A cantora e compositora Regiane Araújo. Foto: Emanuelle Rebêlo
A cantora e compositora Regiane Araújo. Foto: Emanuelle Rebêlo

A cantora e compositora Regiane Araújo lançou videoclipe em que solta a voz contra todas as cercas e qualquer forma de opressão

Ainda lembro do impacto que me causou ouvir Regiane Araújo pela primeira vez, num palco do Festival BR-135, na Praça Nauro Machado, Praia Grande, centro histórico de São Luís do Maranhão. A moça exalava uma força incomum no canto e na composição, com versos contundentes, carregados de insatisfação com o status quo e da vontade de contribuir para mudar o triste estado de coisas brasileiro a partir da arte.

De lá para cá, vi-a noutros palcos, por exemplo em participações em shows da Orquestra Guajajaras, e as coisas se intensificaram: Regiane Araújo, graduada em Ciências Sociais, continuou sendo uma voz contra qualquer forma de opressão, e o Brasil continuou se apequenando desde o golpe misógino que destituiu Dilma Rousseff do poder.

A pandemia do novo coronavírus impediu os planos originais que ela tinha para o videoclipe de “Tirem as cercas”, lançado semana passada com show no Secreto Bosque (Turu). Ela e a equipe responsável por sua realização – encabeçada pela diretora Thais Lima – acabaram se reinventando e realizando um trabalho que amplia o poder de alcance da música, que conta com as participações especiais de Núbia e Débora Melo, o que aponta também para a perspectiva do empoderamento feminino.

Regiane Araújo conversou com exclusividade com Farofafá.

A cantora e compositora Regiane Araújo em still de "Tirem as cercas". Foto: Emanuelle Rebêlo
A cantora e compositora Regiane Araújo em still de “Tirem as cercas”. Foto: Emanuelle Rebêlo

ZEMA RIBEIRO – Finalmente o videoclipe de “Tirem as cercas” foi lançado. Como foi fazê-lo em meio à pandemia que ainda limita algumas atividades e a circulação de pessoas?
REGIANE ARAÚJO – Foi desafiante em vários aspectos. Quando pensei em um videoclipe para “Tirem as cercas” já tinha em mente, antes da pandemia, que seria necessário gravar nos lugares onde minhas memórias afetivas e experiências se construíram e que deram a base para escrever a canção. Que seria nas aldeias, nos quilombos, onde até hoje tenho contato e relações, no intuito de construir uma narrativa que de fato evidenciasse o existir desses territórios, suas pautas, suas lutas. O que acabou não sendo viável por conta da covid-19. A partir desse impedimento, as locações, o roteiro, tudo em torno do clipe foi retrabalhado a partir da limitação que a pandemia nos impôs. E no diálogo com Thais Lima, a diretora, produtora e roteirista do clipe, todo o processo foi direcionado para ser realizado em locações que trouxessem a simbologia e a representatividade do que está na canção. Contando com essas limitações escolhemos lugares simbólicos. Quem assistir ao clipe poderá ver a conexão forte da narrativa com a natureza, com espaços que trazem a simbologia da resistência e da luta pelo bem viver. E a maioria das locações em que foi possível trabalhar nesse contexto pandêmico eram locais bem abertos, onde tinha a livre circulação do vento. O que era extremamente favorável para toda equipe. Outro aspecto extremamente desafiador foi construir um videoclipe dessa magnitude, com toda a complexidade de uma obra trabalhada na linguagem do cinema e poder contar com uma quantidade super reduzida de pessoas na equipe, por seguirmos as recomendações da OMS de não ultrapassar a quantidade de pessoas permitidas durante os sets de filmagens. O que triplicou o trabalho para todxs envolvidos, sobretudo a direção e a produção. E além desses aspectos, se já era difícil tocar para frente, antes da pandemia, projetos artísticos que contam com a produção independente, com recursos próprios, durante a pandemia as dificuldades aumentaram ainda mais.

