Longa de animação que estreia nas plataformas de VOD e TVOD revisita o pesadelo da vida sob a mira dos extremistas

Longa de animação que estreia nas plataformas de VOD e TVOD revisita o pesadelo da vida sob a mira dos extremistas

Uma das primeiras cenas impactantes do longa-metragem de animação Os Olhos de Cabul é o apedrejamento de uma mulher de burca por uma multidão enfileirada pelos talibãs. Pareceria um filme sobre a Paixão de Cristo, não fossem os guerrilheiros com AK-47 observando sentados em cima do capô de um carro, palitando os dentes, debochados. Um mulá profere um discurso antes, falando sobre o “crime” da fornicação e a tibieza de se fechar os olhos para as promessas do além vida. Então, quando a cerimônia finda, os populares pegam as pedras e as atiram. Uma criança quase bebê tenta arremessar uma pedra e cai, causando risos nas outras. Finalmente, a mulher tomba, e o sangue empapa a burca azul e a tela como uma tinta que extrapola o desenho, lindas aquarelas de esparso movimento.

Os olhos de Cabul cria lenta e dolorosamente o pesadelo da vida comum sob o duplo arbítrio: o da força e o da religião extremista. Como se alimentar, cuidar dos filhos, apurar os dotes de cartunista, ler e ouvir a boa música sob tal qualidade de opressão? Cenas de teatros, livrarias, cinemas em ruínas passam pelos protagonistas da história, Zunaira e Mohsen (o outro casal é formado pelo carcereiro Atiq e Mussarat).  Rir é proibido, assim como vestir sapatos brancos ou ousar ser feliz. O rigor comportamental é evidentemente um ferrolho da tirania, que leva a sufocar a humanidade e o sentimento. O que acontece após se jogar a primeira pedra?

Longa erigido em moldes semelhantes ao memorialístico Persépolis, de Marjane Satrapi, já um clássico incomparável, Os olhos de Cabul penetra num universo ainda pouco visitado pela arte, a penúria do Afeganistão nos anos 1990, o espírito do País após invasões sucessivas e arbítrios incomensuráveis de russos, americanos e finalmente o Talibã, seu torniquete de loucura doméstico. É uma adaptação do livro As Andorinhas de Cabul, de Yasmina Khadra (2002).

A animação teve estreia mundial no Festival de Cannes ano passado, na mostra Un Certain Regard, e venceu o Gan Foundation Award for Distribution, no Festival de Cinema de Animação de Annecy (2019). Aqui, entra em cartaz no Cinema Virtual (cinemavirtual.com.br), nova plataforma de VOD para filmes inéditos, e a partir de 11 de junho nos serviços Net Now, Apple TV, YouTube Play, Vivo Play e Google Play. 

Os Olhos de Cabul (Les Hirondelles de Kaboul, França, 2019). De Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévellec, 81 minutos. 

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