Muito se tem discutido sobre as razões de artistas com uma carreira já consagrada toparem se confinar em uma casa por semanas, abrindo mão completamente de sua privacidade e se submetendo a uma dinâmica bastante cruel de provas físicas e psicológicas. O primeiro reality show desse tipo no Brasil, a Casa dos Artistas, no SBT, revelou em 2001 para o grande público o roqueiro Supla e a atriz Bárbara Paz, que anos depois veio a dirigir o premiado documentário Babenco – Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, aposta do Brasil para o Oscar de 2021. Em sua segunda edição, em 2002, a Casa dos Artistas trouxe o rapper Xis, que já levava para milhões de lares brasileiros o debate sobre racismo e periferia, polarizando com outros participantes, e que abandonou o reality por se rebelar contra as mudanças de regras feitas arbitrariamente por Silvio Santos.

Já o reality show A Fazenda, da Record, leva a fama de abrigar subcelebridades, algumas delas que caíram em desgraça, como agressores de mulheres, e viram uma oportunidade para refazer sua imagem pública. No campo musical, os artistas convidados geralmente são cantores de brega dos anos 1970 e 1980, sertanejos e funkeiros, gêneros não muito respeitados pela elite cultural. Curiosamente, foi a partir de sua participação em A Fazenda que a desistente Gretchen acabou se tornando a rainha dos memes e gifs, renovando o seu público e recebendo até um convite para participar de um clipe da cantora estadunidense Katy Perry.

Em tese, até 2020 os participantes do Big Brother Brasil, o reality show da TV Globo, eram todos anônimos em busca de fama e/ou do prêmio milionário dado ao vencedor. Poucos, como Grazi Massafera, acabaram seguindo carreiras vitoriosas no mundo artístico. A edição do BBB de 2020, no entanto, trouxe uma novidade: a divisão da casa entre “pipoca”, participantes anônimos que se inscreveram para participar do reality, e “camarote”, participantes famosos convidados pela produção. A divisão, porém, não é muito nítida, não tanto em razão dos boatos de que alguns participantes anônimos foram ao longo de todos esses anos convidados por olheiros, sem ter que passar pelo processo de inscrição, mas principalmente porque, para milhões de brasileiros, os integrantes do “camarote” também são ilustres desconhecidos. Em tempos em que ter muitos seguidores nas redes sociais é fundamental para mobilizar torcidas enlouquecidas e trazer audiência para o programa, grande parte dos famosos do “camarote” são “digital influencers”, não propriamente artistas.

Chamou a atenção, na edição de 2021, o fato de o BBB trazer não só Fiuk e Carla Diaz, atores que estão atualmente na reprise da novela das nove, A Força do Querer, de Glória Perez, mas também os famosos rappers Karol Conká (que já foi tema de abertura de Malhação) e Projota (que já havia se apresentado mais de uma vez no BBB). Isso não impediu, porém, que o personal trainer Arthur Picoli, da “pipoca”, não reconhecesse nem Projeta nem Karol, chegando a perguntar se ela fazia parte da “pipoca” ou do “camarote”, o que rendeu um momento cômico para o programa e talvez constrangedor para a artista.

Conforme discutido em FAROFAFÁ no artigo sobre como a elite cultural do país não
entendeu a enorme comoção gerada pela morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo em 2015, os gostos musicais são em grande parte influenciados por fatores como classe social, raça, gênero, escolaridade e origem geográfica. Não é à toa, portanto, que o “pipoqueiro” Caio Afiune, fazendeiro de Goiás, tenha reconhecido imediatamente o sertanejo Rodolffo (da dupla Israel & Rodolffo), integrante do “camarote”, mas provavelmente um ilustre desconhecido para grande parte dos fãs de Projota e Karol Conká.

