Luís Fernando Mifô. Reprodução
Luís Fernando Mifô. Reprodução

Quando assumiu a secretaria de Cultura do governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, Roberto Alvim convocou artistas conservadores, a fim de criar uma “máquina de guerra cultural” – nunca ficou claro o que seria isso ou como funcionaria e o titular não durou muito na pasta, sendo substituído por Regina Duarte, que teve o mesmo fim.

Fosse o mundo binário, poderíamos afirmar que arte e cultura são coisas de esquerda. O fato é que, a despeito de discursos de ódio e que tais terem cada vez mais deixado os armários, estimulados por discursos e comportamentos do invasor do Palácio do Planalto, no campo artístico as pessoas ainda têm certo pudor em assumir posturas e rótulos conservadores e reacionários.

O desprezo às artes, à cultura e ao pensamento em geral é uma das características do fascismo. Tal qual na ditadura instalada no Brasil em 1964, é justamente do campo artístico que vêm as reações mais contundentes ao atual estado de coisas brasileiro.

Recém-formada em Curitiba/PR, a Banda Borralheira disponibilizou sexta-feira passada o segundo videoclipe da Trilogia dos palhaços, a música “Cidadão do ano” (Léo Borralheira/ Thiago Borralheira) – na sequência de “Um maníaco no poder” –, cuja contundência se volta contra Bolsonaro e aqueles que, a despeito de um ano e meio da tragédia cotidiana que é seu governo, seguem chamando-o de mito e idolatrando-o.

No videoclipe eles se valem da autoironia, tirando um sarro dos haters de plantão: comentários cheios de ódio de robôs detratando a banda comparecem à tela. “Não esperávamos uma reação tão rápida e raivosa. Lançamos a música com o vídeo e dias depois ganhamos certa visibilidade. Acreditamos que conseguimos chamar a atenção de um grande grupo de apoiadores do Bolsonaro, pois em pouquíssimo tempo, questão de horas, recebemos uma enxurrada de dislikes e comentários ofensivos. Gente que nem assistia o vídeo, passava só pra xingar mesmo… Bloqueamos os comentários da página, o que deixou essa turma ainda mais enfurecida. E propositalmente resolvemos guardar todos para inserir no novo clipe que tinha como alvo eles próprios”, revela o baixista e vocalista Thiago Borralheira.

Ele comenta o endereço certo das críticas da banda. “É impossível ficar calado diante da aniquilação cultural, do genocídio e do retrocesso que o país vive, do discurso de ódio, do racismo e de tudo que vai contra o bom senso. A nossa ideia de Borralheira é dar voz a quem precisa. E todos nós precisamos. Inclusive os que não enxergam o que o Bolsonaro está fazendo. Temos uma oposição enfraquecida, sem voz e liderança. Enquanto a direita é articulada e ataca nosso som, xinga, fica puta e enfurecida, quem gosta do nosso som, se identifica e tal, parece que não faz muito pra ecoar esse discurso. E isso pra nós é o puro reflexo da oposição. O que precisamos no momento é unir todas as tribos que são contra esse governo. E cantar alto, seja o que for. Poder contribuir com isso é maravilhoso. E se o Bolsonaro cair e aparecerem outros, serão eles nossas musas inspiradoras. Nunca vai faltar motivos pra gente existir e compor”, diz.

Ainda sem data de lançamento anunciada, a próxima música – “Ninguém vai calar” –, que fecha a Trilogia dos palhaços, prevê a queda de Bolsonaro. “Ela fala justamente da reação. Do levante, do quanto é importante estarmos juntos, reunidos, coesos e preparados pra contra-atacar o fascismo velado que assola nosso país”, comenta.

Um episódio que ocupou o noticiário e comoveu o país, a morte do menino Miguel, de cinco anos, após cair do nono andar de um prédio no Recife/PE, inspirou o cantor e compositor Beto Ehong. “Procurando a mãe”, que o artista dedica à vítima do racismo e do descaso, é o terceiro single de “Beat by beat”, seu próximo disco, e conta com a participação especial de Emanuele Paz. “O Brasil é uma criança no elevador procurando a mãe”, diz o refrão.

“O racismo sempre esteve lá, ajudou e ajuda a montar toda a estrutura social e jurídica do país, um país construído pelo preconceito e a intolerância. Mas a maneira como isso vem sendo exposto e banalizado, inclusive por pessoas que na teoria deveriam ter uma boa instrução humanista, já que passaram por universidades, assusta ainda mais. No poder central há um grupo que não apenas faz questão de deixar claro seu posicionamento em favor do racismo e outras estupidezes, mas usa esse poder pra incentivar esse tipo de comportamento, o que deixa tudo ainda mais nefasto”, comenta Ehong.

Ele resume a questão: “O crime que envolve o garoto Miguel é muito simbólico, é uma grande analogia: uma família negra que ao menos há duas gerações cuida dos filhos, da casa e dos bichos da família branca, enquanto a patroa faz as unhas. É isso o que ocorre no Brasil desde sua invasão ha mais de 500 anos. E é isso que o bolsonarismo ajuda a expor: a pior face do brasileiro, o brasileiro racista, entreguista, homofóbico, machista, covarde e sectário”.

Conhecido por suas charges políticas e humor ácido, o desenhista paraibano Luís Fernando Mifô – que comparece aos protestos que encerram o vídeo – presenteou Beto Ehong com um cartaz para o videoclipe, lançado semana passada.

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