Portuñol. Still: Pedro Clézar/ Divulgação
Portuñol. Still: Pedro Clézar/ Divulgação

A expressão “portunhol” sempre foi usada, em geral pejorativamente, referindo-se a um espanhol mal falado, quase sempre fruto da displicência de brasileiros que acham que a língua espanhola é apenas um português enrolado, no que se enganam redondamente.

O tema foi levado a sério a partir do início dos anos 2000, por iniciativa de um grupo de escritores encabeçado pelo poeta carioca Douglas Diegues, além de nomes como Joca Reiners Terron, Marcelino Freire, Ronaldo Bressane e Xico Sá, entre outros.

O primeiro fundou a editora “cartonera” Yiyi Jambo e especializou-se em traduções a uma espécie de língua inventada, o “portunhol selvagem”, que se vale de uma mescla de português, espanhol e guarani, línguas faladas nas fronteiras do Brasil com a Argentina, a Bolívia, o Paraguai e o Uruguai.

Em 10 de fevereiro de 2008, Ronaldo Bressane escreveu nO Estado de S. Paulo a primeira matéria publicada em portunhol por um veículo da imprensa brasileira; um ano antes, Xico Sá publicou o romance “Caballeros solitários rumo ao sol poente” (Editora do Bispo, 2007), escrito em “portunhol selvagem”.

Portuñol. Cartaz. Leo Lage/ Reprodução
Portuñol. Cartaz. Leo Lage/ Reprodução

É essa zona de fronteira, espécie de babel em que todo mundo se entende, o tema de “Portuñol” [Brasil, 2020, 70 minutos] , documentário de Thais Fernandes, vencedor do Festival de Cinema de Gramado em 2020 – o filme estreia amanhã (18), nas plataformas de streaming Now, Oi Play e Vivo Play (via Canal Brasil).

Entre aduanas, rappers e resistência indígena – as duas últimas são, por vezes, a mesma coisa – “Portuñol” nos apresenta uma riqueza cultural desconhecida da maioria dos brasileiros, que consome mais o pop da Inglaterra ou Estados Unidos, cantados em inglês, que de nuestros hermanos latino-americanos, e se soma aos esforços de compreensão daquele movimento, desencadeado há mais de 10 anos.

Road movie de encontros, “Portuñol”, para além dos idiomas que traz, reflete também sobre o próprio conceito de fronteira, que, em se tratando de linha imaginária, é invisível como as línguas, mas são traduzidos imageticamente pela diretora, que também assina o roteiro da obra sensível que apresenta ao grande público brasileiro uma realidade desconhecida, a partir de conversas com artistas, comerciantes, professores e estudantes.

Thais Fernandes não conhecia nenhum dos entrevistados antes de filmá-los, ou seja, os encontros se deram realmente em frente às câmeras. “Ao longo do caminho o espaço se perde, e o que importa já não é mais onde estamos, mas sim quem são as pessoas que constroem essa identidade latina diversa”, afirma.

Se Pablo Milanés escreveu sua “Canción por la unidad latinoamericana”, o documentário de Thais Fernandes é cinema pela unidade latino-americana.

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Veja o trailer:

Serviço: “Portuñol”, documentário de Thais Fernandes. Brasil, 2020, 70 minutos. Estreia nesta quinta (18) nas plataformas de streaming Now, Oi Play e Vivo Play (via Canal Brasil).

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