Babu Santana já era um premiado ator, com vários filmes em seu currículo, mas só conseguiu ficar conhecido pelo grande público com sua participação no BBB 20, elevando consideravelmente o patamar de sua carreira e gerando convites antes improváveis para estrelar campanhas publicitárias. Isso pode nos fornecer uma pista para compreender a razão de Projota ter cruzado a linha e, de cantor convidado, ter passado a competidor convidado do BBB. Os riscos, no entanto, são grandes. Independentemente de seu comportamento dentro da casa, os participantes não controlam a edição do programa e, portanto, podem sair do reality com a imagem arranhada, sem contar com o estigma de ser um ex-BBB, algo considerado fútil, que pode vir a fechar portas em determinados lugares.

A exposição em um programa como o BBB coroa uma nova forma de o artista se relacionar com seu público. Não basta lançar músicas novas e fazer novas turnês. O que se consome, mais do que a música, é a imagem do artista, suas opiniões, seu estilo de vida, suas identidades. Uma música nova rapidamente se torna obsoleta. Diante da necessidade de se manter o tempo todo ativo nas redes sociais para ter o máximo de visibilidade, postando sempre novidades e interagindo com o público, os artistas acabam expondo sua rotina, sua família, seus casos amorosos e até sua dieta. Cada posicionamento ou falta de posicionamento político é julgado pelo público, que pode premiá-los com o selo da “lacração”, mas também ameaçá-los com o cancelamento.

Ora, não é justamente isso que ocorre no BBB, mas elevado à milésima potência? O BBB não é, porém, o único reality show procurado por cantores já conhecidos em busca de mais visibilidade ou de uma segunda chance para alavancar a carreira. Depois de participar do reality show Popstars no SBT em 2003 e obter sucesso, Vinícius d’Black voltou aos shows de calouros como competidor em 2017, quando foi finalista do The Voice Brasil, na Rede Globo. Em 2019, Daniel San, ex-vocalista do grupo de sucesso Sambô, participou do quadro de calouros Se Vira nos 30, no Domingão do Faustão, e não foi reconhecido pelo apresentador. Essas participações ora são vistas como um rebaixamento na carreira, ora como uma demonstração de humildade de quem quer recomeçar. Ao mesmo tempo, questiona-se se seria justo colocar calouros desconhecidos para competir lado a lado com calouros já famosos, o que poderia influenciar tanto no voto dos jurados quanto da audiência.

A controvérsia ficou ainda maior em janeiro deste ano com a estreia do The Voice+, destinado apenas a calouros com mais de 60 anos de idade. Na primeira fase do programa, quatro jurados, os cantores Daniel, Claudia Leitte, Mumuzinho e Ludmilla, escutam os candidatos de costas para eles. Se gostam da voz, viram suas cadeiras, classificando-os para a fase seguinte. O formato das audições às cegas, que faz com que os jurados avaliem apenas as vozes, em tese parece mais justo, tendo em vista o nome do programa. Por outro lado, não se pode ignorar que um cantor não é apenas uma voz, mas também visual, figurino, emoção, memória afetiva, presença de palco, carisma, repertório, personalidade, performance e, sem dúvida, nome e história. Além disso, o programa sofre críticas por privilegiar um tipo de canto, mais próximo do soul estadunidense, com seus malabarismos vocais, em detrimento de outros. Em 2019, Toni Tornado, jurado do reality show Popstar, na Rede Globo, declarou, ao julgar Totia Meireles, que “cantar pior que Chico Buarque é impossível”. Se dependesse dele, portanto, Chico seria gongado.

Não se pode esquecer ainda que para um cantor ser reconhecido como tal não basta ele cantar bem nem se autodeclarar como cantor, mas deve ter o respaldo do público ou de instâncias legitimadoras como a imprensa e outros artistas. A experiência feita em 2007 com o célebre violinista Joshua Bell no metrô de Washington mostra isso. Acostumado a tocar em grandes palcos por gordos cachês, com ingressos esgotados, foi praticamente ignorado pelos transeuntes no novo contexto, tocando como um músico anônimo. Da mesma forma, o cantor Sixto Rodriguez, que teve sua história contada no premiado documentário Searching for Sugar Man, passou anos vivendo uma vida comum nos EUA sem saber que era uma celebridade na África do Sul, onde seus álbuns gravados no início dos anos 1970 viraram cult. Nesse sentido, um grande cantor, com muito mais voz e carisma que cantores famosos, pode passar a vida inteira sendo ignorado e ser enfim reconhecido apenas na maturidade. Essa é a razão pela qual o lema do The Voice+ é “os sonhos não envelhecem”. Essa narrativa de redenção emociona e atrai a audiência.

