Luis Filipe de Lima, Bruno Barreto, João Cavalcanti, Pedro Miranda, Paulino Dias, Thiago da Serrinha e Alfredo Del-Penho, o Samba da Gávea. Foto: divulgação
Luis Filipe de Lima, Bruno Barreto, João Cavalcanti, Pedro Miranda, Paulino Dias, Thiago da Serrinha e Alfredo Del-Penho, o Samba da Gávea. Foto: divulgação

Documentário conta a história da tradicional roda de samba que anima as noites de segunda-feira na Gávea

O lugar é uma padaria, um espaço de cafés e bolos, onde cabem cerca de 60 pessoas, apenas. Mas a aconchegante Da Casa da Táta se transforma em um verdadeiro botequim quando, às segundas-feiras, às 20h, é ocupada pela roda do Samba da Gávea: Alfredo Del-Penho (voz e violão), Bruno Barreto (voz, repique de anel e tambor), João Cavalcanti (voz, tantã e tamborim), Luís Filipe de Lima (violão sete cordas), Paulino Dias (voz, agogô, tamborim e surdo), Pedro Miranda (voz, pandeiro e reco-reco) e Thiago da Serrinha (voz e cavaquinho) desfilam seus repertórios sem qualquer tipo de amplificação.

O encontro semanal não acontece desde março do ano passado, quando a pandemia de covid-19 fez serem deflagradas medidas de segurança sanitária que restringiram qualquer atividade cultural presencial no país. A história da roda de samba é engenhosamente contada no documentário “Samba da Gávea – Prendi meu coração nesse lugar”, que estreou ontem (20), no canal do grupo no youtube – e tem novas sessões agendadas: hoje (21), às 15h, e amanhã (22), às 20h, horário do encontro semanal que “vai voltar” (tão logo a pandemia permita), como afirma, categórico, Pedro Miranda.

João Cavalcanti concedeu entrevista a este repórter e Gisa Franco, no Balaio Cultural de ontem (20), na Rádio Timbira AM (assista acima). Na ocasião revelou ter ajudado a decupar quase um terabyte de filmagens e a esta farta documentação da mítica roda de samba somaram-se gravações realizadas exclusivamente para o documentário e um EP, espécie de trilha sonora com quatro faixas inéditas, de autoria de integrantes do grupo – “Festa de Erê” (Thiago da Serrinha), “Azimute” (João Cavalcanti), “Vida de moleque” (Thiago da Serrinha) e “Mana que emana” (Thiago da Serrinha e Bruno Barreto) – e uma regravação de “Onde a dor não tem razão” (Elton Medeiros/ Paulinho da Viola), que acabou se configurando no abre-alas do encontro. Junto a esta, àquelas já nascem clássicas, cantadas por todos a plenos pulmões.

Por falar em encontros, estes saltam aos olhos: é na roda do Samba da Gávea que Zélia Duncan e Ana Costa cantam, pela primeira vez, o hino feminista “Uma mulher”; Dóris Monteiro é cortejada por um dos membros da roda, que graceja-lhe com o violão, trazendo a seresta de sua bonita voz miúda para dentro do samba – “tudo é samba”, ensinou-nos João Gilberto – e, de repente, lá está ela cantando “Conversa de botequim” (Noel Rosa). Thiago e Pretinho, ambos da Serrinha, geografia e sobrenome artístico comuns, também se encontram por lá, num improvável itinerário Serrinha-Serrinha, via Gávea.

A edição é um primor: as restrições sanitárias impediram o encontro dos músicos para gravar as faixas inéditas, então cada um foi à Da Casa da Táta individualmente e o uso de closes faz o espectador imaginar que todo mundo está junto. A roda do Samba da Gávea é também um espaço de formação de plateia, estamos falando também de educação musical: o silêncio exigido para que se ouçam instrumentos e canto sem amplificação ensina bastante.

Não há um roteiro pré-estabelecido, a dinâmica da roda flui naturalmente, tanto entre os músicos do grupo quanto com os convidados. Talvez isto explique os ares místicos que envolvem a já tradicional roda de samba. Dia 16 de abril de 2018, sabedores da internação de Dona Ivone Lara em um hospital próximo, cantaram vários clássicos de sua lavra. João Cavalcanti teria compromisso cedo no outro dia e chamou um uber para ir para casa. No carro, abriu uma rede social no celular e deparou-se com a notícia do falecimento da compositora. Imediatamente enviou mensagem avisando aos parceiros, que continuaram com a homenagem.

A realização do documentário foi possível graças à Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc, mais que nome de lei, um dos mais importantes personagens da cultura brasileira, criador em várias frentes, vítima, como outros quase 300 mil brasileiros, do coronavírus. Vera Mello recita o poema “Inimigo nosso”, dele, e o verso “a alegria esbofeteia a despedida” deixa um gosto de quero mais em quem assiste ao média-metragem dirigido, produzido e roteirizado por Eduardo Hunter Moura. Este, aliás, o único defeito da roda de samba e do documentário que a retrata: ambos acabam.

Serviço: o documentário “Samba da Gávea – Prendi meu coração nesse lugar”, de Eduardo Hunter Moura, terá novas exibições hoje (21), às 15h, e amanhã (22), às 20h, no canal do grupo no youtube; o filme não ficará disponível após as sessões.

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