Tua música foi composta antes, mas é lançada num momento em que a Amazônia e o Pantanal ardem em chamas. A seu ver, isso torna o apelo de “Tirem as cercas” ainda mais urgente e contundente?
“Tirem as cercas” foi feita há algum tempo e essa conexão forte da música com o que estamos vivendo hoje em relação às queimadas na Amazônia, e também a toda violência que os povos e comunidades tradicionais no Brasil inteiro têm enfrentando durante o período da pandemia me mostra que falar sobre isso, seja através da arte, da música, dos protestos vai ser urgente em qualquer tempo. Pois historicamente temos visto a Amazônia sendo violada. É também histórico e uma pauta antiga a violência constante contra os territórios indígenas e quilombolas não só no Maranhão, mas no Brasil inteiro. Embora tenhamos a consciência de que este tempo esteja sendo mais tenebroso que outrora, sobretudo pelas diretrizes políticas do atual governo federal, que escancara o desrespeito, e dá vazão para que crimes como estes não sejam levados em conta. Do final do ano de 2019 para 2020 tivemos vários casos de assassinatos de lideranças indígenas aqui no Maranhão. Em agosto desse ano, concomitante ao final das gravações do clipe, Cajueiro, que é uma das nossas locações justamente pela sua história de resistência e luta, completou um ano desde que estivemos junto com a comunidade para tentar impedir o despejo das 80 famílias que foram despejadas do seu território e tiveram suas casas destruídas por causa do empreendimento privado da construção do terminal portuário naquela região.

A música e o clipe transparecem também a questão do empoderamento feminino, quando você canta com duas convidadas especiais: Núbia e Débora Melo. Como se deu esse processo de escolha?
Antes de gravar “Tirem as cercas” tive a oportunidade de cantá-la num evento cultural realizado pelo grupo de estudos da UEMA a que sou vinculada [o Lida – Lutas Sociais, Igualdade e Diversidade]. No Lida é que foi possível, tanto as experiências que tive nas aldeias e nos quilombos, pelo fato de o grupo trabalhar há mais de 10 anos nessas frentes, quanto a amizade construída com Débora Melo, que é vinculada ao grupo e é uma grande amiga desde o período da graduação em Ciências Sociais. Além do envolvimento acadêmico sempre tivemos uma veia forte para unir a arte nesses processos, então foi durante uma atividade cultural muito especial do Lida que me planejei para mostrar a canção “Tirem as cercas” para todos os meus amigos e convidei Débora Melo para fazer o slam para a canção. A partir de então, em todas as oportunidades que tinha, Débora recebia meu convite para se apresentar junto comigo quando precisava cantar “Tirem as cercas”. Meses depois recebi o convite do Sobre o Tatame Sessions para mais uma das edições de shows e tive o prazer de dividir o palco pela primeira vez com Núbia. A feat entre nós foi mediada pela programação do Sobre o Tatame a pedido meu, pois já conhecia o trabalho da Núbia e, assim como Débora, ela era uma fonte de inspiração e referência para mim, sobretudo por ser mulher, negra e regueira. E foi nessa oportunidade que subimos ao palco, dentro do CCVM [o Centro Cultural Vale Maranhão], pela primeira vez, as três juntas, para cantar “Tirem as cercas”, e desde então essa canção se tornou um veículo para representar o potencial da figura feminina na música e na poesia. E se tornou uma noite de protesto que ficou marcada para nós três e todxs que estavam nesse dia. Sobretudo, pelo show seguinte ter sido impedido de continuar por conta dos posicionamentos feitos durante o meu show, de denúncia contra os empreendimentos que afetam e violam as comunidades quilombolas no Maranhão. Quando Thais Lima lançou a proposta para ela dirigir e produzir um clipe meu, a canção “Tirem as cercas” já estava gravada, contando com a feat de Núbia e Débora. Quando sugeri que a canção para o clipe fosse “Tirem as cercas”, fiquei feliz em saber que Thais Lima tinha conhecimento daquela apresentação que havia feito com Núbia e Débora. A  memória dessa nossa apresentação e todo o processo que levou a música “Tirem as cercas” a ser feita foi recebido com muita sensibilidade pela Guajajara Filmes e por toda a equipe, extremamente sensível, de homens e mulheres mobilizados por ela para construir essa obra. A história e a força da canção, a importância dessa música ser executada por mulheres tão fortes e talentosas foi bem representada através da direção, produção e roteiro da Thais Lima, que também trouxe ao elenco mais mulheres fortes, através da roda de capoeira feminina, o que só potencializou ainda mais “Tirem as cercas”.

