Caetano Veloso em cena de Narciso em férias, documentário sobre sua prisão pela ditadura em dezembro de 1968

Uma longa entrevista de 1h30 num lugar que parece uma câmara frigorífica, na frente de um muro de concreto, com a imagem do entrevistado basicamente entre o primeiro plano e o meio primeiro plano, pode ser considerada cinema? Narciso em férias, o documentário de Renato Terra e Ricardo Calil que foi exibido pela primeira vez ontem, 7, no Festival Internacional de Cinema de Veneza parece, de cara, provocar deliberadamente esse antigo debate: O que é cinema? Qual é o cinema “rico” e qual o cinema “pobre”, em termos de recursos formais? A que se presta o cinema, elucidação ou reiteração?

Para radicalizar ainda mais tal debate, há a questão de que é ninguém menos que Caetano Veloso o entrevistado, e só são “tocadas” duas músicas do compositor e cantor durante todo o tempo do filme: Irene e Terra (essa, na verdade, serve para subir os créditos no final). As outras músicas são Súplica, de Orlando Silva, mãe de toda a simbologia inicial, e Hey, Jude, dos Beatles.

Outro princípio assumido pelos diretores é não dar demasiada importância ao didatismo. Quando Caetano cita algumas canções e personagens, como a música Onde o azul é mais azul, o filme não se preocupa em oferecer a elucidação disso, colocar uma legenda dizendo tratar-se de uma música de Braguinha, por exemplo. Ou quando ele fala dos dois livros que lhe deu no cárcere o editor Ênio Silveira (O Bebê de Rosemary, de Ira Levin, de 1967, e O Estrangeiro, de Albert Camus, de 1942), não há uma interferência informativa qualquer na edição.

Não se procura estabelecer nexo causal entre as informações que Caetano vai desfilando – o “falso” Antonio Callado, o encontro com Perfeito Fortuna na cadeia, a identidade do detento pernambucano que os dividiu na solitária em São Paulo. Na fórmula mais investigativa que consagrou o gênero documentário, a confirmação de que a denúncia que os levou à prisão foi a do apresentador Randal Juliano, durante o programa Guerra é Guerra, na TV Record (a bravata de que teriam deturpado o Hino Nacional Brasileiro durante uma apresentação na boate Sukata, no Rio de Janeiro), teria tido desdobramentos. O show era de Caetano e Gil, na prisão, mas o que houve com os Mutantes, também no elenco, depois daquilo? Como se relacionam os interrogatórios dos dois detidos pelo mesmo “crime”?

Em alguns momentos, o documentário “editorializa” as aproximações temporais e as reflexões sociopolíticas de Caetano com o momento do Brasil atual, e não há nenhum pudor em esconder essa intenção. É um manifesto, e não há conflito entre essa condição e a da cinematografia. Isso porque Terra e Calil parecem ter decidido que a entrevista que tinham em mãos era tão coesa, tão pontualmente importante e tão funcionalmente estética que não era preciso recorrer às fórmulas tradicionais de “dramatizar” um documentário. Caetano está trêmulo na maior parte das cenas. Esforça-se para parecer seguro de si, confiante na força da autodeterminação intelectual contra a patética marcha do autoritarismo, mas ele mesmo não parece confiar muito nisso. Sabe que a imagem que mais define o confronto entre civilização e barbárie é aquela do general que primeiro os recepcionou no cárcere, sem dizer palavra, sentado numa mesa à sua frente, mas distante, e que pediu um jantar aos subordinados e jantou sem cerimônia com os dois imóveis, sentados, cativos e sem arbítrio, ali no salão.

Em Narciso em férias, Caetano passa por uma experiência análoga à visita a um campo de concentração ou ao Museu do Holocausto, em Jerusalém: o absurdo da violência que sofreu é revivido em uma turnê guiada, como que se lhe fosse dada a oportunidade de decidir em qual medida aquilo o afetou. E, nas frases soltas, constroi a própria estupefação de sobrevivente. “Me senti ressequido, espiritualmente ressequido”, diz. (Pensei) que a vida era só aquilo, e que eu tinha tido um sonho das outras coisas”. E, mais dilacerante, logo no final, frente ao espelho: “Não é que eu não sabia quem era, eu não sabia o que era aquilo”.

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