Uma vez tendo o seu nome legitimado no meio artístico, porém, o cantor não está imune à desgastante pressão de se reafirmar constantemente, seja perante o público, seja perante a crítica. Até uma cantora do gabarito de Elis Regina era insegura e se deixava afetar por essa necessidade de ser respaldada. Com raras exceções, as carreiras de cantores já consagrados estão cheias de altos e baixos, o que se reflete inclusive em seus cachês. Tom Zé e Elza Soares, por exemplo, passaram por momentos de ostracismo até se reencontrarem com um público renovado e os “formadores de opinião”. Esse fato diz menos sobre o talento dos artistas e mais sobre o funcionamento da indústria cultural.

A participação no The Voice+ de cantores que fizeram sucesso e atualmente estão sem grande visibilidade na grande mídia, como Dudu França e Claudya, gerou controvérsia não tanto pela acusação de estarem em vantagem em relação aos calouros desconhecidos, mas por outras razões. Um cantor consagrado se submeter à aprovação de quatro jurados com muito menos estrada seria uma situação constrangedora, e ainda mais quando não são reconhecidos por eles, como os dois citados não foram. O risco de não ter nenhuma cadeira virada aumentaria ainda mais o constrangimento. Dudu França teve as quatro cadeiras viradas, mas Claudya, cantando seu sucesso “Deixa Eu Dizer”, de autoria de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, só fez a cadeira de sua xará Claudia Leitte virar e, mesmo assim, nos últimos segundos. O constrangimento talvez seja maior para os próprios jurados do que para os “calouros”. Além da gafe de não reconhecer os cantores veteranos ou de não virar a cadeira para eles, fica a saia justa de justificar sua eliminação na fase em que os candidatos fazem duelos musicais entre si em busca de uma vaga.

A escolha dos jurados do programa foi criticada, nesse sentido, não só pela falta de representatividade em relação aos maiores de 60 anos de idade, mas principalmente por terem demonstrado falta de conhecimento e de memória musical, um mal que assola o país como um todo, mas que teoricamente não deveria assolar um “júri técnico”. Se a proposta do programa era fazer uma audiência às cegas, os jurados não reconhecerem previamente as vozes dos candidatos não seria um problema, mas até algo positivo. No entanto, conforme já dito, em uma asséptica audição às cegas não são avaliados todos os outros elementos que fazem um grande cantor além de uma voz e que fazem com que o público e a crítica continuem prestigiando cantores que já não têm as mesmas condições físicas de se apresentar como antes. No discurso humilde e de reverência que parece ensaiado e é repetido várias vezes pelos jurados do The Voice+, são eles que aprendem com os candidatos, famosos ou não, e não o contrário. Há, por fim, que se ter em mente que os quatro jurados são representantes de quatro vertentes musicais comumente estigmatizadas como inferiores à MPB e ao rock: o sertanejo (Daniel), o axé (Claudia Leitte), o funk (Ludmilla) e o samba/pagode (Mumuzinho e Ludmilla). A desqualificação do júri pode, assim, também estar permeada de preconceito. Resta questionar se um jurado representante da MPB reconheceria a voz do quase sexagenário Abdullah, um veterano do funk.