A tua formação em Ciências Sociais, a seu ver, ajuda na consciência política que permeia tua obra e particularmente “Tirem as cercas”?
Sem dúvidas. Duas canções autorais minhas respondem diretamente a um período de amadurecimento pessoal e também de consciência crítica e política experimentadas durante a minha graduação, as canções “Margens”, do meu primeiro EP, e “Tirem as cercas”. Muitas pessoas passam por uma graduação como essa e não conseguem ser afetados profundamente. E tenho em mente que o que me permitiu experimentar a graduação de uma forma não superficial e me deixar ser afetada mais profundamente por tudo o que um curso como esse pode trazer foi, desde o começo, ter tido o privilégio de me envolver num grupo de estudos como o Lida. Que não era só um grupo de estudo, mas um coletivo, um movimento que compreende a pesquisa, os estudos, mas também os afetos e o comprometimento por causas sociais tão caras e importantes. E cabe aqui ressaltar mais uma vez a figura de uma importante mulher que foi e é minha formadora  e que é coordenadora do Lida, a professora Marivania Furtado. No Lida atuei como bolsista de iniciação científica por dois anos, unindo a pesquisa e também a militância, parceria, assessoria e apoio às pautas do Movimento Quilombola do Maranhão. E dessa relação é que foram possíveis as viagens para dentro dos quilombos e o conhecer da realidade desse movimento. Anos depois o Lida assumiu a coordenação e secretaria da primeira licenciatura indígena do Maranhão, onde tive minha primeira experiência de trabalho na área das Ciências Sociais, inicialmente como secretária e, posteriormente, como assistente de coordenação desse grande projeto. E foi trabalhando com a educação superior indígena, através Licenciatura Intercultural Indígena, que tive o privilégio de conhecer ainda mais os territórios indígenas e entender mais de perto suas realidades, demandas e enfrentamentos. Foram dessas experiências “na Lida” [aspas e trocadilho dela] que se tornou possível escrever: “Tirem as cercas/ deixem as flores/ que pintam de todas as cores,/ toda liberdade da paz e do lar:/ território livre já!”.

Eu consegui identificar o sítio Piranhenga e o Rio Una, em Morros, entre as locações do videoclipe. O primeiro tem uma carga de identificação com questões trazidas à tona na música. Onde mais foram feitas as cenas e como se deu essa escolha?
Ao total foram seis locações, que incluem o Sítio Piranhenga, Rio Una, MHAM [o Museu Histórico e Artístico do Maranhão], Cajueiro, Paço do Lumiar e Estúdio da Escola de Cinema do IEMA [o Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão]. “Tirem as cercas” fala da opressão ao mesmo tempo que fala do lugar da liberdade, da paz, daquilo que tem  que ser protegido. As locações, elas dialogam com essa ideia. Como se estivéssemos fazendo um percurso, passando pelos lugares ou situações que nos oprimem e elevando para o encontro da liberdade, de onde se grita para tirar as cercas. De onde você tira a força necessária para continuar gritando: tirem as cercas! Por isso as cenas no Rio Una, em Morros, são de uma simbologia que conecta à natureza, ao rio, ao verde, àquilo que vemos dentro de muitos territórios tradicionais. Assim como as gravações feitas em Cajueiro. Ficamos limitados, pela pandemia, de fazer o registro dentro das comunidades, mas era importante registrar alguma comunidade e Cajueiro foi a única em que pudemos filmar, tanto pela sua história de resistência e também por ser bem próxima de São Luís. Pelas limitações da pandemia fizemos as cenas em um local que não tinha interações com as pessoas da comunidade.

