Jards Macalé: eu só faço o que quero. Capa. Reprodução
Jards Macalé: eu só faço o que quero. Capa. Reprodução

Quando Jards Macalé lançou seu segundo elepê solo, “Aprender a nadar”, em 1974, a performance de lançamento incluía um mergulho dos músicos nas águas da Baia de Guanabara, por entre os vãos da recém-inaugurada Ponte Rio-Niterói. É um mergulho profundo o que faz Fred Coelho em “Jards Macalé: eu só faço o que quero” [Numa Editora, 2020, 496 p.; R$ 83,00], ensaio biográfico de fôlego que, entre outros feitos, ajuda a ao menos espanar o rótulo de maldito com que o artista conviveu durante toda a sua trajetória.

A partir de conversas com o perfilado e com pares de gerações (aquela com que surge e uma outra que, em vez de maldito, passou a chamá-lo professor), pesquisa documental e uma prosa elegante, Coelho localiza a real grandeza de Jards, artista que nunca se submeteu aos ditames de gravadoras (embora sempre buscasse as melhores condições, fornecidas por elas, para realizar seus álbuns – por isso gravou pouco no início da carreira) nem seguiu fórmulas ou modas para fazer sucesso.

A obra de Macalé abriga os mais diversos gêneros, fruto de sua não filiação a escolas ou guetos e a inteira liberdade criativa, sem amarras ou preconceitos. Discípulo direto de um sambista como Nelson Cavaquinho e devoto de Paulinho da Viola, o carioca nunca escondeu sua paixão pelo jazz e pela bossa nova, sem deixar de lado o interesse por música erudita – chegou a ser aluno de expoentes do violão clássico, como Turíbio Santos e Jodacil Damasceno. Aos que ousam mergulhar para além da superfície da MPB, Macalé é autor de verdadeiras joias, como “Vapor barato”, “Revendo amigos”, “Anjo exterminado”, “Rua Real Grandeza” e “Farinha do desprezo”, para citar umas poucas.

O livro de Fred Coelho cobre a trajetória de Jards Macalé desde a fase pré-tropicalista, que acompanhou João do Vale, Zé Keti e uma então desconhecida Maria Bethânia, no show “Opinião”, que ajudou a projetá-la, em 1965. Em sequência, Macalé acompanharia Gal Costa em disco, arranjaria e tocaria violão no londrino, controverso e clássico absoluto “Transa” (1972), de Caetano Veloso, até gravar o disco de estreia, no mesmo ano, cantando e tocando violão, acompanhado de outros dois músicos que ajudaram a moldar o som da Tropicália: o guitarrista Lanny Gordin, que assinou o contrabaixo (e realizou ali algumas das mais expressivas linhas do instrumento na história da MPB) e o baterista Tutty Moreno.

Passa por discos igualmente antológicos como o citado “Aprender a nadar”, “Contrastes” (1977), o coletivo “O banquete dos mendigos” (gravado em 1973, por ocasião do aniversário de 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas só lançado em 1979), “Let’s play that” (dueto com Naná Vasconcelos gravado em 1983, mas só lançado em 1994), “Quatro batutas e um coringa” (em que homenageia Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, Lupicínio Rodrigues e Geraldo Pereira, 1988), “O q eu faço é música” (1998), “Jards Macalé canta Moreira da Silva” (2001), homenagem ao amigo então recém-falecido, com que percorreu o país em shows em dupla, “Amor, ordem e progresso” (2003), a trilogia gravada e lançada pela Biscoito Fino – “Real Grandeza” (2005), “Macao” (2008) e “Jards” (2011) – até desaguar em “Besta fera” (2019), o disco mais recente do professor, gravado com a adesão de músicos da nova cena paulistana, entre os quais Kiko Dinucci, Rômulo Fróes, Ava Rocha (filha de seu amigo e parceiro Glauber) e Tim Bernardes, entre outros.

Como a obra de Macalé segue em progresso, com o artista fazendo lives em tempos de isolamento social – a pandemia de covid-19 já comparece ao atualíssimo texto –, e planejando novos discos, assim mesmo, no plural, o livro não se encerra em si (nem poderia), como estamos acostumados a esperar de uma biografia.

Seu grande trunfo é jogar luz sobre a importância de Jards Anet da Silva para a cultura nacional, bem como de seu mais famoso personagem, Jards Macalé, além de cantor, compositor e violonista, ator. Se a origem controversa do apelido é o de um famoso perna de pau que jogou no Botafogo (Macalé torce para o Flamengo), a música brasileira ganhou para sempre um craque de primeira linha.

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