Se há um denominador comum entre a música de Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Miúcha, Gal, Elza Soares, Roberto Carlos, Ney Matogrosso, Cássia Eller, Tom Jobim, Dorival Caymmi, ele atende pelo nome de Jorge Helder. O contrabaixo de Helder já permeou obras de toda essa galáxia de estrelas em mais de 350 discos, postando-se no firmamento sempre como um ponto de apaziguamento, respiro, desdobramento.

Portanto, não é antinatural que o primeiro disco autoral em 40 anos como sideman do cearense Helder, Samba Doce, que está sendo lançado pelo Selo Sesc, pareça evocar tantas presenças – até mesmo porque parte delas está no disco, como convidada, casos de Chico Buarque, Rosa Passos, Dori Caymmi, Renato Braz, Boca Livre e o pianista italiano Stefano Bollani.

Samba Doce se apresenta como um disco da esfera do samba-jazz, mas extrapola largamente o conceito. Nas dez canções, o elástico de Helder estica entre o bebop e a gafieira, como na percussiva Passo o Ponto; esbarra no suingue do piano bar de hotel em Inocente Blues, com Rosa Passos; pela MPB de festival com Bolero Blues, sob a voz de novo juvenil de Chico Buarque. Para completar, o samba-ijexá Dorivá materializa um manifesto póstumo de Aldir Blanc que resume o Brasil, “um amor feito de luz e horror”. Dificilmente surgirá neste ano um disco tão refinado quanto esse Samba Doce de Jorge Helder, que equilibra até o som da Orquestra de São Petersburgo com os ecos do Beco das Garrafas da bossa. 

A capa é um desenho exclusivo do arquiteto (e um dos mais ativos compositores do País) Fausto Nilo, também cearense. O texto de apresentação, que publicamos integralmente abaixo, é de Caetano Veloso. Helder, que vive no Rio, tem uma atuação ativa na cena de sua Fortaleza natal, não sendo raro encontrá-lo tocando com novatos na noite da cidade.

 

DOCE JORGE

Caetano Veloso

De toda a cultura musical que se desenvolveu no pós-Beco-das-Garrafas, o samba-jazz virtuoso e inventivo, Jorge Helder é a expressão mais fiel – e, ao mesmo tempo, a mais pessoal e menos redutível ao padrão. Começa que Jorge é uma das melhores pessoas que conheci entre os músicos que há, sendo também um dos melhores músicos que há entre as pessoas. Nesse seu álbum autoral, encontram-se a doçura e a mordacidade harmônica: aquela nunca é sufocada por esta. “Samba Doce”, que abre o disco e o nomeia, é um manifesto desse casamento perfeito na complicada música instrumental brasileira. Logo vem um afro-samba com acento de ijexá saudando Caymmi, com as palavras sempre certeiras de Aldir Blanc, na voz de Dori, o mais marítimo dos filhos de Dorival. O samba-ijexá sugere polirritmias. Daí vem a Orquestra Atlântica – cuja conjunção de atabaques com metais não deixa de mostrar parentesco com a Rumpilezz de Letieres – saindo, sempre em samba, de um seis-por-oito só no couro. Mas há o piano extraordinário de Stefano Bollani: quantos pianistas há ou houve que produzam notas de tão imensa clareza? Clareza de toque, de timbre, de ideia de significado. Todas essas coisas que vou listando fazem jus à qualidade a um tempo sincera e cheia de intencionais surpresas das composições de Jorge. Mas aí chega Rosa Passos. A madrinha e namorada de todos os brasileiros amantes do jazz. Com sua voz inocente e escoladíssima, ela é a alma da música que atravessa todas as canções e peças de Jorge. Nessa, de que ela é parceira letrista, sua voz se esconde mágica e rebrilha natural. O Chico que canta o “Bolero Blues” é o grande músico que quase ninguém vê nesse letrista e escritor fluente e preciso. Se eu tivesse a capacidade de cantar com precisão essas notas inimagináveis de Jorge Helder, eu acho que não teria forças para me conter e não me entregar ao virtuosismo do instrumentista improvisador. Ele já vem (inclusive com a companhia de Jorge) mostrando em seus últimos discos quão supermúsico ele é. Mas as palavras são tão fortes que a gente quer se pegar à Barão da Torre e à Vinicius de Moraes. Mas o letrista passa ao castelhano e suas palavras sobre um amor em Cuba se espalham pelas vozes do Boca Livre, o arranjo de Maurício Maestro sempre à altura da melodia hiper-harmônica de Jorge. Mas o letrista volta ao português, redizendo em nossa língua exatamente o que disse em espanhol, reencontrando as coincidências entre as duas línguas ibéricas. Isso só da parte que ouvi do disco de Jorge Helder. A música brasileira está em festa com esse lançamento. O samba-jazz mais do que redime-se: reinventa-se e purifica-se. Jorge é um dos pontos altos da nossa música popular. Refina a tradição de música instrumental e traz a canção para dentro dela como ninguém.

 

 

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