Um livro do historiador Raphael Alberti revela a inédita dupla ação política de um personagem da era anterior ao golpe de 1964

 

O ambiente social subterrâneo que antecede um golpe de Estado guarda muitos segredos e sacrifícios que, se revelados, ajudam a entender a própria natureza do golpe. Um pequeno livro-reportagem lançado este mês pela Cepe Editora, de Pernambuco, joga luzes sobre um caso esquecido que tem essa capacidade de iluminar o entendimento do golpe de 1964. Trata-se de Um Espião Silenciado, do historiador carioca (e professor de história em Caruaru) Raphael Alberti, que investiga a morte de um agente duplo, José Nogueira, informante tanto de comunistas quanto de anticomunistas, em 3 de março de 1963, após uma queda da janela do seu apartamento na Cinelândia, no centro do Rio. 

José Nogueira era integrante do Movimento Anticomunista (MAC) e de organizações de extrema-direita, como o Ibad. Mas, após presenciar atentados, sabotagens, ações racistas e tentativas de assassinatos dos aliados, ele passou a municiar nacionais-reformistas e a esquerda de informações (além de jornalistas como Zuenir Ventura, da Tribuna da Imprensa, e Pedro Müller, do Jornal do Brasil). Nogueira concluiu que a extrema-direita estava forjando um ambiente de rejeição às ideias dos socialistas para criar um ambiente propício a ações violentas. Ele revelou a existência de uma sociedade semelhante à Ku Klux Klan norte-americana, a racista Ordem Suprema dos Mantos Negros (também chamada de Maçonaria da Noite).

Após cair, presumivelmente por acidente, do terceiro andar do lugar onde vivia, ele foi levado ao Hospital Souza Aguiar, em coma, mas logo foi removido por ordem do almirante Pedro Paulo Suzano (ministro da Marinha, aliado do presidente João Goulart) para o Hospital Central da Marinha, onde morreu no dia 13 de março.

A polícia concluiu muito rapidamente que a queda de Nogueira tinha sido acidente. Mas a investigação do historiador revela que essa versão foi depois questionada pela própria imprensa (o jornal Última Hora ouviu o médico que o atendeu, que afirmou que ele foi jogado já inconsciente para a morte). Nogueira tinha queimaduras nas mãos e nas pernas, além de escoriações, mas a polícia não chamou a perícia. E a casa do jornalista tinha sido vasculhada uma semana antes do assassinato. “Eles não sabem onde está o que procuram”, chegou a afirmar Nogueira. 

Ao investigar hoje, 57 anos depois dos fatos daquele período, Raphael Alberti se deparou com inexplicável má vontade dos órgãos da Marinha. Ao revelar o destino do espião duplo, ele crê que ajuda a revelar “como o anticomunismo se inseria numa perspectiva internacional de um mundo polarizado” e a dominação política, econômica e cultural dos Estados Unidos. Mostra também como a polícia pode servir aos aparatos da radicalização política clandestina ao longo dos tempos.

Um Espião Silenciado. De Raphael Alberti. Cepe Editora, 30 reais, 137 págs. 

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