Betto Pereira em ação em seu ateliê. Foto: Rose Carvalho
Betto Pereira em ação em seu ateliê. Foto: Rose Carvalho

Betto Pereira iniciou sua carreira aos 15 anos de idade tocando num conjunto de baile no bairro da Cohab, em São Luís do Maranhão, sua cidade natal. Tornou-se mais conhecido no lendário grupo Rabo de Vaca, em fins da década de 1970, quando ainda era Beto do Cavaco. Desde “Massaroca” (1986), seu primeiro elepê, firmou-se como um dos mais importantes nomes da música popular brasileira produzida no Maranhão, parceiro de nomes como Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro e Erasmo Dibell, entre outros.

Atualmente radicado em Petrópolis/RJ, Betto tem se dividido entre a música e as artes plásticas. Dono de um traço característico, suas telas invariavelmente retratam manifestações da cultura popular maranhense, como o bumba meu boi e o tambor de crioula. Bicicletas e papagaios – ou pipas, se assim preferir o freguês – também são frequentes em suas paisagens.

Recentemente Betto Pereira doou ao recém-reinaugurado Teatro João do Vale a tela “João do Vale e o carcará”. O equipamento cultural localizado na Rua da Estrela, Praia Grande, é dirigido atualmente pelo radialista Gilberto Mineiro, letrista de algumas composições do pintor – que acaba de disponibilizar nas plataformas de streaming a música “Maldito amor”, parceria dele com o poeta Félix Alberto Lima, interpretada em dueto com Zeca Baleiro.

Sobre a bela tela e o belo gesto, Betto Pereira conversou com exclusividade com Farofafá.

O artista em seu ateliê entre suas criações. Foto: Lara Carvalho
O artista em seu ateliê entre suas criações. Foto: Lara Carvalho

ZEMA RIBEIRO – Você já goza de reconhecimento como pintor, mas ainda é mais conhecido como cantor e compositor. Você tem preferência por um ou outro ofício?
BETTO PEREIRA – Tanto a música como a pintura têm o mesmo tempo. Claro que eu retomei as minhas artes plásticas agora, mas eu pinto e desenho desde 15, 16 anos, só que optei pela música, priorizei a música, mas nunca deixei de pintar e desenhar. Aqui eu estou fazendo o seguinte: estou pintando, enquanto está secando a tela eu vou pra viola, começo a compor, daqui a pouco dou uma parada lá, volto pra tela, as duas se completam e as duas precisam uma da outra; a minha música está nas telas e as minhas cores estão na minha música. Inclusive, nas minhas exposições, eu sempre canto, e tem temas relacionados às telas. Então fica bem bacana, por que a exposição tem aquela coisa um pouco fria, no sentido de a pessoa rapidinho ir passeando pelas telas, mas aí a música complementa, o mesmo artista que está pintando está cantando, a galera gosta muito. Essa coisa está sempre nas minhas exposições, eu posso mudar o tema, mas os dois estão sempre juntos.

A tela "João do Vale e o carcará", que Betto Pereira doou ao teatro que leva o nome do homenageado. Reprodução
A tela “João do Vale e o carcará”, que Betto Pereira doou ao teatro que leva o nome do homenageado. Reprodução

Como surgiu a ideia de retratar João do Vale e doar a tela ao teatro que leva seu nome, hoje dirigido pelo radialista e teu parceiro musical Gilberto Mineiro?
A ideia surgiu a partir de um bate papo com meu parceiro, a gente tem conversado muito e estamos compondo muita coisa, quase todos os dias e todas as horas a gente está se falando. Então o Gil me falou da reabertura do teatro, falou das lives do projeto do [teatro] João do Vale, que ele vai recomeçar, e eu falei: “poxa, vamos complementar, vamos botar um cenário, tem tudo a ver”. E eu já tinha uma vontade de ter alguma obra no Teatro João do Vale, naquele hall do teatro, eu já estava com essa ideia. Aí linkou as duas coisas e deu certo. Eu fiz com todo carinho do mundo. João do Vale é uma referência na minha música, na história da nossa música.

Fale um pouco do processo de preparação da tela. Alguma reverência especial, por se tratar de um ídolo e influência tua?
Na verdade a arte ela foi pintada num material chamado papelão Paraná, um papelão que se usa muito pra maquete, e eu uso quando eu não tenha que fazer uma tela, até por que eu envio minhas obras para todo o Brasil e a maioria vai enrolada. O papelão Paraná não pode ser enrolado, ele é duro, é um outro tipo, me dá uma outra opção com a minha arte, que é espatulada com pincel, tinta acrílica, então eu resolvi pintar o João do Vale com essa pegada do papelão Paraná, que é justamente para que o Gil use só a fotografia e mande fazer em canvas, que é um material que parece com tela e fica bem bacana também, ele pode mandar fazer do tamanho que for. A obra original está aqui comigo, no dia que eu for para São Luís eu levarei com certeza para o Teatro João do Vale.

