infância. Manhã de sábado, dia de feira, arrumava-se a casa, a faxina acontecendo enquanto a música era ouvida em volume alto. Ele ia cuidar de algum conserto do lar.

Manhã de domingo, dia de lavar o carro ou a moto, ele abria uma cerveja, às vezes chegavam alguns amigos, “bota a caixa de som pra fora de casa”. Primeira lição: guarde o vinil dentro do plástico antes de colocá-lo de volta na capa. Segunda: drama tem que ser ouvido no último volume.

Por tudo isso, esta série é uma pequena homenagem aos pais: os evocados, os vivos, os mortos, os que continuam por ali lavando o carro, os que abandonaram o lar. É uma homenagem ao seu, que, mesmo ouvindo rock, ou jazz, ou MPB, certamente tem uma música romântica popular guardada em um canto do coração partido. É uma homenagem ao meu, seu José, que na minha infância colocava as caixas de som fora de casa (em dezembro, ele a pintava e enfeitava com luzes de Natal) e dizia a todos nós, bem alto e usando Evaldo, Zé Ribeiro e Genival, aquilo o que ele realmente queria dizer.

 

(Fabiana Moraes é jornalista e socióloga, repórter especial do Jornal do Commercio (Recife), autora de reportagens especiais como “Ave Maria“, “A Vida é Nelson“, “O nascimento de Joicy” (Prêmio Esso de reportagem em 2011) e “Os sertões” (Esso de Jornalismo em 2009). Publicou, no formato livro-reportagem, Os Sertões (2011) e Nabuco em Pretos e Brancos (2012). A série “O clube dos corações partidos” foi publicada originalmente no Jornal do Commercio.)

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