O formato do The Voice, como o de qualquer show de calouros, pode parecer cruel, ainda mais para calouros com mais de 60 anos de idade e ainda mais para calouros com mais de 60 anos de idade que já tiveram seus dias de glória na grande mídia e foram “esquecidos”. Vivemos, porém, em uma sociedade em que as pessoas são valorizadas enquanto produzem e que descarta seus idosos, assim como a indústria cultural descarta artistas respeitados, ao mesmo tempo em que é acusada de fabricar artistas “descartáveis” apenas com o fim de lucrar. O meme “morreu ou tá na Record?” é emblemático para demonstrar a força que a Rede Globo e seu prestigioso “padrão de qualidade” possuem para manter viva aos olhos do grande público a carreira de artistas que não se contentam em serem conhecidos ou lembrados apenas por um público reduzido, mas fiel, em um circuito mais “alternativo”.

Como já dito no artigo Cyrano de Bergerac não chora, publicado em FAROFAFÁ, compositores de grandes sucessos da música brasileira são invisibilizados quando não são os principais intérpretes de seus sucessos. Abrindo espaço para compositores como Ronaldo Barcellos cantar a sua “Cada Um, Cada Um”, sucesso com Claudio Zoli, o The Voice+ não deixa de reparar, em certa medida, uma injustiça histórica. Em um momento tragicômico do programa, Claudia Leitte elogiou Ronaldo, sem reconhecê-lo, dizendo que ele havia cantado a música como se fosse dele e não de Zoli. Ironicamente, as cadeiras não se viraram para Claudio DaMatta, compositor de sucessos de Xuxa e Sandy & Junior, quando cantou “Lembra de Mim”, de Ivan Lins e Vitor Martins. Nenhum dos jurados havia se lembrado dele.

Ainda na década de 1960, quando a grande vitrine eram os festivais da canção, Tom Jobim, um artista mais do que consagrado, passou pelo constrangimento de ter sido vaiado por quem preferia que a canção vitoriosa fosse “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré, e não “Sabiá”, sua parceria com Chico Buarque. Para quem vive de cachês, mas também de aplausos, pode ser tentador participar de um programa com uma audiência tão grande como The Voice+, ainda mais quando há tão poucos programas na TV aberta para os quais esses cantores veteranos são convidados. Muitos artistas veteranos vivem em um limbo. Não estão mais na crista da onda para serem convidados para cantar em programas de auditório com regularidade, mas são superqualificados para cantarem em programas de calouros, drama que atinge também pessoas mais velhas e super qualificadas em busca de um emprego fora do meio artístico.

Ainda que o maior problema não seja colocar cantores veteranos para competir como calouros com outros cantores desconhecidos e sim o fato de não serem reconhecidos, não podemos esquecer que esses cantores consagrados têm que se submeter todos os dias, ainda que não tão explicitamente, ao julgamento de programadores e jornalistas culturais jovens que tampouco conhecem suas histórias e sua importância, mas que estão sempre dispostos a abrir espaço para artistas novatos considerados “cool”. Talvez o que tenha chocado no programa foi mostrarem na frente das câmeras de forma espetacularizada o que já ocorre nos bastidores.

Deparamo-nos com algumas perguntas nem sempre simples de responder. Impedir um cantor veterano de “se expor ao constrangimento” é um ato de amor e respeito à sua história ou um ato autoritário de quem infantiliza veteranos que só querem um palco para cantar, sem levar a competição tão a sério, e se tornar conhecidos para um público mais jovem? Talvez a solução fosse destinar um quadro do programa à apresentação de artistas considerados hors concours. De qualquer forma, já que artistas veteranos são ora esquecidos ora sacralizados, é urgente dessacralizar pelo menos o palco dos programas de calouros. Chacrinha, que vinha para confundir e não para explicar, bagunçava justamente essas noções de “camarote” e “pipoca”, de “bom gosto” e “mau gosto”, misturando jurados “sérios” e “ridículos”, colocando candidatos “sérios” para competir com candidatos “ridículos” e, portanto, fazendo um programa em que o veredito de quem era o vencedor era o de menos. Mais do que competir, o importante era divertir.

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