Alcione, Nonato Buzar, Betto Pereira, João do Vale e Gilberto Gil no Circo Voador. Foto: Acervo pessoal do artista
Alcione, Nonato Buzar, Betto Pereira, João do Vale e Gilberto Gil no Circo Voador. Foto: Acervo pessoal do artista

Você conheceu João do Vale, chegou a cantar em show em sua homenagem. Que lembranças tem do mestre pedreirense?
Eu tive a honra de tocar com ele logo no meu começo, como instrumentista. Acompanhei muita gente da música produzida no Maranhão, vários compositores, e fui convidado, na época eu acompanhava muitos artistas, não só os maranhenses, mas também os nacionais, que vinham para São Luís fazer shows e não traziam banda. Aí sempre o Marcelo Carvalho, que é um pianista famosíssimo, nosso, eu sempre era o guitarrista dele, às vezes tocava contrabaixo, e cavaquinhista, violonista, dependendo do estilo do artista. E eu fui convidado para tocar com João do Vale e o acompanhei num show no Ginásio Costa Rodrigues, que era bem pertinho lá de casa. A minha história com João do Vale, ele participou, ele foi convidado, ele estava no camarim, olha que sorte a minha, eu fiz um show no Circo Voador, alguns anos atrás, com a participação da minha madrinha Alcione, a participação de Gilberto Gil, que é meu ídolo, Nonato Buzar, que estava presente no camarim, eu tenho essa foto, poxa, marcou a minha história como artista, foi um momento fantástico, maravilhoso, fora outros momentos que eu tive com ele, de assistir cenas fantásticas com o ídolo João do Vale.

O que te levou a se mudar do Maranhão para o Rio de Janeiro? Do que mais sente saudade em sua terra natal?
Continua aquela ideia, o nosso sonho de mostrar a música a nível nacional, e ainda, mesmo com toda essa tecnologia, internet, a gente tem que estar onde está a mídia, esse espaço de produção, os espaços para que se vire um artista nacional, no sentido de ser reconhecido com a tua história, então eu sempre tive vontade. E eu vim várias vezes, morei já no Rio, em São Paulo, como músico. Então desta vez eu recebi um convite do meu curador, que é o Carlos Dimuro, ele esteve em São Luís, eu retomei minhas artes plásticas, montei uma galeria no Jaracati [Shopping], ele esteve por lá, se apaixonou pela minha arte e falou: “olha, na hora que você estiver no Rio de Janeiro, não estou te prometendo nada, mas na hora que você for por lá me procure, por que sua arte tem que ser pro mundo, sua arte é universal”. E eu já estava com a ideia de vir para cá, junto com minha mulher, a Rose Carvalho, e eu digo: “quer saber duma coisa? Essa é a hora”. Então a gente fechou essa galeria do Jaracati, pegou as trouxas, botou na vareta e viemos embora pro Rio de Janeiro, e aqui estamos até hoje, são seis anos, eu moro aqui em Petrópolis, já vim direto, quando cheguei aqui já fui convidado para o Museu Nacional de Belas Artes, pra mim é o ponto mais alto da minha história como artista plástico, uma referência na América latina, o Museu Nacional, acabei ficando lá três meses expondo, em cartaz, e estamos até hoje, eu com o meu curador, e aqui estamos com nosso trabalho de arte e a música, claro, junto também, com o disco novo, então linkou as duas coisas. Saudades? A gente sente todos os dias. A gente quando está distante fica com mais saudade ainda, valoriza mais as nossas coisas. A minha referência é o Maranhão. A minha pintura tem que passar pelo ritmo, passa pela minha história de vida, minha infância, empinando papagaio, correndo atrás de papagaio, bolinha de gude, as coisas que a gente tem no Maranhão, que é muito forte, eu morei ali no Centro, atrás do Costa Rodrigues. A saudade bate, de tudo, além dos meus irmãos, que moram aí, a família de Rose, que é minha família, os amigos, parceiros, cada cantinho que a gente passa, compondo, cantando, tomando uma cervejinha, eu tenho uma história com essa terra, não só São Luís, o Maranhão inteiro, eu viajei muito compondo, fazendo shows. Eu tenho saudades do caldo de ovos do João, que é aí na Rua do Sol, tem muita coisa, se eu for falar aqui [risos], dá muita saudade. Mas agora mesmo eu estou com saudade de botar o pé na areia ali na Ponta d’Areia, ficar olhando pro mar e agradecendo a Deus por essa cidade que nos dá toda essa energia pra gente.

Como tem convivido com o isolamento social imposto pela pandemia da covid-19? E como foi para você, como artista e, sobretudo como maranhense, passar, pela primeira vez na história, um junho sem São João?
Nessa quarentena eu estou praticamente há sete meses em casa. Claro que com a família, com minha mulher, minhas filhas, que estão me dando esse suporte aqui para a gente passar dessa, se Deus quiser, tudo sair resolvido, mas eu tenho trabalhado muito, muito, até mais do que quando não estava acontecendo essa loucura toda. Para você ter uma ideia eu acordo sete horas da manhã, já começo a pintar, quando não tenho que fazer um jingle, quando não tenho que compor, então é um tempo integral, eu já vou descansar às vezes, lá pra 20 horas, 19 horas, quando escurece, que aí a luz já fica diferente na pintura. Aí eu vou pro quarto, pego o violão, já começo a compor novamente, por que já tem letra dos parceiros, fora isso as lives que a gente está trabalhando. É muita coisa. Parece assim que “ah, por que está em casa, não está fazendo nada”. Não, triplicado a minha história nessa quarentena. Claro, preocupado comigo, não sou mais menino, meia três [ele está com 63 anos de idade], a gente tem que se cuidar, realmente. Ainda bem que estou com a família, num lugar tranquilo, não estou saindo de jeito nenhum, e produzindo, produzindo direto. Quanto ao São João, é esquisito quando a gente não vai, ainda mais eu que tenho uma história com a temporada junina, tanto quanto com o carnaval, com o reggae, com os movimentos, não é que eu faça música da época, eu já componho, isso já faz parte da minha história como artista. Chegou o São João, a temporada, o Maranhão inteiro, claro que diminuiu muito com essa coisa das músicas que vêm de outras cidades, que prioriza o sertanejo, o forró e tal, deu uma diminuída nos shows que a gente faz nessa temporada, mas estar longe de São Luís, ainda mais na época junina, mesmo sem fazer um show, só estar participando dos arraiais, estar presente, aquela energia que só o maranhense sabe como é, é muito difícil, muito esquisito, ainda mais esse agora, que tem mais esse adendo, não é só a questão de não ir, mas juntar com a quarentena, não ter São João. Eu, por que estou longe, não consegui colocar isso na cabeça ainda. Eu imagino para vocês que passaram por isso, de realmente não ter, e muita gente precisando muito mais do que nós, gente da cultura popular. Pra mim é uma tristeza ficar sem o nosso São João, é algo que já faz parte da minha história.

Outro artista da música que também se arrisca entre telas e confessa a tua influência sobre a obra plástica e musical dele é Gildomar Marinho. Recentemente vocês assinaram uma parceria, a seis mãos, com Aziz Jr. Podes falar um pouco deste encontro? O que vem por aí?
Gildomar, você sabe, você conhece, é muito fácil de a gente lidar, é um cara muito inteligente, sempre antenado com tudo o que está acontecendo, e ele tem essa pegada minha, não só na música, como nas artes plásticas também. Estava faltando uma sacudida, né? Ele esteve em Petrópolis uma vez, ficou aqui em casa, a gente ficou uns dois dias juntos, surgiu até a ideia de quem sabe fazer um show juntos com essa coisa das telas, como eu tenho o Telas e Tons, que é um projeto que linka a música e as telas. Foi ele que me levou também pro [Centro Cultural] Banco do Nordeste, onde eu fiz uma exposição e um pocket show, lançando o disco com a parceria do banco, que é esse novo disco, “Tudo tem você” (2020), e aí eu sempre chamando ele de parceiro e a gente não tinha feito nada ainda. De repente, ele está gravando um disco, olha minha sorte, ele está em estúdio, e ele pegou e disse assim: “meu parceiro, o que tu tem aí pra nós?”. Com essa quarentena a gente está compondo mais distante do que outra coisa. Então eu peguei, “rapaz, eu tenho alguma coisa aqui”, e ele: “me manda aí o que tu tiver, eu saio complementando”. A gente sabe na nossa linguagem como funciona, mandei pra ele um comecinho de uma música, um samba que eu tava começando com Aziz, ele é tipo eu, quando deu meia hora ele me mandou o final da letra, com a melodia, com tudo pronto, eu digo: “ei, rapaz, o que é isso?”, e ele disse: “tá aí, vê se tu gosta”. Já vai pro disco dele, olha a minha felicidade. Então eu tenho sorte de ter um grande amigo e ter um parceiraço nas artes plásticas e na música também.

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Ouça “Maldito amor” (Félix Alberto Lima/ Betto Pereira), com Betto Pereira e Zeca Baleiro:

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