Apesar da justa aclamação que a nostálgica personagem Mafalda causa em sua despedida, Joaquín Salvador Lavado, o Quino (1932-2020), foi muito além dela, situando-se como uma espécie de Renoir dos cartunistas: sua obsessão pelo detalhamento dos cenários de suas historietas, pela ambiência, pela figura humana circundada não apenas pela sua circunstância, mas pelo seu décor, tudo isso marcou sua obra como quase nenhum outro artista das “mass media” do seu tempo.

É curioso: Quino foi grandemente influenciado por Charles Schulz, o criador do Charlie Brown, um artista da era da produção em série, mas sua obra é por essência feita do rompimento com qualquer tipo de tentação industrial. Impactado pela tradição literária argentina da comédia de costumes, ele nunca se distanciou muito de alguns temas da crônica mundana: as desilusões amorosas, a traição conjugal, as pequenas maledicências comunitárias, a fé conspurcada, a infelicidade conjugal, a banalidade do crime. Esses temas, como se fossem disfarces, dançam em torno de um trio de preocupações centrais: a volúpia acumulativa do capitalismo, a sombra perene do autoritarismo e o desrespeito ambiental. Sua morte é, dessa forma, uma perda de grande simbolismo nesse retorno do vale tudo antidemocrático no mundo.

Postando-se desde sempre como um homem obsoleto que tivesse caído de um disco voador num mundo em acelerada mutação, ele zombou da dependência social do futebol, dos bens de consumo, da modernidade tecnológica, dos aeroportos lotados, dos sex shops, da medicina indiferente, do sarcasmo inerente à psicanálise. Fez tudo isso sem nunca se preocupar em uma presumível rejeição prévia do mercado, citando Goya em cartuns sobre a virulência corporativa, afogando executivos em gráficos das Bolsas de Valores, servindo minúsculos peões da vida executiva em restaurantes de rodízio em obras-primas como a coletânea Cuánta Bondad! (Editorial Lúmen, 1999).

Tudo é legado em Quino, do desenho enganosamente esquemático e simples à explosão de elementos semiológicos, personagens engolfados por letras e até papel picado. Mas o maior é a ternura – mesmo quando trata do trogloditismo do homem que só vê futebol e cerveja pela frente, ele demonstra amar sem medidas o ser humano. Foi idolatrado principalmente pelas esquerdas, mas nunca demonstrou lisonja nem por ser amado nem por ser bajulado. Sua arte tinha como argila principal o patético do homem moderno, mas o artista em si, quando ganhava as ruas e os festivais de quadrinhos, não era nem cáustico nem reverente, apenas infinitamente paciente e cavalheiresco. Esteve em São Paulo quatro vezes, e nas últimas foi ao teatro e juntou-se à plateia.

Sua produção pré-industrial foi reconhecida em todos os quadrantes. Ganhou o Prêmio Príncipe de Astúrias na Espanha e foi agraciado com a Ordem Oficial da Legião de Honra da França. Amava fazer seu trabalho lento e cáustico, que foi quem o empurrou até a eternidade. “Quando penso que vou abrir o jornal e não vou ver meus desenhos, me dá mais angústia e eu sigo desenhando. É como aquele chefe de estação de trem que se aposenta, mas volta todos os dias para ver se os trens passam no horário”.

 

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