Edimilson de Almeida Pereira
Finalista do Prêmio Jabuti de 2018, Edimilson de Almeida Pereira lança antologia poética

Autor mineiro se destaca pelo rigoroso exercício de afrouxar condicionamentos literários do poema e do pensamento 

Professor de literatura portuguesa e literaturas africanas na Universidade Federal de Juiz de Fora e finalista do prêmio Jabuti em 2018, o poeta e ensaísta mineiro Edimilson de Almeida Pereira vem construindo, desde o alvorecer dos anos 00, uma obra fundada não somente no rigor, no aprofundamento, mas principalmente na necessidade de se libertar dos cânones da literatura branca, formulaica, propondo o poema “que desacata Gregório de Mattos, Macunaíma e François Villon”. Com o lançamento do livro Poesia + (Antologia 1985-2019), ele organiza um painel ainda mais abrangente de sua batalha pela reconquista dos significados, articulando os sinais de sua própria formação literária. 

“Texto que escrevo devora/ a devoração por princípio”, escreve Edimilson, de 56 anos, no poema Oficial e Ofício. Para alcançar sua proposição libertária, o escritor mineiro se vale de uma pesquisa vertiginosa que envolve ancestrais das comunidades quilombolas de Mato do Tição até blues ancestrais cantados por Bessie Smith (como Blackwater Blues), das pesquisas etnológicas de um Pierre Verger aos conterrâneos literários. “Os camaradas, Drummond, não disseram que havia uma guerra mas, apesar do oceano, os mortos anônimos nos pertencem”.

Superposição da vida à obra

Sua poesia é também um exercício de crítica contra as próprias armadilhas do ofício poético (quando não um esforço de recondicionamento estético). “O bosque escuro da metáfora, quando muito centeio, que pão nenhum será. Eles tiram o que não merece crédito de onde nada se deve esperar.” Outra evidente crítica à superposição da vida à obra está em O Poeta de Mão Escassa: “Procura um porto, talvez o de Plath, apenas de embarque. Vai matar-se, mas esquece os livros”.

Nessa mistura de insubordinação e desafio, funda-se o charme da literatura de Edimilson, evidentemente uma avis rara na nova poesia nacional. “A poesia cobre a última desonra. Ela, por não sorver além de si, perdura e morre”, escreve, em Não Leias Como Eles.

Politizado e erudito, o autor não escapa à agonia contemporânea do avanço das forças autoritárias no Brasil atual, mas sua leitura é sempre muito acurada: “Meu país, angariado aos insensíveis, chora pelos ouvidos”. 

Edimilson é autor de uma obra abrangente, com livros publicados nas áreas de poesia, literatura infanto-juvenil e ensaio, obra na qual se destacam Zeosório Blues (2002), Lugares Ares (2003), Casa da Palavra (2003) e As Coisas Arcas (2003), Relva (2015), Maginot, o (2015), Guelras (2016) e Qvasi (2017), estes de poesia, e Os Reizinhos de Congo (2004) e O Primeiro Menino (2013); Malungos na Escola: Questões sobre Culturas Afrodescendentes e Educação (2007) e Entre Orfe(x)u e Exunouveau: Análise de uma Estética de Base Afrodiaspórica na Literatura Brasileira (2017).

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