Nosso herói Chico Buarque afirma que esse dia não existiu, que essa conversa não aconteceu, que esta foto jamais foi tirada.

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E agora, Francisco? Trata-se de uma montagem providenciada por Paulo Cesar de Araújo? Confira aqui a versão do historiador e autor do excelente livro histórico sobre MPB Eu Não Sou Cachorro, Não – Música Popular Cafona e Ditadura Militar (ed. Record, 2000) – que Chico tem demonstrado publicamente detestar. Aqui, a versão de Chico no mesmo O Globo. E abaixo, o texto de Paulo Cesar reproduzido com os grifos e o pasmo geral de FAROFAFÁ.

 

“Foi com grande espanto que li, quarta, declaração de Chico Buarque aqui no Globo, afirmando que jamais me deu uma entrevista. Ou seja, ele alega que eu teria faltado com a verdade ao incluí-lo entre as fontes listadas na biografia Roberto Carlos em Detalhes. Ocorre que Chico Buarque foi, sim, uma das 175 pessoas que entrevistei para a pesquisa que resultou naquele livro. O artista certamente se esqueceu, mas ele me recebeu em sua casa, na Gávea, na tarde de 30 de março de 1992. E esta entrevista, com duração de quatro horas, foi gravada, filmada e fotografada. Falamos muito sobre censura, interrogatórios — creio que por isso ele escreveu, junto com o autógrafo que me deu na capa do disco Construção: ‘Para o Paulo, meu amável interrogador, com um abraço do Chico Buarque. Rio, março/92’.

“Naquela entrevista, Chico me falou sobre as principais fases e canções de sua carreira. Uma de minhas perguntas foi sobre sua relação com Roberto Carlos nos anos 60, quando ambos representavam polos opostos na nossa música popular — suas frases estão reproduzidas na página 184 da biografia que escrevi.

eu-nao-sou-cachorro-nao_paulo-cesar-araujo“No seu artigo o cantor também negou uma declaração dele que reproduzo no meu livro anterior, Eu Não Sou Cachorro, Não. No livro eu cito a fonte: Última Hora – SP, 28/06/1970 — mesmo jornal para o qual, em 1974, o próprio Chico daria uma famosa entrevista, sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide. Esta entrevista está no seu site. Resumindo: no seu artigo, Chico dá a entender que o jornal era desprezível, mas ele falava, sim, com seus repórteres. Pois bem. Ele disse no artigo ser impossível ter ‘criticado Caetano e Gil, então no exílio, por denegrirem (sic de FAROFAFÁ) a imagem do país no exterior’. Ocorre que a crítica registrada na Última Hora não tinha este viés nacionalista. O que ele criticava era o fato de os baianos usarem a condição de exilados para sensibilizar os ingleses e fazer sucesso: ‘Nos cartazes de publicidade que eles mandaram imprimir, consta que foram banidos do país. Isso é ridículo, querer vencer pela pena’.

“Registre-se que na época Chico andava mesmo afastado de Gil e Caetano por conta de rusgas desde a eclosão do tropicalismo — o que Chico confirmou ao Pasquim, em 1970. Trecho: ‘Eu perdi o contato com eles, perdi a amizade deles. Então eu não entendo mais se o Caetano é o mesmo que eu conheci’. Nesse mesmo papo com o Pasquim, Chico se mostrou também desconfiado da gravação de ‘Carolina’, feita por Caetano. ‘Eu ouvi o disco uma vez só e confesso que não gostei e não quis ouvir mais porque é um problema em que eu não estava a fim de ficar pensando: será que ele gravou de boa-fé ou de má-fé?‘. Portanto, neste contexto, acho bastante possível ele ter feito também aquela declaração sobre os baianos na Última Hora. Por isso, incluí sua declaração no livro. Faz parte do meu ofício de historiador”.

 

 

Atualização de FAROFAFÁ em 17 de outubro, às 14h10. Chico Buarque emitiu nota de desculpas a Paulo Cesar de Araújo, transcrita abaixo, com grifos nossos:

“Eu não me lembrava de ter dado entrevista alguma a Paulo Cesar de Araújo, biógrafo de Roberto Carlos. Agora fico sabendo que sim, dei-lhe uma entrevista em 1992. Pelo que ele diz, foi uma entrevista de quatro horas onde falamos sobre censura, interrogatórios, diversas fases e canções da minha carreira. Ainda segundo ele, uma das suas perguntas foi sobre a minha relação com Roberto Carlos nos anos 60. No meio de uma entrevista de quatro horas, vinte anos atrás, uma pergunta sobre Roberto Carlos talvez fosse pouco para me lembrar que contribuí para sua biografia. De qualquer modo, errei e por isto lhe peço desculpas.

“Quanto à matéria da Última Hora, mantenho o que disse. Eu não falaria com a Última Hora (de São Paulo) de 1970, que era um jornal policial, supostamente ligado a esquadrões da morte. Eu não daria entrevista a um jornal desses, muito menos para criticar a postura política de Caetano e Gil, que estavam no exílio. Mas o biógrafo não hesitou em reproduzi-la em seu livro, sem se dar o trabalho de conferi-la comigo. Só se interessou em me ouvir a fim de divulgar o lançamento do seu livro. Não, Paulo Cesar de Araújo, eu não falava com repórteres da Última Hora em 1970. Para sua informação, a entrevista que dei ao Mario Prata em 1974 foi para a Última Hora de Samuel Wainer, então diretor de redação, que evidentemente nada tinha a ver com a Última Hora de 1970, que você tem como fonte”.

 

P.S.: Se quiser conhecer mais detalhes e novos desdobramentos do caso, leia também o texto “Você escolheu errado seu supervilão“.

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