Lançar videoclipes e singles tem sido uma tendência destes tempos. Você pretende lançar um álbum? Em formato digital ou físico?
Eu pretendo sim lançar um álbum, “Tirem as cercas” é o primeiro single desse álbum. Tem sido muito mais estratégico para nós, artistas, trabalhar com singles e posteriormente lançar um álbum. Já estou no processo de composição das canções para meu novo álbum, que pretendo lançar tanto fisicamente como nas plataformas digitais. E vou me preparar para novamente realizar um grande show de lançamento desse álbum, bem como continuar as produções de videoclipes também. A ideia é não parar mais e tocar todos os projetos para frente, se desafiar e superar as dificuldades existentes e que se impõem sobre qualquer artista que não conta com qualquer tipo de patrocínio e que tem produzido mediante todas as dificuldades que esse período nos apresenta.

Você é uma nova voz bastante antenada com a realidade e com as questões políticas de seu tempo, o que se reflete em tuas letras. Que artistas te influenciam e com que artistas de tua geração você dialoga nesse sentido?
Confesso que “Tirem as cercas” é uma música bem diferenciada em relação às minhas obras anteriores e realmente responde a experiências muito particulares e subjetivas. Mas posso afirmar que minhas principais referências para compor uma música como essa e também como artista que compõe sobre qualquer outra coisa vêm daqui de São Luís do Maranhão. O envolvimento com amigxs queridxs e talentosos do Lida, das artes e da poesia, da música. A própria Núbia é uma grande referência, Débora Melo e tantxs outrxs artistas. E nesse processo de amadurecimento, enquanto pessoa e como artista, que se propõe a desconstruir e descolonizar a mente e os ouvidos, tenho investido tempo para escutar cantorxs negrxs, valorizar o que é produzido no Maranhão e no Nordeste, então tem uma série de novos artistas que têm sido também fonte de inspiração como Luedji Luna, BaianaSystem, Josyara, Xênia França, As Bahias e a Cozinha Mineira e por aí vai.

Do ponto de vista criativo, para além da realização do videoclipe de “Tirem as cercas”, como tem sido lidar com o isolamento social imposto pela pandemia da covid-19?
Para falar a verdade eu estava um caco antes de encontrar Thais Lima, antes de receber o convite da Guajajara Filmes para reinventar esse isolamento e transformar esse período em um potencial criativo. Enquanto estava isolada, passei a escrever poemas espontaneamente, compor algumas outras coisas. Acho que para muitos artistas esse período de isolamento foi gatilho para alimentar sentimentos não tão bons de angústias, ansiedade. Sei que não está sendo um momento fácil para todxs que foram afetados financeira e psicologicamente pela pandemia. Mas percebi que muitos de nós acordamos para realmente concentrar energias no que é importante. Investir em projetos que estavam engavetados. Desde e começo do ano, antes da pandemia, tinha me planejado para investir 2020 inteiro em minhas canções, nos singles e no álbum. Nos primeiros meses de pandemia fiquei inerte e estática. Mas depois que começou todo o processo de gravação do clipe, foi como ter renascido. E mesmo diante das dificuldades quero aproveitar esse gás que o lançamento de “Tirem as cercas” está dando e continuar colhendo bons frutos e alimentar essa força que vem de dentro para não desistir dessa caminhada.

Além das cercas da questão agrária de que tua música fala diretamente, ela aponta também para a necessidade de derrubar as cercas erguidas pelo machismo e pelo racismo. Andamos para trás neste sentido, com o desmonte de políticas afirmativas pelo governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro?
Com certeza. Estamos diante de um governo que é incapaz de pensar e projetar ações políticas para o país que tenham em sua base o respeito e consciência pelas pautas que avançam na desconstrução do racismo e também do machismo. Não há intenção de compreender que o racismo no Brasil é estrutural, que a desigualdade de classes e o machismo também são. Então a gente tem que sobreviver mesmo, engolir que cota para esse governo é privilégio para pretos, que proteger a Amazônia e os territórios étnicos é atrasar a economia do país. Que indígenas e quilombolas precisam ser incluídos, “integrados” [aspas dela] no desenvolvimento. Um desenvolvimento que sabemos onde acaba: destruição, desmatamento e aniquilamento de territórios sagrados.

Veja o videoclipe de “Tirem as cercas”:

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome