Indicado para representar o Brasil na corrida do Oscar, filme de Bárbara Paz faz vaquinha para ir a Hollywood

 

As obras documentais que margeiam a morte são diversas: vão desde O Homem Urso (Grizzly Man), de Werner Herzog, a Di-Glauber, de Glauber Rocha, passando pela literatura de Veia Bailarina, de Ignácio de Loyola Brandão. Talvez o que mais destaque Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou, de Bárbara Paz, é o fato de que se trata de um testamento em progresso. Morto de câncer em 2016, o cineasta Hector Babenco teve uma carreira de enorme repercussão internacional, uma das mais sólidas da cinematografia brasileira. Ao descobrir que ia morrer, ele fez um filme, O Amigo Hindu (2015), com William Dafoe, no qual pretendia se projetar na alma de um alterego e sua via crúcis hospitalar. Mas O Amigo Hindu deixou a desejar ao menos em um aspecto: não clareava muito as premissas e o método do cineasta.  

    O filme de Bárbara Paz, com quem Babenco foi casado, vem preencher essa lacuna e embute o manifesto estético do “filmmaker”, o fazedor de filmes. Nesse sentido, é um trabalho precioso. Sobrepujando a condição de protagonista do “filme sobre um homem que sabe que vai morrer”, Babenco se transmuta em professor de cinema, conduzindo com seu jeito blasé e enérgico a pulsação do filme da mulher, que, por sua vez, apreende esse esforço do marido docemente, sabendo que se trata também de um legado a ser passado adiante.

    “O hábito de fazer cinema é quase como um casulo. Nasce de algo, uma noz, uma coisa fechada. Nasce, brota, se desenvolve. Depois adquire uma identidade social, mas continua sendo uma sensação que o provocou”, afirma o diretor de Pixote, a Lei do Mais Fraco (1980) e O Beijo da Mulher-Aranha (1985), entre outros clássicos.

    O título em inglês do filme parece revelar mais sobre sua pretensão do que o astucioso título em português. Tell me when I die (Me conte quando eu estiver morto) embute a vontade de Babenco de influenciar quando já não manusear as narrativas. Ele permite a documentação de sua própria evanescência, mas é tocante seu esforço de fazer com que seja concisa, tenha certo grau de objetividade. “Não perca tempo romantizando cada momento. Do contrário, você terá um filme de 4 horas e 15 minutos. Você tem que saber sintetizar. Senão você vai fazer um seriado: A Morte de Hector 1, 2, 3…”. Nessa tensão se ergue um outro jogo.

    Babenco – Alguém precisa ouvir o coração e dizer: parou, que já está em cartaz desde o fim do ano passado, foi o filme escolhido para representar o Brasil na disputa de produções estrangeiras do Oscar 2021 (92 filmes foram inscritos). Também está listado na categoria Documentário do mesmo prêmio. Entretanto, como o governo de Jair Bolsonaro foi alijado da condição de avalista da escolha nacional, por sua sanha censória, a Agência Nacional de Cinema (Ancine), no dia 17 de dezembro, arquivou o pedido de apoio da produção e o filme teve de recorrer a uma vaquinha para promover a campanha ao Oscar. É possível vê-lo nas plataformas de streaming NetNow, Looke, Google Play Store, Apple Store, Vivo Play e Oi Play.

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