Se a Alemanha enfiou 7 no Brasil, então poderia ter ensacado uns 9 ou 10 na Colômbia? E uns 12 no Chile? E uns 18 em Camarões?

    Até uma lógica de criança parece fazer sentido hoje. Sim, em tese poderia. Mas certamente não faria, e poderia até perder, especialmente para a Colômbia. Por quê? Porque a Colômbia nunca chegou ao estágio de potência do futebol, nunca subiu tão alto e joga com a consciência de suas limitações. O Brasil já foi potência hegemônica, e até a Espanha o foi, durante o curto espaço de uns dois anos. Agora, quem é potência é a Alemanha, um time que, por ser mais cartesiano que os outros antigos super-poderes, desconhece o sentido da palavra misericórdia.  Confesso que admirei a sua voracidade, por um instante.

     O Brasil de ontem à tarde não tinha estudado suficientemente seu adversário, achou que poderia enfrentá-lo de igual para igual. Hoje em dia, a única força capaz de nivelar os times é a modéstia – o limitado Ituano já tinha mostrado isso na primeira manhã deste ano. A própria Costa Rica foi um símbolo dessa disposição. Já a nossa seleção teve o topete de escalar um “substituto” para Neymar, mantendo o mesmo esquema tático, um quase suicídio frente a um adversário muito superior. Acho que foi o Kroos que declarou: “Vimos que eles estavam desnorteados e nos aproveitamos disso”. Muito justo.

      Não ia escrever nada sobre o jogo, ia apenas colocar pó de café em cima da ferida, como minha mãe fazia, para cicatrizar rápido. E não escrevo para justificar ou entender a derrota. Ela é suficientemente estupefaciente, acachapante, o que quiserem. Escrevo porque vi a agonia das crianças frente a uma situação que seus pais não podiam explicar ontem. O menino de óculos no Mineirão, chorando e espremendo o copo de coca-cola enquanto chovia gols em cima de seu time no gramado me empurrou para esse front. Os emoticons chorosos da minha filha no meu telefone.

   Escrevo também por que vejo a coragem de meus amigos nas redes sociais, enfrentando, como que numa força brancaleônica de resistência, a euforia do pensamento fascista que emergiu com a derrota, e que pretende nos impor certo determinismo derrotista. Essa legião do “nascemos para perder” nos fustiga desde tempos imemoriais. Eles aparecem quando o Massa bate o carro na última volta, quando o vôlei perde depois de 10 anos ganhando, torcem pela queda da Daiane dos Santos e até quando o Senna se estatelou numa curva eles vieram com o “eu não disse?”.

     Meus amigos sabem que não pode haver rendição frente a essa turba. Ela “cola” na sua conclusão uma ética de sobrepujamento, entre outras. Questão de princípio. Sempre me emocionei com esforços de resistência, seja no mundo real, como no estilingue dos palestinos, até o mundo da ficção, em filmes como Furyio, de Nagisa Oshima, até Casablanca, Star Wars, o que for.

      Ontem nós abrimos uma Seleta e pedimos um sashimi para tentar exorcizar um pouco da dor, mas o Juva confessou que não estava conseguindo mastigar. Duro demais. Nos reunimos para tentar entender a derrota, esperando que fosse uma espécie de cometa Haley que só passa a cada século. Isso também é torcer.

     Posso estar exagerando (talvez o baque de ontem tenha colaborado para esse extremismo), mas a bravura do Nuno, do Dodô, de uns poucos, combatendo essa noite no Facebook com humor e doce convicção os eufóricos da derrota, me lembrou um trecho do livro Vinho & Guerra. Ali, se narra o diálogo que o então prefeito de Paris, Taittinger, manteve com o comandante nazista durante a ocupação da França. O triunfante Coronel Von Choltitz tinha ordens pessoais de Hitler de dinamitar toda a cidade. Chegou a colocar dinamite na Madeleine. Taittinger, sabendo do plano, levou o comandante até a sacada do seu hotel na frente do Jardin des Tuilleries e perguntou: “Você quer passar para a História como o homem que destruiu a Cidade Luz ou como o homem que a poupou?”. Vocês sabem o que aconteceu, Paris está lá intacta.

      Uma das perguntas dos mais novos, notei hoje observando uns garotos na feira, é a seguinte: “Nosso futebol é essa merda toda? É mesmo irrecuperável?” No momento, é. Não há subterfúgio ou anestésico para amenizar essa dor e essa realidade. Sou santista, sei do que estou falando. Em 2005, perdemos para um time infinitamente superior do Corinthians por 7 a 0, fora o baile. Aquela derrota ainda dói na terceira vértebra lombar. Depois dela, a impressão era que o Santos estava fora do mundo do futebol, devastado, reduzido ao status de um Íbis. Mas não existe, felizmente, o aniquilamento total no futebol. Em 2011, fomos de novo campeões da Libertadores, revelamos Neymar e Ganso, renascemos. Ainda este ano, enfiamos 5 a 1 no mesmo Corinthians (dava até para devolver mais uns dois), já campeão mundial, e olha que tínhamos um time nitidamente inferior – em poderio econômico e personagens.

      Não quero dizer com isso que devemos alimentar a ilusão de devolver esse placar aos alemães. Seria insanidade. Os placares muito dilatados não são regra do futebol, eles ocorrem em situações de grande alienação: o desconhecimento do poderio adversário, a desconfiança nos próprios recursos, a fé superior em elementos extra-campo. Os meninos vão esquecer logo, é próprio da idade. Já estarão rindo amanhã e saberão que a alternância no topo não é uma tragédia em si. O importante é Paris continuar intacta.
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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017) e Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019)

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