Cena de
"Druk", filme de Thomas Vinterberg - Foto Divulgação

Situado entre a comédia e o drama, Druk, de Thomas Vinterberg, concorrente ao Oscar de Melhor Filme Internacional, tem recebido acaloradas recepções por onde passa. É sinal de que a mensagem dessa sátira social foi além do que a controvertida história poderia transmitir. Em resumo, o longa é sobre quatro professores que decidem se embriagar enquanto dão aulas, baseados numa teoria de que com um pouco mais de álcool no sangue eles se tornariam mais felizes e bem-sucedidos.

O filme, como se vê, começa com um discurso aparentemente amoral. Quem gostaria que seus filhos tivessem aulas com professores alcoolizados? Ao mesmo tempo, é engraçado perceber que a proposta faz sentido e o desafio de chamar a atenção dos estudantes blasés talvez requeira mesmo mais uma dose etílica. O professor de história Martin (Mads Mikkelsen) vive crises pessoais e profissionais e recebe o apoio dos colegas de trabalho Tommy (Thomas Bo Larsen), Nikolaj (Magnus Millang) e Peter (Lars Ranthe). Eles formam uma confraria em prol não da bebida, mas de uma vida menos angustiante.

Em uma das cenas de virada do filme, o filósofo dinamarquês Kierkegaard é invocado durante o exame de um estudante que não se acha capaz de avançar nos estudos e na vida. Precursor do existencialismo, Kierkegaard refletia sobre se haveria verdades subjetivas ou objetivas e sobre a angst, palavra utilizada pelos povos nórdicos para descrever a insegurança e o medo na vida humana. Professores e alunos, papéis que um dia todos já assumimos, vivemos em um estado de angústia e ansiedade que nos aprisiona e pode nos imobilizar. Vinterberg, com Druk, aprofunda-se nessas questões.

Crítico ao alcoolismo que faz parte da realidade dinamarquesa, o filme tende a se encaminhar, mais para o final, para uma visão moralista, o que seria um pecado. Os protagonistas enfrentam as consequências de uma dose seguida de outra e percebem que a teoria posta em prática estava fadada a naufragar. Porém, Vinterberg, que concorre também ao Oscar para Melhor Diretor, não fundou, com Lars von Trier, o movimento Dogma 95 à toa. A partir de um manifesto que defendia um cinema mais realista e menos hollywoodiano, pirotécnico ou dependente de truques tecnológicos, o Dogma causou furor com filmes como Festa de Família e Os Idiotas, ambos de 1998. 

O movimento ficou para trás, mas Druk bebe nas origens de um cineasta que se preocupa em não soar artificial e que considera uma obra cinematográfica como uma tela de pintura. O longa se desenvolve sobre as aparências de vidas normais, sem, ao final, apresentar uma opinião tendenciosa sobre a bebida. É, afinal, apenas o retrato de algo socialmente aceito. O filme estreia dia 25 de março nos cinemas brasileiros que estiverem abertos e  também nas plataformas de streaming.

Druk. De Thomas Vinterberg. Dinamarca, Suécia e Holanda, 2020, 117 mins.

 

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