A compositora Chiquinha Gonzaga arrombando os ambientes que os homens achavam que fossem exclusivos no século 19

A maestrina Chiquinha Gonzaga operou muitas transgressões. Foi mulher independente na sociedade patriarcal brasileira (só que do século XIX, quando não existiam ativistas). Casada por obrigação aos 13 anos, separou-se do marido assim que descobriu que ele planejava mandar nela e desprezava a música. Introduziu nos salões dos aristocratas os ritmos populares, como a polca e o maxixe, dando a partida para uma música genuinamente brasileira. Desafiou as regras da hierarquia social, ignorando os ditames de sua classe de origem, e foi também abolicionista. Namorou, aos 52 anos, um rapaz de 16.

Com esses condimentos, a vida de Francisca Edwiges Neves Gonzaga (1847-1935) já foi, evidentemente, objeto do fascínio recorrente das artes e das multidões: foi tema de enredo da Imperatriz Leopoldinense, alicerçou musical cênico de Maria Adelaide Amaral (Abre Alas) e foi minissérie na tevê com Gabriela e Regina Duarte (numa adaptação do livro de Dalva Lazaroni), entre outras revisitações.

Mas a Ocupação Chiquinha Gonzaga, que se abre na Avenida Paulista no próximo dia 24, também dá relevo a outros aspectos da vida e da prodigiosa obra da compositora (autora de mais de 2 mil composições 77 partituras para peças teatrais, sendo a primeira mulher a compor para o teatro). Para começar, a exposição realça a negritude de Chiquinha, muito raramente abordada em obras biográficas. Ela era filha do marechal de campo José Basileu Gonzaga com uma mulher parda, Rosa Maria de Lima, filha de uma escrava negra (e teve como antepassado o inconfidente moçambicano Tomás Antonio Gonzaga). 

Para que fosse admitida como a grande figura feminina da música popular brasileira (seu aniversário de nascimento, 17 de outubro, foi escolhido com justiça como o Dia da Música Brasileira), Chiquinha passou por um processo de embranquecimento tácito nas últimas décadas. Autora de obras imemoriais da cultura brasileira, como Ó Abre Alas, Lua Branca ou Corta Jaca, que atravessam já dois séculos, Chiquinha terá um pequeno tesouro de sua memorabilia aberto no Itaú Cultural. Um broche com pauta de uma valsa da opereta A Corte na Roça, de 1884, que ela ganhou de críticos teatrais, estará em exposição, assim como fotos e documentos inéditos; e também a partitura da famosa Ó Abre Alas, sucesso de todos os carnavais, que ela compôs para o Cordão Rosa de Ouro em 1899.

Se Chiquinha pudesse ouvir os músicos negros Di Ganzá, Amaro Freitas, Ana Karina Sebastião e Mestrinho interpretando suas composições nos monitores da exposição, certamente sentiria uma imensa satisfação em descobrir que seu legado foi efetivamente descoberto, mesmo num tempo tão longínquo e complicado. A curadoria é do Itaú Cultural e da cantora Juçara Marçal.

Ocupação Chiquinha Gonzaga. Itaú Cultural. Grátis. De 24 de fevereiro a 23 de maio, terças a sextas-feiras, sob agendamento pelo sympla.com.br/agendamentoic.

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